Coleção de Selos: Warp Records

Uma das mais emblemáticas gravadoras da Inglaterra se mantém fiel à sua proposta original a mais de duas décadas

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Se manter-se fiel a uma proposta mesmo duas décadas depois de estabelecê-la já é algo realmente difícil, imagine agora uma empresa se manter assim, mesmo com inúmeras e enormes mudanças no mercado, isto sim é algo incrivelmente difícil. Permanecendo impávida às grandes mudanças do Mercado Musical (e até mesmo participando de algumas de suas revoluções), a Warp Records continua até hoje com um selo essencialmente voltado as vertentes Eletrônicas e vanguardistas da música. É claro que outros nichos e estilos foram englobados conforme o selo foi crescendo e ganhando status, mas ainda hoje grande parte do seu catálogo se mantém alinhado à sua proposta original.

Surgida em uma época em que a proliferação de selos independentes crescia vertiginosamente e se desenvolvia ali a etos destas pequenas empresas baseadas no “faça você mesmo” (DIY) – período entre os anos 80 e 90 -, a Warp nasceu quase de brincadeira, como um experimento de três amigos (produtores e músicos que por mais que estivessem em seus 20 e poucos, já eram veteranos na cena de Sheffield) que queriam ver se conseguiam emplacar um disco produzido por eles. Steve Beckett, Rob Mitchell (falecido em 2001, por conta de um câncer) e Robert Gordon, em 1989, criariam uma das mais bem sucedidas e emblemáticas gravadoras independentes da Inglaterra e começariam ali uma trilha de grandes sucessos em seus poucos mais de 20 anos de vida.

De uma pequena loja de discos para um dos maiores e mais revolucionários selos, a tríade viu sua empresa, nestas duas décadas, se expandir ainda como um site de venda de música on-line (e isso ainda em 2004) e em uma produtora de filmes (também em 2004). Mas voltando ao início de tudo, o selo parece ter nascido no lugar certo e na hora certa. Enquanto muitas gravadoras surfavam no sucesso de estilos como o Indie Rock (Matador), Grunge (Sub Pop), Rave (XL Recordings) e o crescente Britpop, a Warp escolheria seguir por um caminho diferente e se estabelecer propagando sua música em meio a festas e clubes locais. Nessa época a Acid House tomava conta da cidade foi neste ambiente criativo que a Warp se estabeleceu. Lançamentos de Nightmares on Wax, LFO e Tricky Disco marcaram o inicio de suas atividades e não só atingiram boas marcas em vendas como também boas posições nas paradas britânicas. Um ótimo começo de atividades.

Se as coisas começaram bem para o selo, a tendência era melhorar durante os próximos anos. E tudo isso se deve a atenção e perspicácia do trio em notar que o underground da música eletrônica não rumava mais às pistas, mas a uma direção quase que aposta a elas. Em 1992, com a compilação chamada Artificial Intelligence, a Warp pode lançar ao público uma série de novos artistas, como Aphex Twin, The Black Dog, Autechre e FUSE, e apresentar ao mainstream a Ambient Music – que mesmo criada há muitas décadas, nunca conseguiu atingir grande popularidade. Essa direção continuaria em voga até o fim dos anos 90 e neste período um dos grandes discos já lançados pelo selo sairia do forno: Music Has the Right To Children, álbum de estreia do duo Boards Of Canada.

Nos anos 2000 começaram algumas mudanças (e principal deles foi a abertura musical para outros estilos) e estreitamento dos laços do selo com a Internet. A criação do Bleep, serviço de venda de música online criado em 2004, foi um desses passos (e muito bem sucedidos), sendo seguido nos próximos anos por uma enxurrada de outros serviços e sites semelhantes. Quanto ao rumo da curadoria, ela mudou, mas nem tanto assim. Por mais diversos que esses outros artistas fossem (caso de Battles, Maximo Park, !!!, Grizzly Bear e mais algumas outras bandas) a vontade de experimentar e de inovar em seu próprio nicho foi o que garantiu seu lugar no selo e de destaque em meio ao público no decorrer desta década.

Sem abandonar suas raízes eletrônicas, o selo continuou a propaga-la com artistas inovadores em seus próprios sub-estilos como Squarepusher, Jamie Lidell, Flying Lotus, Gang Gang Dance, Bibio, Rustie, Hudson Mohawke (assim como o TNGHT) e Darkstar, para citar só alguns nomes. Fazendo isso há pouco mais de 20 anos, a Warp se mantém ainda como um dos selos mais inovadores e a exemplo do que a Sub Pop fez no inicio dos anos 90, consegue ganhar tanto destaque quanto seus próprios artistas.

Discos Fundamentais

LFO – Frequencies

Oriundo dos últimos suspiros da Rave, esse é um disco que conseguiu envelhecer muito bem e ainda hoje se mantém enxuto, apresentando diversas influências que vão do Hip Hop ao Acid House, da IDM ao Techno. Sem dúvida alguma um clássico do selo.

Boards of Canada – Music Has the Right To Children

Muita melancolia e uma beleza rara, mesmo no mundo da IDM, fizeram da estreia do duo escocês um marco na história do selo e da própria banda. O principal motivo para isso foi que os irmãos Michael e Marcus Eoin Sandison levaram toda a musicalidade proposta lá na Artificial Intelligence e deram um passo adiante.

Battles – Mirrored

Além de apresentar uma banda que tinha lançado ótimos EP, o primeiro disco do então quarteto foi responsável por dar nova força ao Math Rock no novo século. Por mais que Gloss Drop tenha sido melhor sucedido, este trouxe de volta um movimento que andava em baixa e preparou o terreno para seu ótimo sucessor.

Grizzly Bear – Veckatimest

Se o Folk psicodélico do quarteto já havia ficado em evidencia com o ótimo Yellow House, com este álbum a banda mostrou ao mundo todo seu talento. Onipresente em quase todas as listas de melhores discos de 2009, Veckatimest é um dos grandes clássicos dos anos 2000 – e do selo, é claro.

Aphex Twin – Selected Ambient Works

Não pense que é injusto uma compilação estar por aqui, pois esta foi lançado na mesma época da compilação Artificial Intelligence foi um trabalho ímpar e extremamente influente para a Música Eletrônica e Ambient Music feita a partir de 1992. Não à toa, o disco tem uma média altíssima de nas notas das resenhas dadas por onde passou.

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Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts