Carlos do Complexo em expansão

“Eu me desprendi de gêneros nesse álbum. O que eu achar maneiro vou colocar, vou integrar, tentando adequar à minha identidade”; o músico carioca destrincha os conceitos sonoros e narrativos de “Torus” e explica por que a música eletrônica brasileira é “o verdadeiro underground mundial”

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Fotos: Mateus Augusto Rubim / Nathalia Rocha

E se você pudesse deixar tudo para trás e sumir do mapa? Em todo o mundo, diversas pessoas decidem desaparecer sem deixar rastros, abandonando suas casas, empregos e famílias para começar outra vida. No Japão, essas pessoas contratam empresas especializadas em fazer essa mudança e são conhecidas como jouhatsu (蒸発). Tal fenômeno social é evocado na conclusão do arco narrativo-musical de Torus, novo álbum do produtor Carlos do Complexo, que vai de “On-Line” (a primeira música do disco após a introdução homônima) até a derradeira “蒸発 / Off-Life”. Entre tramas de sintetizadores, texturas nebulosas, timbres esfumaçados e beats enérgicos de pista, o músico carioca nos conduz em uma viagem por uma outra realidade, uma outra dimensão, onde tudo se evapora.

Cria do Engenho da Rainha, complexo de favelas da Zona Norte do Rio, Carlos do Complexo é oriundo de uma geração de DJs e produtores que se destacaram em meados dos anos 2010 por reprocessar diversos afluentes da música eletrônica pelo prisma do funk, lado a lado com nomes como Maffalda, BADSISTA, Marginal Men, VHOOR, Mulú, JLZ e outros que expandiram a chamada “bass music” brasileira e estilos como o chill baile. O Soundcloud foi o principal meio de difusão desses artistas e com Carlos não foi diferente. Foi através da rede social de música que ele conquistou seguidores, levou seu som a festivais como o Red Bull Music Academy São Paulo e trabalhou em collabs com o badalado beatmaker americano Sango.

Mas em certo ponto a chave virou. Carlos não se via realizado com a forma de produção desenfreada que o Soundcloud estimulava. “Eu comecei a me ligar que eu queria um lance a mais, um plus naquilo que já estava fazendo. Eu não queria só fazer música. E na época do SoundCloud era tipo assim: toda semana postava música. Era o que rola hoje com o lance de engajamento de Instagram, tá ligado? Tem que postar uma foto ou um vídeo todo dia pra manter o engajamento e não sei o quê. Era a mesma linha de raciocínio. Se tornou um lance de tem que fazer música todo dia”, conta, em conversa por vídeochamada.

Carlos — que é avesso à exposição em redes sociais — chegou até a deletar muitas faixas de seu perfil. “Fui ouvindo as músicas e era muita coisa parecida, muita ideia repetida. Era tipo fazer a música que ia tocar na baladinha durante um mês e aí geral já esqueceu a tua música e ficou por isso mesmo, sacou?”, explica. Ele então mudou sua percepção: “Você não está só gerando um áudio. Você está fazendo uma parada que pode ser uma obra de arte, pode se perpetuar. Meu ponto principal foi esse: do que eu me orgulho? O que estou fazendo que eu me orgulho? E foi a partir daí que eu comecei a tirar algumas coisas, rever o que eu lançava e o que eu não lançava”.

“Você não está só gerando um áudio. Você está fazendo uma parada que pode ser uma obra de arte, pode se perpetuar. Meu ponto principal foi esse: do que eu me orgulho? O que estou fazendo que eu me orgulho? E foi a partir daí que eu comecei a tirar algumas coisas, rever o que eu lançava e o que eu não lançava”

Outro ponto importante para o produtor foi criar o entendimento de que sua música não busca atender apenas às necessidades do presente — mas, ao contrário, projetá-lo como parte da construção de um outro futuro. “Não estou fazendo um som para mim ou para a galera que quer ouvir na balada. Até vai chegar lá algum ou outro som. Mas acho que o meu propósito é um pouco diferente”, reflete. “Eu não estou olhando só mercadologicamente pra dinheiro. Porque se fosse assim eu já tive várias oportunidades de trabalhar com artistas populares em que eu não me senti à vontade, não me senti incluído. Passo perrengue até hoje por conta disso. O meu propósito infelizmente não tem a ver com dinheiro. Pode até uma hora colar um no outro, eu fazer um dinheiro com isso. Mas eu entendi que se eu ficar pensando só em fazer dinheiro não vai dar certo, eu vou entrar em parafuso”.

Um marco dessa nova direção na carreira de Carlos do Complexo foi Pós-Oceano (2017), EP conceitual feito a partir de gravações de campo esculpidas com design de som que revelam a religiosidade, o som, as relações humanas e a violência nas favelas. O disco é dedicado a moradores de morros cariocas mortos em operações policiais e outras vítimas do racismo institucional, como Rafael Braga. “Após o oceano, você é livre. Continue nadando contra a maré”, escreveu Carlos na apresentação do trabalho. E completou: Não irei vender. Ninguém no mundo pode pagar o preço que nossa cultura vale”.

Lançado em dezembro, Torus solidifica e expande a virada musical de Carlos do Complexo ao explorar o sentimento de desencaixe na sociedade hiperconectada e hiperacelerada atual. O álbum é parte de uma trilogia (ou um “raciocínio de três capítulos”, como ele define) iniciada em shani (2020) e que será concluída com uma mixtape em 2022. “O primeiro disco é todo em volta do personagem, quase uma apresentação dele e das várias facetas e personalidades”, pontua. “Torus é mais falando sobre uma possível viagem que ele fez. É dentro de um buraco negro, entrando num outro mundo. É sobre uma viagem que ele fez, mas um negócio mais pessoal. E a próxima parte vai ser uma viagem mais mística”.

O disco busca inspirações poéticas em conceitos da geometria e da física quântica. Torus é o nome de uma forma geométrica tridimensional em forma de uma câmara de pneu, mas é também o nome que se dá a “uma estrutura de poeira e gás que se forma no centro de uma galáxia ao redor de um buraco negro supermassivo. Na introdução do álbum, ouvimos sons de líquidos escorrendo e um sintetizador espacial deformado, como se estivéssemos sendo sugados e submergindo em um portal para outra realidade. Na sequência, “On-Line” e “Möbius” (com o paulista Yan Higa) descrevem um universo em que tudo soa deslocado — as vozes são reflexos distorcidos, os sons parecem fantasmagorias de uma realidade simulada distante.

“Minha piração foi a seguinte: eu estou entrando num buraco negro — por isso que tem uns sons meio sintetizados. Mas é como se a pessoa estivesse mergulhando em algo. Depois disso, o personagem cai num mundo online, onde tudo é meio estranho”, conta Carlos. Com climas que lembram Four Tet e Bonobo, esse cenário psicológico é construído entre zumbidos tortuosos, texturas ásperas e espirros de sons pixelados, mas também entre delicados novelos de sintetizadores e camadas coloridas de sonoridades etéreas — uma combinação que imprime um sentimento confuso entre o sufoco e a excitação até mesmo nos momentos mais para cima, voltados para a pista, como em “PHi”.

Se no início do álbum somos absorvidos pelo buraco negro digital, com “Torus”, “Online” e “Möbius”, as faixas finais do álbum conduzem para o fim da jornada oferecendo o vislumbre metafísico de um outro plano. Como se rompêssemos com as demandas constantes do virtual e a compulsão por telas para buscar uma experiência mais serena, silenciosa e expansiva/  “Em Índigo, eu me imaginei correndo pra carlho. Corri, corri e corri para o nada, um lugar muito grande e vasto. E “蒸発 / Off-Life” pega a história do jouhatsu — a galera que paga para sumir — e agora estou fora da minha própria vida. Como se tivesse fazendo projeção astral. É um lugar onde eu estou fora do meu corpo. Eu estou vazio, estou me permitindo estar vazio”, contextualiza. A capa do disco, com design de Nathalia Rocha e photoshoot de Mateus Augusto Rubim, indica essa “evaporação” e isolamento.

“Não estou fazendo um som para mim ou para a galera que quer ouvir na balada. Até vai chegar lá algum ou outro som. Mas acho que o meu propósito é um pouco diferente. Não estou olhando só mercadologicamente. Já tive várias oportunidades de trabalhar com artistas populares em que eu não me senti à vontade, não me senti incluído. Passo perrengue até hoje por conta disso.  Mas entendi que se eu ficar pensando só em fazer dinheiro não vai dar certo, vou entrar em parafuso”.

No meio da fantasia espacial/espiritual desse enredo, ainda há espaço para as levadas do Grime (em “ULT”, com participação de SD9 e Lifee) e do Funk (em “Fractal”, com o Menor do Engenho). “Eu me desprendi de gêneros nesse álbum — para minha vida, na real. O que eu achar maneiro vou colocar, vou integrar, tentando adequar à minha identidade”, ressalta. Para Carlos, essa capacidade de recombinação e síntese é um elemento que dá força e originalidade à música eletrônica brasileira. “Mesmo se espelhando, pegando referência ou absorvendo coisas estrangeiras, eu acho que o foda daqui é que as coisas se conectam pra caralho. Não é igual lá fora onde você tem crews e núcleos de uma galera que faz só um tipo de som e ninguém passa a linha. A linha pra gente aqui não existe. Lá fora é tipo: você vai fazer house, você vai fazer deep house, você vai fazer minimal house e cada um na tua. Mano, aqui é tudo com todos! Tem funk com grime, com techno, com pisadinha, com brega e junta tudo e vira uma porra só”, defende.

Essa conexão desapegada entre gêneros e o ímpeto de ousar e perseguir a musicalidade em que acredita é o que dá o brilho de Torus. E, na visão de Carlos do Complexo, é o que torna a música eletrônica brasileira tão especial.  “Acho que essa mistura é a particularidade de gente daqui. E digo mais: aqui é o verdadeiro underground mundial. Porque lá fora existe esse medo: ‘Será que a gente arrisca? Pra onde a gente olha antes de arriscar?’ Olha pra quem está metendo o louco, que é a gente. A gente que não tem medo e tá arriscando a porra toda. E se der certo eles pegam e fala que foram eles, que eles que inventaram essa porra. E sempre vai ser assim”, conclui.

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