Comemore uma década de “Murray Street” do Sonic Youth

Um dos discos mais diferentes da banda traz, em quase todas suas músicas, seu tom melódico nas vozes de Moore e companhia, enquanto os já conhecidos duelos de guitarra parecem ganhar ainda mais força

 6,234 total views

Lembrar do anos 90 e não mencionar Sonic Youth é quase impossível. A banda foi uma das mais importantes da cena de Nova Iorque que tomou o mundo com suas guitarras distorcidas, feedbacks propositais, microfonias e experimentações guitarreiras que não se viam desde a década de 70. Em 28 de Maio, Murray Street completa uma década e ganha o posto de um dos discos mais interessantes que Moore e companhia já fizeram.

Essa vai ser uma banda eternamente lembrada por dois casamentos: o primeiro (e mais obvio) é o de Thurston Moore e Kim Gordon, casal símbolo de uma geração e de toda a cena Noise nova-iorquina dos anos 80/90, e o outro é o casamento das guitarras de Moore e Lee Ranaldo – o que essa dupla conseguia fazer com seus instrumentos é incrível, redefinindo as fronteiras de onde se poderia chegar com eles.

Desde os anos 80, a banda já vinha construindo sua reputação e Goo, disco que inaugurou a nova década da banda, abriu ainda mais portas pra bandas mostrando uma sonoridade um pouco mais acessível que seus discos anteriores e a posicionando como uma das bandas mais influentes e inventivas da década de 90. Ainda nesse período, a banda lançou uma série de discos importantes como Dirty, Experimental Jet Set, Trash and No Star e The Washing Machine, que hora contava com Gordon e seu baixo e hora na terceira guitarra do grupo.

Em Murray Street, quem assume os baixos é Jim O’Rourke, que já vinha contribuindo com a banda desde o fim dos 90 na trilogia que começou em NYC Ghost & Flowers, em além de ser o quinto elemento da Sonic Youth, trouxe um pouco da aura do Pavement ao disco. Nota-se em seus 48 minutos outras influências, como Velvet Underground e The Flaming Lips.

Esse décimo segundo álbum da banda foi marcado pelos atentados de 11 de Setembro, que interromperam as gravações e o estúdio onde elas ocorriam, na rua que batiza o álbum localizada próximo ao Marco Zero, foi interditado durante algum tempo. As letras não dizem nada sobre os incidentes terroristas, mas muito da sensação de confusão da época está nas distorções e feedbacks de Karen Revisited.

O disco abre com a belíssima The Empty Page (em minha opinião, uma das melhores do grupo), que traz a melódica voz de Moore acompanhada pelas suaves guitarras, que explodem num frenesi ensurdecedor durante o solo e, depois, voltam para sua quietude abafada e melódica. Disconnection Notice segue a mesma linha da música que abriu o álbum, trazendo um vocal calmo e riffs quase pegajosos que eventualmente explodem em uma bomba sônica.

Karen Revisited traz o mais belo duelo de guitarras do disco e, em seus mais de onze minutos, mostra o vocal de Ranaldo (também seguindo a mesma linha melódica adotada por Thurston) e muita microfonia que predomina na maior parte da música. Quando a música parece voltar aos seus eixos melódicos, a experimentação ganha ainda mais ruído e poeira sonora.

As duas ótimas faixas finais trazem o vocal de Kim Gordon: Plastic Sun conta com uma aura Punk, riffs desconexos e é a mais curta do álbum e Sympathy For The Strawberry fecha o disco envolto em mais uma nuvem de distorção e riffs preguiçosas, assim como nos apresenta uma espécie de dueto de Kim consigo mesma.

Esse pode não ser um dos mais famosos, mas é dos discos mais interessantes que a banda já produziu e que foi marcado por uma grande tragédia que parece influenciar um pouco a experimentações sonoras. É intrigante ver a calma nos vocais em contraste com os riffs furiosos e ruidosos e ver que uma banda que já estava há 20 anos na estrada ainda tinha muito potencial e sonoridades a serem explorados.

 6,235 total views

ARTISTA: Sonic Youth
MARCADORES: Disco

Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts