Casa tomada

Em meio à consolidação de vertentes, produtores de Trap, Grime, Brega Funk e Rave Funk discutem os motivos para segmentar (ou não) gêneros musicais

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Fotos: Divulgação

Os últimos 15 anos transformaram de forma irreversível nosso consumo de música. A contragosto de uma indústria musical que costuma ser cautelosa até demais, hoje quem define quão dentro da zona de conforto seu gosto musical fica é você. Os serviços de streaming oferecem recomendações diariamente baseadas no seu consumo prévio e o YouTube é uma espécie de terra de ninguém (e de todo mundo) da internet. Fora isso, para escapar dos algoritmos e se aventurar ainda mais, o Bandcamp oferece uma possibilidade para quem quer ir na contramão e conhecer as cenas independentes, nacional e internacionalmente. Mais do que nunca, quem está no volante da sua experiência musical é você. Ainda nos adaptando a esse novo universo, nos deparamos com uma pergunta que já soa um tanto quanto anacrônica: que gênero musical você ouve?

Categorizar as músicas por gênero é uma forma de organização que serve tanto a artistas quanto a público e crítica. Reúne-se uma série de elementos em comum, como levada, quais instrumentos são mais recorrentes, timbre, BPM, entre outros, e define-se um padrão, a partir do qual saem inúmeras variações, que podem resultar em subvertentes. Usar esse critério organizacional da música para entender o que a gente consome hoje inclui ou exclui? Por exemplo, suponhamos que você não goste de sertanejo: será que isso pode se aplicar a todas as músicas dentro desse gênero? Tenho certeza que consigo apresentar 10 faixas de sertanejo totalmente diferentes entre si e é muito difícil que você não goste de nenhuma delas. Qual é a função das classificações, subdivisões e, em certa medida, do próprio gênero musical hoje? Quando pensamos nos dois gêneros que despontaram como potências – mercadológicas e culturais – na última década, esse questionamento se torna ainda mais cheio de nuances. Já há algum tempo, Rap e Funk são terminologias insuficientes ou precipitadas para muita gente que produz sons, supostamente, dentro desses balaios. Casos de Trap, Grime, Brega Funk e Rave Funk.

“Quando eu penso em gênero, penso em uma coisa maior, grande, que marcou uma época, até uma coisa um pouco antiga mesmo. Hoje é difícil definir. O próprio Rave Funk, tem umas músicas do GBR que, na real, está usando berimbau, ou o próprio Funk às vezes é um puta Reggaeton”, explica DJ e produtor musical André Nardini, sobre por que ele considera essa pergunta precipitada. Por outro lado, o produtor musical Mateus Diniz, conhecido pelo vulgo Diniboy, do coletivo Brasil Grime Show enxerga essa divisão dos tipos de música como um organismo vivo e, consequentemente, em constante mudança: Grime é um gênero à parte. Em si, toda a história dele vem de Dancehall, dos anos 80 e 90 em Londres, o vínculo com o Rap americano e o movimento do Hip Hop é muito pouco. O lance é mais com eletrônico mesmo. O Trap estourou por causa do EDM, o bagulho de Atlanta virou uma parada de festival de música eletrônica. Em 2014, 2015 foi se misturando com diversos subgêneros, como EDM, House, Deep House. Grime nasceu no Reino Unido, tomou força e foi pra fora. Se tornou um movimento só, independente. Há 5 anos eu poderia falar que Trap era um subgênero de Rap, hoje já não posso, porque já tem subgênero de Trap, como o Grime.”

Há 5 anos eu poderia falar que Trap era um subgênero de Rap, hoje já não posso, porque já tem subgênero de Trap, como o Grime

– Dimiboy

Alguns produtores, como o próprio Diniboy, assistem de perto à transformação da receptividade do público em relação aos seus estilos e, por isso, apostam na ideia de se tornarem especialistas do gênero com que trabalham, apesar de não terem ressalvas com nenhum outro tipo musical. Jonathan Santos, produtor e cantor, mais conhecido pela alcunha JS, O Mão de Ouro, compartilha dessa visão e diz que o Brega Funk se tornou uma bandeira para ele: “É um gênero popular que foi inventado por MCs e DJs como forma de resistência”, diz. A categoria consolidada, popular e arrebatadora como chegou há pouco tempo no Sudeste foi produto de uma ousada mistura do Brega, amplamente aceito nas rádios nordestinas, com batidas mais eletrônicas e do Funk, as quais, apesar de presentes no mainstream, ainda são muito renegadas e estigmatizadas.

Segundo JS, o lado ruim de estar completamente inserido dentro de um gênero musical tão novo é ultrapassar o preconceito do público. “Mas quando uma música vira sucesso, como ‘Tudo OK’, e passa a ser ouvida e dançada até por crianças, é muito gratificante”, completa. O recifense é um dos maiores responsáveis pela popularização do som a nível nacional, com sucessos como “Sentadão” (com Pedro Sampaio e Felipe Original), “Hit Contagiante” e o remix de “Amor de Que”. “Tudo Ok”, colaboração com Thiaguinho MT e Mila, foi lançada em novembro do ano passado e hoje coleciona 133 milhões de visualizações no YouTube (e eu duvido que você não tenha ouvido por aí).

Como DJ, Nardini gosta de tocar de tudo, abraça o open format sem concessões, mas, sempre que entra no assunto com desconhecidos, defende o Funk, sabendo quão fundo o preconceito chega. “Eu testo direto: se eu estou em Uber, perguntam o que eu toco, já falo ‘Funk’ – a maioria das vezes é carregado de discriminação. Uma vez uma menina começou a falar que ela gostava de Funk, mas só do Kevinho e da Anitta. Quer dizer, consome a música e não consome o artista. A reclamação é sempre a mesma: palavrão. Isso sempre teve. Ainda tem músico que faz esse desserviço de falar que Funk não é música”, conta.

Em tempo, é preciso fazer uma ressalva: o preconceito com o Funk e o preconceito com batidas de música eletrônica são substancialmente diferentes. No primeiro, a rejeição nasce do racismo estrutural, assim como já foi feito com o Rap e com o Samba, e se manifesta pela não validação como arte por parte da crítica – aliada, claro, à repressão do Estado, desde a censura aos bailes funk até o envolvimento do judiciário como agente de restrição, sendo o exemplo mais recente a prisão de DJ Rennan da Penha. Já com o segundo, o preconceito gira em torno da ignorância dos tantos gêneros que compõem o eletrônico, um estereótipo pejorativo sobre o tipo musical e suas amplas possibilidades.

Ser um artista que produz música dentro de um gênero bem definido é uma dança entre vantagens e desvantagens. Attlanta é uma das mulheres que tem se destacado na cena do Trap nacional produzindo beats. Ela me conta sobre uma inconveniência flagrada em si mesma, que sempre foi fã de Rap e, já em 2008, estava atenta à cena do Trap: “É complicado, porque, se eu usar um elemento de outro gênero, as pessoas fecham a cara. Ouvi uma música do Lil Uzi, ‘Futsal Shuffle 2020’, e o beat dela é eletrônico mais antigo, quando eu ouvi falei ‘Ele é muito louco’ (risos), é um timbre que, se não fosse o Lil Uzi, eu jamais usaria. Abri minha cabeça forçadamente para ouvir”.

A produtora de Belo Horizonte também denuncia o preconceito externo com o Trap, que ela vê como um ponto de vista raso. “As pessoas que não gostam de Trap tem o mesmo comentário. Acho que subestimam o Trap, porque subestimam a inteligência; como se a pessoa fosse burra por falar de drogas e arma. Só que não é possível, não ouviram Wu Tang? Não tem a ver com inteligência, tem a ver com lifestyle: é mais informal, mais real, falar de droga, crime, abre o olho para o que está acontecendo. Acho mente fechada”, conclui. Ela também indica o caminho das pedras para quem quer conhecer melhor o Trap e não sabe por onde começar: “Antes de qualquer MC, recomendaria beatmakers de Trap – eles realmente criaram um gênero, que é mais democrático [em termos] de produção de estúdio. Trap fez isso de colocar o nome do beatmaker, como artista e não só como alguém que faz a batida. Recomendo Southside, Cubeatz e WondaGurl”.

