Entre o fim de um ciclo e a abertura de outro, nasce o álbum de estreia homônimo da banda cearense Cor dos Olhos. Formado por Rafael Martins (guitarra e voz), Caio Evangelista (baixo) e Nicholas Magalhães (bateria), o trio, que antes integrava a banda Selvagens à Procura de Lei, se reinventa como um novo organismo sonoro. O disco, lançado em julho, não apenas apresenta um novo nome, mas inaugura uma perspectiva de olhar: ver o mundo através de cores, metáforas e sons que narram um cotidiano feito de amor, tempo, cuidado e vulnerabilidade. “A gente já tinha essa crença, a gente acreditava que juntos íamos conseguir fazer um trabalho legal, que a gente ia se orgulhar disso”, recorda Caio, resgatando o momento em que a parceria entre os três se firmou como um novo projeto.
Se no passado eram quatro, agora são três, e o formato em triângulo exige equilíbrio absoluto. “Eu sempre brinco que agora somos um triângulo – se você tirar uma linha, ele desaba. Ficou muito claro que esse formato trio não funciona se os três não estiverem entrosados no palco, nas ideias, no conceito, em tudo”, explica Rafael. Essa imagem geométrica serve de metáfora para a banda: sem unanimidade, não há canção que se sustente. Daí o senso de cuidado e disciplina que atravessa todo o álbum, marcado pela decisão de centralizar processos criativos e técnicos nas mãos do próprio grupo.
A produção do disco contou com Luigi Sucena, fã de longa data que virou parceiro e produtor. Ele ajudou a abrir a sonoridade da banda para camadas eletrônicas, beats e programações sem perder a identidade de trio. “A produção do Luigi sintetiza bem esse primeiro trabalho da banda, deixa nítido o nosso jeito de tocar, mas dá para sacar os momentos de programação, os momentos que a gente quer baixar a dinâmica e soltar um beat ali para aparecer, para criar uma tensão. Essa conversa sonora com ele foi muito natural”, conta Caio. O resultado é um álbum que combina artesania e tecnologia, gravado de forma fragmentada, com vozes captadas em casa, baixos registrados em estúdio caseiro e baterias em captações tradicionais – tudo num processo que foi “meio artesanal e ao mesmo tempo digital”, como define Rafael.
“Agora somos um triângulo – se você tirar uma linha, ele desaba. Ficou muito claro que esse formato trio não funciona se os três não estiverem entrosados no palco, nas ideias, no conceito, em tudo”
Motivados pela leveza de experimentar sem controlar, a banda foi entendendo que o ritmo das descobertas em estúdio foi sendo pautado mais pela autenticidade das trocas entre os três do que por uma intenção de encontrar um som “novo”. “A gente tava tranquilo, feliz por esse novo momento. Antes de qualquer ambição estética, era isso que queríamos transmitir”, aponta Rafael. Ao mesmo tempo que os três buscavam registrar os novos tempos em som, eles sabiam que a “verdade” do disco só seria fielmente capturada se conversasse com a essência do que eles já construíram até ali juntos. “Por ser uma banda nova, é normal querer trazer algo novo, mas sem se levar pela pressão de soar moderno. Até porque, o que é moderno hoje daqui cinco anos pode soar datado”, elabora o baixista Caio. Usando o tempo como aliado, foi cultivando o contato com o momento presente que eles encontraram também um planejamento equilibrado para o processo criativo. “A gente foi caminhando na construção das músicas, cada uma no seu tempo”, adiciona Rafael.

O processo de gravação foi, acima de tudo, uma lição sobre tempo e paciência. “Eu acho que eu aprendi a não ceder às pressões do mercado, no sentido de que hoje em dia tudo tem que ser para ontem, e isso é muito chato, eu odeio, porque influencia diretamente na entrega”, confessa o vocalista e guitarrista da banda. Ao desacelerar, o trio encontrou liberdade para moldar cada detalhe sem a ansiedade do imediatismo. “O tempo era o nosso. Não precisou correr, e isso nos fez bem, porque pudemos experimentar ideias com calma e construir o conceito ao longo do processo”. Já o nome Cor dos Olhos simboliza essa ideia de olhar diferente, de reaprender a enxergar e nomear o mundo. O disco se mostra como uma obra de apresentação, tanto para quem acompanhava os músicos no Selvagens quanto para novos ouvintes. “O maior conceito que a gente quis abraçar nesse primeiro momento era de fato apresentar a banda, divulgar esse nome, por isso também a questão do nome do disco ser o nome da banda”, reflete Caio. Assim, a estreia é menos uma ruptura e mais um gesto de continuidade transformada, que respeita o tempo e a história dos três enquanto propõe novos caminhos estéticos. “É um disco que apresenta quem nós somos, e o tempo foi fundamental pra gente ir descobrindo quem nós somos nesse novo momento. Agora a fase é outra, outra história que a gente está escrevendo”, afirma Caio.
