Cinco Discos para Cinco Filmes : Lars von Trier

Uma seleção de climas que combinam com as obras do diretor dinamarquês

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Um dos principais diretores do cenário (até certo ponto) cult das últimas décadas, o dinamarquês Lars Von Trier vem ha anos nos trazendo lindas obras de se encher os olhos – muitas vezes literalmente – principalmente para o fãs do gênero de Drama. Com obras quase sempre caracterizadas por seu cunho amargo e com apegos sentimentais e conflitos psicológicos e sociais, Lars é um dos diretores favoritos de muitos.

Há poucas semanas, eis que estreou sua nova obra, a primeira parte de Ninfomaníaca – filme aguardado por inúmeros espectadores. E, para entrar no clima dessa recente estreia, vamos relembrar outros cinco filmes do diretor, e, claro, daremos aquela pitada de música, relacionando cada um das películas citadas com um álbum que tenha uma simbiose, uma relação com sua essência.

Antes de tudo, vale ressaltar que se trata de um artigo de opinião pessoal. Cada um de nós enxerga uma obra de uma maneira subjetiva, única, e exclusiva. Para fazer essa lista, pensei em inúmeros discos até selecionar os que mais se assemelhavam para meus ouvidos e memórias visuais dos filmes listados.

Ondas do Destino (Breaking Waves – 1996)

Efterklang – Piramida

Uma das primeiras obras do diretor, Ondas do Destino é uma das mais brandas histórias dramáticas que vemos em sua filmografia. Sobre uma mulher pura, inocente e com um certo abalo mental e que se vê ainda mais fragilizada após uma acidente de trabalho que deixa o marido paraplégico, o filme nos mostra um forte lado ecumênico e bucólico.

Oriundo da terra de Lars, a Dinamarca, o grupo Efterklang, com seu álbum Piramida ilustra essa pureza bucólica e arcádica que, ao mesmo tempo que entristece, nos mostra um feixe de sol por entre o tempo nublado, algo que notamos durante boa parte do filme. Com canções como Hollow Moutain e Sedna, o grupo dinamarquês apresenta uma sonoridade morna, que ao mesmo tempo em que acalenta o ouvinte, mantém certa distância, a mesma em que Bess sente ao se deparar com a distância do marido que ama apesar de tê-lo ali, ao seu lado.

Dançando no Escuro (Dancer in the Dark – 2000)

Antony & The Jonhsons – I Am a Bird Now

Tendo como protagonista a doce e encantadora Björk, Dançando no Escuro retrata a vida de uma imigrante do leste europeu – amante de musicais – com problemas degenerativos de visão, que busca nos Estados Unidos dinheiro para o tratamento de eminente cegueira de seu filho. Uma obra que demonstra como uma mãe consegue ir além de suas próprias forças e limitações físicas e mentais para proteger e amparar seu filho.

Com tamanha amargura, mas carregado de toques líricos e delicados que nos fazem ter momentos de uma felicidade com feição de tristeza, tal filme ganha I Am a Bird Now, de Antony & The Johnsons.

Com sua voz anasalada e temáticas doces e de uma esperança que carrega uma certeza triste, Antony nos enche de compaixão pelas narrativas de suas canções, como na primeira faixa, Hope There’s Someone, onde canta sobre a esperança de ter alguém ao seu lado quando partir dessa para o além vida. Lindas e emocionantes, as duas obras conseguem nos fazer ficar com um nó na garganta e o sentimento de um choro com o canto da boca a sorrir.

Dogville (2003)

Yann Tiersen – Les Retrouvailles

Um dos trabalhos mais conhecidos e mais midiáticos de Lars, Dogville é caracterizado por um cenário minimalista que o faz um filme ainda mais interessante e de diferente proposta. Sobre uma mulher visivelmente rica que aprece fugindo de algo/alguém e vai parar num minúsculo vilarejo pacato, o filme nos relata sobre conflitos sociais e sobre os mais primitivos e agressivos comportamentos humanos que até mesmo um pequeno grupo, aparentemente pacífico, pode acabar ganhando.

Para ilustrá-lo, uma boa pedida é Les Retrouvailles, do compositor e multi-instrumentista francês Yann Tiersen. Conhecido por fazer as trilhas de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e Adeus, Lenin!, em suas obras pessoais, Yann aposta em um minimalismo tristonho, cabisbaixo, mas com crescendos que aspiram uma esperança de melhorias, algo como as esperanças que a personagem Grace – vivida por Nicole Kidmann – apresenta em boa parte da trama. Sublimemente introspectivo, a obra de Tiersen – que conta com as belas canções Western e Kala (esta com participação de Elizabeth Fraser, do Cocteau Twins) assim como a de Lars mostram fragilidade frente a algo que soa como ameaças incisivas mas sempre com um viés de uma lagarta tentando se liberta do casulo.

Anticristo (Antichrist – 2009)

Chelsea Wolfe – Pain is Beauty

A perda de um filho, problemas conjugais e psicológicos, depressão, frustração, e alucinações. E tudo com uma cabana em uma floresta escura, e obscura como cenário. Anticristo consegue ser uma obra densa e de uma digestão atordoante. Uma das obras mais claustrofóbicas e perturbadoras de Lars von Trier.

Misturando mistério com uma áurea dark, mas, ao mesmo tempo, convidativa e intensa, em seu novo trabalho, Pains is Beauty, Chelsea Wolfeconsegue nos aproximar musicalmente do filme de Lars. Logo de cara, com a abertura dada por Feral Love e sua introdução tensa e intimidadora – e que soa como uma perseguição interna, como a da mente da personagem feminina do filme – e os sofridos e angustiados vocais de We Hit A Wall – similares a uma perda – Wolfe exprime todas as misturas de sensações que temos ao assistirmos a bela obra de von Trier.

Melancolia (Melancholia – 2011)

Grouper – The Man Who Died in His Boat

Fazendo jus ao título, durante suas arrastadas três horas de duração, Melancolia nos conta sobre resumidamente sobre futilidades dos rituais burgueses e sobre a brevidade da vida. Com ares melancólicos principalmente durante a sua segunda metade, o filme nos coloca frente a um cenário de introspecção e tristeza decorrente de frouxos laços afetivos e de uma possível colisão de um astro com a Terra.

Em meio a isso tudo, podemos sugerir The Man Who Died in His Boat de Grouper como um bom plano de fundo. Com seu Drone hipnótico e cinza, Liz Harris preenche o disco com sentimentos de reflexão quase que impotentes e conformistas com algo que ronda ser um poço de melancolia e depressão, algo que notamos fortemente na personagem Justine – vivida por Kirsten Dunst – durante essa linda e reflexiva obra de Lars.

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Autor:

Marketeiro, baixista, e sempre ouvindo música. Precisa comer toneladas de arroz com feijão para chegar a ser um Thunderbird (mas faz o que pode).