Chico Dub e o Festival Novas Frequências 2013

Apresentamos o evento e conversamos com o idealizador do importante festival de música contemporânea de vanguarda sobre a importância de apreciar inovações na arte

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Há pouco mais de dois anos, quando comecei a fazer o esboço do que seria o Monkeybuzz, o conceito principal que tentava passar para todos era o de entender a importância de ouvir música nova. Não apenas artistas recém-lançados, mas músicos inovadores que estivessem levando a música para novos lados não explorados ou pelo menos não daquela maneira.

No meio de nossa jornada, um festival que casou muito com a proposta do site e deixou saudades foi o Sónar São Paulo 2012. O evento conseguia mesclar bem o que pode ser considerada música contemporânea de vanguarda com nomes do Pop, mas felizmente, Chico Dub, que trabalhou na curadoria do Sónar SP, continuou com a proposta no Festival Novas Frequências, que chega em sua terceira edição em formato ampliado, contando além dos shows no teatro do Oi Futuro Ipanema, com uma festa e quatro paineis de discussões. Tudo distribuído entre os dias 30 de novembro (sábado) e 08 de dezembro (domingo).

Aqui no site, acreditamos na importância de entender e saber apreciar cada vez música, lendo, assistindo a vídeos e estando presentes em palestras e discussões sobre o tema. Isso colabora para que você tenha uma experiência cada vez mais particular e relevante com sua arte favorita.

Para explicar melhor as ideias e o conceito do festival, conversamos com Chico Dub, produtor cultural que idealizou o festival junto com Tathiana Lopes e um dos nomes mais importantes no que diz repeito a iniciativas para uma popularização e maior conhecimento sobre artistas e movimentos musicais contemporâneos no Brasil. Ao final da entrevista, está disponível toda a programação do festival.

Monkeybuzz: Como você vê a importância de apreciar e entender estas novas tendências musicais e participar de eventos como o Novas Frequências na maneira com que as pessoas ouvem música diariamente?

Chico Dub: Eu acho que eventos regulares de música experimental e novas tendências em geral tem total poder de influenciar o que as pessoas ouvem no seu dia-a-dia. Isso se chama formar plateia. Todo o pacote que um festival como o Novas Frequências apresenta torna muito mais fácil o contato com esse tipo de sonoridade.

Há tanta coisa na internet, que é muito difícil alguém que não frequenta essa praia chegar e falar “hmmmm, acho que hoje eu vou ouvir um Lee Gamble para experimentar se é bom ou não.” O festival funciona como um filtro, sendo que até hoje ainda não inventaram nada mais incrível que a experiência física, a coisa da presença, o som alto, o teatro escuro.

Mb: Quanto a música pop incorpora e pode incorporar desses pensadores musicais?

Chico Dub: Gente como o David Bowie, o David Byrne e a Bjork vira e mexe recorrem a experimentos sonoros em seus trabalhos. O Kanye West vem fazendo isso muito bem hoje em dia.

Mb:Como você acredita que o Brasil esteja em relação a essa produção musical contemporânea de vanguarda? Em que pontos nos aproximamos ou nos diferenciamos da produção de outras partes do mundo?

Chico Dub: O Brasil descobriu recentemente que pode fazer música sem qualquer tipo de bandeira nacionalista. Isso tem sido bem notável no campo da música experimental e eletrônica. Ao mesmo tempo, vejo artistas mais ligados à tradição da MPB ousando como nunca, caso de Metá Metá, Passo Torto e Negro Leo. Isso dá um balanço, um mix fantástico.

Nossa cultura eletrônica durante anos e anos ficou muito centrada na figura do DJ. Excessões sempre houveram, mas nunca existiu tanta gente fazendo música eletrônica autoral no país. Não dá para comparar com Alemanha, Inglaterra, mas a cada ano, novos produtores surgem. Caras como o Sants e o seixlacK e combos como o Epicentro do Bloquinho e o Ceticências poderiam estar perfeitamente lançando trabalhos em selos internacioanais. A lista ainda vai crescer bastante.

Mb: E em relação à apreciação e ao consumo? Temos um público aberto a estas experiências?

Chico Dub: Temos um público jovem na faixa dos 20 e poucos cada vez mais interessado na produção musical contemporânea de vanguarda. O fato curioso é que essa nova geração consegue absorver tudo. A minha geração por exemplo era bem mais xiita – é isso ou aquilo. Essa molecada é eclética no mais alto grau. Conseguem ouvir j-pop, brega, Antena 1 Light Fm e Actress, pole, James Ferraro. Experimentar é com essa galera mesmo.

Mb: Como você vê o papel da cibercultura no surgimento e na formação da sonoridade e do estilo desses novos artistas? E no consumo dessa música?

Chico Dub: Boa parte dessa nova produção é justamente dessa nova geração (rs), pessoas com 20 e poucos anos que já nasceram parte da revolução digital.

É muito natural que elas dominem tudo com facilidade, são hackers e geeks em potencial, sacam de tudo. Então é uma galera que naturalmente já nasceu experimentando com eletrônica, apps, softwares, gadgets.

O consumo se dá de todas as formas, mas é basicamente por MP3. Amo vinil, mas não sou saudosista. Também amo MP3. Se não fosse por ele, não existiria Novas Frequências, não existiria Chico Dub.

Mb: Para quem se interessar em entender melhor tudo isso, que veículos, eventos, livros, revistas, você indicaria?

Chico Dub: The Wire. The Wire. The Wire. The Wire. The Wire.

Programação (Mais informações no site do festival)

Festa de abertura
Quando: dia 30 de novembro, sábado
Onde: Clube La Paz
Horário: 23h
Line up: Lee Gamble (Inglaterra), Heatsick (Inglaterra), Miles (Inglaterra), Fudisterik (Brasil), Paulo Dandrea (Brasil)

Painéis de discussão – Novas Frequências e British Council apresentam: Talking Sounds
Quando: dias 01 e 02 de dezembro
Onde: POP (Polo de Pensamento Contemporâneo)

Dia 01 de dezembro

– 16h00 – Heatsick (Inglaterra)
Apresentação: Chico Dub
Mediação: Bernardo Oliveira e Fred Coelho
Convidado especial: Tomás Pinheiro

– 18h00 – Lee Gamble (Inglaterra)
Apresentação: Chico Dub
Mediação: Bernardo Oliveira e Fred Coelho
Convidado especial: Ruy Gardnier

Dia 02 de dezembro

– 18h00 – Demdike Stare (Inglaterra)
Apresentação: Chico Dub
Mediação: Bernardo Oliveira e Fred Coelho
Convidado especial: Ruy Gardnier

– 20h00 – David Toop (Inglaterra)
Apresentação: Chico Dub
Mediação: Bernardo Oliveira e Fred Coelho

Shows

Quando: de 03 a 08 de dezembro
Onde: Oi Futuro Ipanema

– Demdike Stare (Inglaterra) – 03/12, às 21h

– David Toop (Inglaterra) com participação especial do Chelpa Ferro (Brasil) – 04/12, às 21h

– James Ferraro (Estados Unidos) – 05/12, às 21h

– São Paulo Underground (Brasil/ Estados Unidos) – 06/12, às 21h

– Gimu (Brasil) – 07/12, às 20h

– Stephen O’Malley (Estados Unidos) – 07/12, às 20h

– Babe, Terror (Brasil) – 08/12, às 20h

– Tim Hecker (Canadá) – 08/12, às 20h

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Autor:

Nerd de música e fundador do Monkeybuzz.