Com novas lentes, o trio passou a enxergar o interior da coletividade com maior destaque. “A gente se entende muito mais agora, porque foi um trabalho de encontrar o nosso encaixe”, reflete Rafael. Para além do estúdio, a direção da banda também tomou esforço. Focados na participação conjunta das decisões, os três compartilharam as rédeas logísticas e gerenciais do projeto. “Desde a identidade visual à escolha e compra de equipamentos novos, a gente foi conversando sobre como entregar algo que refletisse o nosso propósito nessa nova fase – algo mais livre, sim, mas também mais profissional”, contextualiza Rafael. Como a maioria dos álbuns homônimos, Cor dos Olhos é um retrato de como a banda se vê. Ao mesmo tempo, as músicas do trabalho não são transcrições de autopercepção, mas sim conversas entre os três amigos sobre aspectos da vida. “É no fim/começo de ciclos que a gente repensa as coisas para se redirecionar, e o disco tem muito dessa busca de sentido compartilhado”, conta o vocalista e guitarrista do grupo.
Assim, as letras transitam entre a leveza e a ansiedade de viver um novo ciclo, sempre com a sensação de movimento. Em “Cataventos”, o tempo aparece como força que desgasta e renova. Já “Carne Viva” evoca a necessidade de cortar ciclos e recomeçar. “O disco fala muito de seguir em frente mesmo”, observa Rafael. O disco se constrói como um gesto de seguir em frente, sustentado por afetos que se multiplicam em diferentes direções. “Tem músicas que não foram feitas durante o disco, mas ele como um todo fala de força, de amor no sentido de poder contar com alguém”, ele resume, enquanto Caio amplia essa ideia para além do romântico: “é parceria, amizade, família e também amor-próprio – que tem tudo a ver com a confiança necessária para atravessar incertezas”.
“Por ser uma banda nova, é normal querer trazer algo novo, mas sem se levar pela pressão de soar moderno. Até porque o que é moderno hoje daqui cinco anos pode soar datado”
As faixas se oferecem como pequenos refúgios. “5 Minutos” pede pausa e respiro; “Banho de Rosas” se dedica ao detalhe amoroso; “Canção Para Alguém Ferido” é um gesto de acolhimento. No contraponto, “Fé em Quê?” questiona poder e crença quando a máscara cai.
Todo início traz entusiasmo e receios. Para a banda, isso foi se mostrando através da comunicação com os fãs sobre a nova fase. “Eu fiquei bem curioso com a recepção do público, mesmo sabendo que tudo ia dar certo. Era mais a vontade de ver a coisa se concretizar”, relaciona Caio. Se enxergando através de uma visão externa, a produção de Luigi Sucena trouxe ao grupo o equilíbrio entre o que os fãs viam como essência e as possibilidades a serem exploradas. “Ele conhece bem a gente e trouxe uma base para as nossas expectativas”, comenta Rafael.
No palco, a proposta é traduzir o disco em experiência vibrante. “Nosso show está cheio de artifícios tecnológicos, também temos incrementado muita coisa no nosso som e isso requer muito trabalho em estúdio. Temos buscado soar diferente, se aproximar mais de uma estética indie pop em vez de um rock clássico”, explica Rafael. A ideia é levar para a estrada a mesma sensação de novidade que guia o álbum. Com apenas três integrantes, o espaço entre os instrumentos se abre, e cada detalhe ganha clareza. “É uma guitarra, um baixo e uma bateria. A responsabilidade é maior, obviamente, mas isso é bom, porque cada um assume mais o seu instrumento, sua voz”, ele completa.
“Tem músicas que não foram feitas durante o disco, mas ele como um todo fala de força, de amor, no sentido de poder contar com alguém. É parceria, amizade, família e também amor-próprio – que tem tudo a ver com a confiança necessária para atravessar incertezas”
O nervosismo da estreia se transformou em combustível para os shows. Rafael lembra da ansiedade antes do primeiro concerto: “Eu fiquei nervoso para fazer uma coisa que eu já fiz milhares de vezes. E aí, depois que eu fui detectar que era o peso de começar algo novo. Se você não tem esse frio na barriga, é um péssimo sinal”. Esse frio se revelou, afinal, como a prova de que a banda não revive o passado, mas inaugura um novo começo em som e presença.
No fundo, Cor dos Olhos é também um exercício de desapego, em que o presente ganha mais valor que qualquer expectativa. Como lembra Caio, “respeitar os processos foi fundamental para desapegar de coisas antigas e mergulhar de cabeça no que é novo”. Ao mesmo tempo, o disco traduz a coragem de abraçar o risco em vez de se prender a fórmulas. “Não tínhamos um ideal fixo pro disco, o experimentar é que valeu pra nós”, ele adiciona. Assim, entre paciência, ousadia e vulnerabilidade, o trio reafirma que seu primeiro disco não é apenas uma estreia, mas um registro da Vida que faz parte de suas vidas.
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