Chi Modu: de descategorizado a imortalizado

Fotógrafo responsável por lendárias imagens do Rap deixa impacto imensurável na história visual do gênero e é dono de um legado sem precedentes dentro da cultura Hip Hop

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Fotos: Brian Overend / Acervo Chi Modu

De olhos cerrados, um homem negro sem camisa exibe suas tatuagens em pose altiva. Na cabeça, a bandana branca é ajeitada por um sutil movimento de mãos –uma delas segura um cigarro. Junto à fumaça, um grosso pingente em formato de cruz envolve este homem em uma aura confiante e, ao mesmo tempo, vulnerável. Estamos falando de Tupac – mas também do fotógrafo Chi Modu. Um retrato revela o fotografado na mesma medida em que revela o fotógrafo. Somente sendo generoso como Chi Modu foi, se é capaz de retratar com tamanha sensibilidade uma figura marcada por tantos olhares violentos como fora Tupac Shakur. Chi Modu e sua obra mudaram para sempre a paisagem visual da cultura Hip Hop.

A partir da metade dos anos 1990, o fotógrafo assumiu a edição-chefe do departamento de fotografia da The Source. O surgimento da revista coincidiu com o momento em que o Rap começou a invadir o mainstream, permitindo que o fotógrafo clicasse grande parte dos nomes relevantes da época. Até então, o periódico era uma das poucas publicações exclusivas sobre a cultura, fazendo com que fãs aguardassem ansiosamente pelas edições, que contaram com mais de 30 capas realizadas por Chi Modu. Vikki Tobak, autora do livro Contact High, que reúne fotos históricas do Rap americano comenta: “O trabalho dele como editor-chefe de fotografia na The Source mudou o Hip Hop. Ele deu oportunidades para muitos colegas fotógrafos jovens (especificamente fotógrafos não-brancos que não estavam obtendo grandes oportunidades nas publicações convencionais). Ele via o Hip Hop como uma comunidade e uma irmandade e esse espírito era algo especial”.

Chi começou a fotografar representantes da cultura em um momento-chave da história do Hip Hop, quando o acesso e as relações entre fotógrafos e artistas eram mais relaxados e abertos à colaboração. Ele identificou a explosão iminente do Rap e percebeu a necessidade de contar essa história visualmente. Em sua obra, ele explora um espaço onde os rappers são seres humanos complexos, além dos próximos rock stars mundiais. “Eu me pareço com a pessoa que estou fotografando”, ele comenta em entrevista à rede turca TRT. É a perspectiva interna, que aponta como uma pessoa negra, integrada ao Hip Hop, é peça fundamental para a consolidação de um elo verdadeiramente profundo entre fotógrafo e fotografado. “Quando eu abordo os sujeitos, faço de braços abertos. Se eu sou cordial, minha câmera será cordial, e então podemos criar uma foto que vai durar para sempre”. Empatia é um elemento que se destaca nas fotos de Chi Modu. Através deste método de troca, ele fez imagens atemporais e de extrema intimidade, como Nas no interior de seu quarto antes mesmo da explosão de Illmatic, ou uma jovem Faith Evans no ensaio que mostrou os rostos da Bad Boys Records.

Por ter uma formação de fotojornalismo documental, Chi Modu trouxe um alto nível de habilidade técnica para uma história que era vista, até então, de maneira marginalizada. Para ele, era limitador fazer apenas “foto de artista” ou capas de discos. O fotógrafo queria todo o trabalho em seu próprio livro e, por isso, não figura em Contact High. Vikki Tobak comenta que, se pudesse, gostaria de ter as fotos que Chi Modu fez de Nas no quarto do rapper em Queensbridge. “Este ensaio fotográfico é tão íntimo e natural – um artista antes de se tornar grande, sonhando com possibilidades no mais sagrado de todos os lugares, o quarto da infância. Essa foto é tão especial – o ursinho de pelúcia, a TV na cômoda, Nas olhando para algum lugar, o futuro…”

Mesmo sem acesso às folhas de contato do artista, é notório o esplendor do trabalho de edição de Chi Modu – seja nos cristalinos retratos de estúdio dos membros do A Tribe Called Quest ou nas fotos de um Snoop (Doggy) Dogg armado, envolto em uma desconfiança ilustrada pelo contraste de iluminação natural a partir de um único ponto de luz. Artistas fizeram dezenas de fotos durante a carreira, mas as sessões com Chi Modu foram imortalizadas.

“O trabalho dele como editor-chefe de fotografia na The Source mudou o Hip Hop. Ele deu oportunidades para muitos colegas fotógrafos jovens (especificamente fotógrafos não-brancos que não estavam obtendo grandes oportunidades nas publicações convencionais). Ele via o Hip Hop como uma comunidade e uma irmandade e esse espírito era algo especial” – Vikki Tobak, autora do livro “Contact High”