O Rave Funk parece seguir essa tendência de valorização dos produtores musicais, talvez um indicador de como as novas vertentes musicais podem se blindar de acusações rasas ao se valorizarem dentro do meio. Nardini conta que conheceu o gênero em uma festa em Campinas. “Acho que era uma música do GBR: um eletrônico famoso que eu reconheci e virava pro Funk do nada. Já era bem diferente dos Funks que eu tocava. E tem as tags de valorização do produtor: Eita é o DJ GBR, DJ Tezinho É o Brabo de Novo (risos). E eu ando acompanhando muito o GBR, na real, ele é um absurdo”. Nardini assinou ano passado a produção musical da faixa “Xerecation”, que sampleia “Satisfaction”, de Benny Benassi, e caiu nas mãos do JLZ para seu set da Boiler Room.

Acho que subestimam o Trap, porque subestimam a inteligência; como se a pessoa fosse burra por falar de drogas e arma. Só que não é possível, não ouviram Wu-Tang? Não tem a ver com inteligência, tem a ver com lifestyle.

– Attlanta

Um novo tipo musical necessariamente vai ter que passar pela grossa e árdua camada de hostilidade do público até instigar seu interesse. Curiosamente, as pessoas têm muito medo do novo, ao mesmo tempo em que anseiam por ele a todo momento. Para a nossa sorte, sempre há aqueles corajosos o suficiente para fazerem suas apostas e tomarem a única atitude que precisa ser tomada em relação a qualquer gênero musical: quebrá-lo. Pegar tudo que importa e criar algo novo (de novo).

Diniboy fala sobre seu encantamento com o Grime e lista diversas referências a outros gêneros que compõem de alguma forma essa vertente – hoje em dia, graças também ao grande trabalho do Brasil Grime Show, um som que ecoa nacionalmente. “O que me atraiu mais foram os beats muito dinâmicos. Como é high BPM (entre 135 e 140, até 150), é bem mais frenético do que o Trap em si (90 BPM a 130 BPM). Também muito da forma como a música é sampleada suga um pouco da escola do boom bap: sample de Jazz, Blues, R&B, Hip Hop. Da parte do MC, é muito de como é rimado: o Rap vai de 8 em 8 compassos, a variação do Grime e do Dancehall varia entre ir de 4 em 4 compassos e de 8 em 8 compassos. Contendo essa variação do Grime e Dancehall, dá uma melodia e dinâmica no vocal do MC que me agrada muito. O formato de um DJ e dois MCs vem da cultura de batalha, de clash, vem tudo do Dancehall. O Grime surgiu do instrumental, do movimento, da mudança de lírica, somando todo o movimento underground em 2000, 2002 – rádio pirata, não tinha CD. Só vinil e rádio pirata. Eu gosto muito, porque é como se fosse uma banda de Rock, só que diferente: Grime lembra o formato do Rap por essa sincronia entre DJ e MCs, em uma sinergia muito alta, como se fosse uma banda mesmo. Desde 2015, 2016, 2017 eu senti a sinergia entre público, MC e DJ”.

Inevitavelmente o novo vem à tona e toma conta da casa. Nenhum (novo) gênero musical deve apagar outro, mas, sim, abrir os olhos, braços e ouvidos para a prova mais genuína de quão revigorante a música pode ser. Quanto à pergunta de um milhão de dólares, qual é enfim a função do gênero musical hoje, se ele atrai as pessoas ou as afasta, Attlanta me deu uma resposta cirúrgica: “Na minha visão inclui mais do que exclui, porque cria uma cultura a partir disso. Os elementos estéticos, roupa, tudo. Comecei a ouvir Rap e todo mundo andava de calça baggy. No Trap, é calça skinny, cordão. Ouvia Rap boom bap, mas eu me identifico mais esteticamente e com as batidas do Trap, com o jeito mais informal que as informações são passadas, gênero inclui porque cria uma cultura em torno dele. É sobre o lifestyle, porque são vidas que se identificam com a cultura”.

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