Charles Mingus e suas homenagens ao Jazz à sua maneira

Boa porta de entrada ao gênero, o disco “Mingus Ah Um” permanece relevante após quase 60 anos

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O quanto você conhece de Jazz? O quanto você quer conhecer? Saiba que, por mais estranho que possa parecer para você atualmente, o estimulante gênero é uma tremenda porta de entrada para sons mais experimentais, elaborados e improvisados. Dono de uma sonoridade única, o Jazz clássico fugiu ou usou muito pouco a guitarra (pelo menos nos timbres que estamos acostumados), privilegiando instrumentos como o saxofone, trompete, contrabaixo, piano e uma bateria com rudimentos e levadas totalmente inesperadas. Mas não estamos falando sobre a história do gênero e suas contribuições na formação musical da música Mainstream como estamos acostumados, isso fica para uma próxima conversa. Estamos aqui para te introduzir ou relembrar um dos mais famosos jazzistas de todos os tempos, Charles Mingus e o seu clássico disco, Mingus Ah Um.

O trabalho não foi sua estreia. Longe disso, foi o seu primeiro a frente da famosa gravadora Columbia após mais de quinze discos lançados das mais variadas formas – compactos, compilações para Atlantic, RCA, Jubilee e United Artists, entre outros. Logo, nos referimos a um estágio maduro da carreira de um músico que ajudou a propagar o Hard Bop, subgênero do Bebop, o moderno estilo de Jazz: rápido, virtuoso e com improvisações que passavam da estrutura musical à melodia de uma canção. O Hard, como pode-se perceber, é uma versão mais difícil daquele ritmo que ajudou a mover os pés frenéticos dos mais jovens, nos tempos de ouro do gênero e que inspirou livros como Na Estrada de Jack Kerouac (dica: leia este livro em inglês para entender no meio de gírias e expressões a aliteração de palavras que dão uma sonoridade à sua leitura, como se reproduzissem o Bepop).

O Hard Bop é então tudo isso tocado de forma ainda mais virtuosa e com influências de R&B, Soul, Blues. E por que começar pelo mais díficil? Mingus Ah Um é de longe, um dos trabalhos mais acessíveis do músico e funciona como uma verdadeira homenagem aos clássicos do Jazz. É também um disco que realça as duas maiores influências de Mingus, segundo suas próprias palavras: “Duke Ellington (um dos maiores compositores da história) e música Gospel” em uma série de homenagens à história do Jazz.

Temos aqui atos rápidos e frenéticos como se pedia quando Charles estava comandando suas bandas como o famoso “homem bravo do Jazz”, atribuição que cresceu ao longo de sua carreira pelo seu comportamento intempestivo com métodos que abusavam não só da capacidade musical de sua banda mas também de suas personalidades. O adjetivo ocorre também por realizar na época uma música brutalmente raivosa em tempos rápidos exigentes (qualquer lembrança com o atual candidato ao Oscar Whiplash é mera inspiração). O álbum se mostra, logo, adequado à qualquer momento, fugindo de muitos clichês do estilo para ganhar vontade própria e deliciar o ouvinte.

Lançado em 1959, ou seja, no final da era de ouro do Jazz, o disco começa com uma homenagem ao religioso e o transcendental em Better Get Hit In Your Soul em uma levada crescente concentrada principalmente nas linhas de sopro de sax tenor, trombone e clarinetes, mas que não são nada sem a bateria de Dannie Richmond. Detalhe, quem conduz todo esse turbilhão de instrumentos, harmonias e improvisações é Mingus com seu contrabaixo que soa quase impercetível no meio disso se não prestarmos a devida atenção. No entanto, ele está lá, rápido como os sopros do sax, dando eventuais gritos para comandar toda a banda e nos fazer imergir na aura Gospel de toda faixa. Ao final, estamos em comunhão e esperando por mais sermões.

Em seguida, temos uma série de homenagens a grandes músicos e problemas sociais, todos feitos a maneira de Mingus. Goodbye Pork Pie Hat é o adeus ao amigo e saxofonista Lester Young, que morrera um pouco antes das gravações do disco em uma faixa que é melancólica, emocionante e romântica – pertinente ao imaginário de um bar com luzes baixas, fumaça e alguns drinks perdidos enquanto se observa o movimento do local. Self Portrait In Three Colours segue a levada da faixa anterior e realça o lado mais calmo e sereno de um líder de banda eternamente raivoso.

Fable of Faubus é genial pelo seu toque irônico: os duetos entre saxofones e clarinetes parecem nos colocar em um conflito entre visões totalmente dissonantes. Sua razão fica mais explícita quando entendemos seu motivo – a faixa é um dos trabalhos políticos mais famosos de Mingus, endereçada ao governador do Arkansas, Orval Faubus, que não havia permitido a reintegração de nove jovens americanos negros, expulsos do colégio Little Rock, em um dos casos de racismo mais famosos dos EUA. No entanto, se é para colocar todos para dançar de forma frenética, fugindo do estigma de que “Jazz dá sono” ou “música de elevador”, temos Bird Calls, referência ao som das aves e não do famoso saxofonista Charlie “Bird” Parker, e Boogie Stop Shuffle, composição urbana e noturna em doze compassos inspirada no Blues.

Temos ainda a divertida, aberta e ensolarada Jelly Roll (mais uma homenagem, desta vez ao pianista Jelly Roll Morton), a sexy Pussy Cat Dues e Open Letter to Duke que fecha as suas duas maiores inspirações – desta vez não o Gospel, mas Duke Ellington. Esta faixa, no entanto, reverencia o famoso líder de banda ao estilo frenético, improvisado e viajado de Mingus, sendo muito fácil ficar sem ar no meio de tantos compassos diferentes. Somos asfixiados por saxofones rapidísimos para depois levarmos tempo para nos levantar com os mesmos instrumentos que, agora lentos, só transmitem letargia entre cada nova inspiração.

Com 60 anos de idade, Mingus Ah Um permanece como um dos relatos mais bonitos do Jazz de todos os tempos, colocando o contrabaixista Charles Mingus como protagonista de uma banda comandada por ele, mas executada por músicos vorazes e sedentos por desafios. É uma da maiores portas de entrada para o gênero devido a sua divisão em atos com levadas mais características e outras que certamente são o alimento certo para os mais jovens. Mais do que isso, é um disco que transpira vida em cada nota do baixo, rudimento da bateria e sopros nos metais. Música perfeita para concentração nos estudos, ócio em casa ou uma reunião com amigos ao sabor de uma boa bebida. Logo, uma obra fora de época, mas que permanece um retrato fiel de seu tempo, aspirações e habilidades até hoje.

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MARCADORES: Fora de Época

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.