“Na época, o Snoop estava sendo acusado de assassinato. Eu tinha essas fotos e não divulguei. Você tem que dar proteção a esses personagens. Não dá para ficar próximo, tirar as fotos e pôr as pessoas em perigo. Só assim você consegue tirar uma foto daquela – porque eles te deixam chegar perto o suficiente”, comentou Chi Modu em entrevista à Folha de São Paulo, em 2019. Neste pequeno trecho, o artista sintetiza o poder da fotografia nas narrativas contemporâneas. O fotógrafo João Roberto Ripper comenta que um estereótipo emerge quando contamos repetidamente as mesmas histórias a respeito de determinados grupos sociais – até que este grupo se torne (somente) essas histórias. Em relação a pessoas negras, essas narrativas frequentemente estão atreladas à violência. Nesse sentido, o movimento de Chi Modu ao não publicar o retrato de Snoop à época é uma escolha decisiva. “A pergunta tem que ser ‘por quê um jovem negro de 19 anos precisa ter uma arma?’”, ele disse em entrevista à Showcase. Por outro lado, as fotos de um Tupac divertido, distante da imagem de durão que existia ao redor dele, colabora na quebra de alguns estereótipos. Curiosidade: apesar das reconhecidas fotos com Pac, a amizade de Chi Modu era forte mesmo com o “rival” da Costa Leste. Notorious B.I.G. fez questão de deixar um salve para o fotógrafo no encarte tanto em Ready To Die quanto em Life After Death.

Nascido em 7 de julho de 1966 em Arondizuogu, na Nigéria, Christopher Chijioke Modu emigrou com a família para os Estados Unidos em 1969, durante a Guerra Civil Nigeriana. A profissão de estatístico do pai e a formação da mãe em processamento de sistemas de computador, além de contadora, foram responsáveis por prover uma qualidade de vida acima da média para os afro-americanos da época.

Os pais de Chi Modu voltaram para a Nigéria, enquanto Modu ficou e se graduou pela Lawrenceville School em Nova Jersey. Em seguida, obteve bacharelado em agronegócio e economia pela Rutgers University’s Cook College em 1989. Em 1992, recebeu um certificado de fotojornalismo e fotografia documental do Centro Internacional de Fotografia, em Nova York. A jornada de Chi como fotógrafo começa ainda na faculdade, após ganhar uma câmera de presente de Sophia Smith, com quem se casaria em 2008. Aos 54 anos, Chi Modu parte deixando, além da esposa, sua mãe, quatro irmãos, um filho e uma filha.

Depois de conhecer o trabalho de Chi Modu, meu modo de fotografar mudou completamente. Hoje, não existe foto de rapper que eu vá clicar sem ter em mente a profundidade que ele atingiu em contar histórias

Assim como aconteceu com o fotógrafo brasileiro Lázaro Roberto e outros criadores de imagem negros ao redor do mundo, o trabalho icônico de Chi Modu não impediu que ele fosse acometido pela falta de reconhecimento que o racismo estrutural impõe. Até a última década, era raro ouvir falar de Chi Modu – principalmente nas galerias de arte. Ao reconhecer seu apagamento, o artista tomou duas medidas: criou uma conta no (inescapável) Instagram e começou a espalhar suas fotos em outdoors em locais fundamentais nos Estados Unidos. Este projeto ficou conhecido como Uncategorized. A ideia era ultrapassar o gatekeeping dos curadores de museus e galerias do mercado de arte e exibir as fotos diretamente para o público, deixando “o povo decidir” (o valor), como o próprio gostava de definir. O movimento não só espalhou o nome de Chi Modu pelas ruas novamente, como o fez ser notado pelos museus. Ainda assim, a ideia inicial de popularizar a exposição permanecia, e foi com essa conduta que o artista exibiu o corpo de seu trabalho em Heliópolis (SP), mesmo tendo cacife para estar no MIS (Museu da Imagem e do Som), por exemplo.

Nos últimos anos de vida, Chi Modu colaborou com sua obra em shapes da YES Snowboards e fez de guarda-chuva a cortina de chuveiro com estampa do seu rapper favorito. Realizou dois cursos de fotografia e Uncategorized foi seu único livro, apenas com fotos de Tupac. Essas ações só foram possíveis pois Chi Modu era um defensor e estudante ferrenho dos direitos de imagem, tendo posse completa de todas as suas fotos. Em 2020, ele entrou em uma disputa judicial (a primeira em cerca de trinta anos de carreira) contra os herdeiros de Notorious B.I.G. acerca da lendária foto do rapper em frente às extintas Torres Gêmeas em Nova York. “O principal motivo do processo é muito claro para mim. É para assustar artistas e criativos e perder seus direitos.”, ele disse em entrevista à HipHopDX.

Depois de conhecer o trabalho de Chi Modu, meu modo de fotografar mudou completamente. Hoje, não existe foto de rapper que eu vá clicar sem ter em mente a profundidade que ele atingiu em contar histórias e no primor técnico de imagens como o retrato de Q-Tip ou a galera do Junior MAFIA reunida. Infelizmente, eu não pude conhecê-lo, mas agradeço a um amigo, o Lucas Brêda, que, ao entrevistá-lo para a Folha, mostrou algumas fotos minhas. “Fala pro seu amigo que ele tem talento e para continuar com o bom trabalho”, foi a resposta dele.

Chi Modu faleceu em decorrência de um câncer no dia 19 de maio, na cidade de Summit, em Nova Jersey – e deixou um impacto cultural tão grande quanto o dos rappers que fotografou.

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ARTISTA: Chi Modu