Como Não Pagar por Música?

Com tantos custos para se produzir uma faixa sequer, nosso papel como consumidor não poderia ser outro

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Nos quinze dias que levaram desde a ideia inicial deste artigo até sua publicação hoje, a ideia se transformou drasticamente: O que era pra ser “Quanto custa a música que você ouve?” acabou virando este Como Não Pagar Por Música? do título. E se você não sabe responder a essa segunda pergunta, minha intenção é que você chegue ao último parágrafo pelo menos entendendo que, se somos consumidores de música, faz sentido sim que paguemos por ela.

Bom, primeiro a gente precisa entender de fato quanto uma faixa em um disco ou na Web custa. A questão é que o preço varia demais de uma produção pra outra por inúmeros fatores – daí também eu pereber que o teor deste texto deveria ser outro. Mas porque tanta variação? Justamente porque cada banda acaba gravando de uma forma diferente.

2014, né? Saber que um disco foi produzido em casa já não causa espanto algum em ninguém, visto que isso virou algo comum depois de tantas inovações – o suficiente para “caseiro” nunca mais ser sinônimo de “amador”. Se algo feito no próprio habitat do músico ajuda a economizar os gastos com estúdio, ainda assim existem vários e vários gastos envolvidos no processo.

Equipamentos de gravação (do cabo à mesa) e softwares não são nada baratos, por exemplo, mas ainda existe um outro alto custo que quem não toca nada acaba não se dando conta: Instrumentos musicais e acessórios. Não é todo músico que troca de guitarra, por exemplo, com frequência (pelo contrário, é normal adotar uma favorita e ficar com ela por um bom tempo), porém palhetas e cordas (no caso da guitarra e violão, ou baquetas e peles no caso da bateria, só pra citar outro exemplo) estão sempre presentes nas listas de compras.

Pode parecer pouco, mas nem sempre quando a gente dá um play no YouTube ou no Soundcloud se dá conta de que cada coisinha ali foi paga por alguém. Quando a banda decide gravar em um estúdio, ainda tem os gastos de ensaios, gravações de demos e todos esses detalhes que envolvem uma pré-produção. Quando chega a hora de gravar mesmo, ainda tem a grana do pessoal contratado (sejam produtores ou músicos de apoio), sem contar transporte e alimentação (é básico, mas entra no orçamento) e as horas propriamente ditas no estúdio.

Só até agora, quanto já foi gastado? Como eu disse, os preços variam demais dependendo do projeto, então não dá nem pra falar de quanto custa “em média” gravar uma faixa (e olha que eu perguntei pra bastante gente sobre isso), e é aí que começa a fazer mais sentido quando vemos uma banda independente fazendo projeto de financiamento coletivo pra gravar alguma coisa, não é? No caso de quem tem uma gravadora ou selo por trás, dependendo do contrato (isso também varia bastante), às vezes esses custos são divididos ou mesmo arcados totalmente pela empresa – que costuma também reter a maior parte do lucro depois. Ainda assim, sai caro pra todo mundo.

Depois de tudo gravadinho, ainda tem trabalhos de mixagem e masterização. Se for um disco físico (seja single, EP ou álbum, ou ainda vinil, CD ou cassete), ainda tem os gastos com a fabricação e distribuição disso também. De qualquer forma, a parte gráfica é um custo a mais, assim como todo o trabalho de comunicação (assessoria, redes sociais etc) e os gastos com a equipe da banda ou músico propriamente dita (seja um empresário/produtor, roadies ou quem for). É muita comissão aí no meio, perceba.

Tá bom, já deu pra entender que fazer música sai bem caro até para as produções mais simples, né? E agora, então, vem a pergunta:

O que você, ouvinte de música, tem a ver com isso?

Percebo às vezes na postura das pessoas como se pagar pela música fosse uma espécie de “favor” que elas fazem aos artistas. É quase uma doação. Talvez por uma ideia antiquada de que quem grava disco é rico e vai ganhar rios de dinheiro, ou por uma ideia mais fora de lugar e época ainda de que ser músico não é um ofício – e essas coisas podem ser muito inconscientes mesmo, que a gente age de acordo sem perceber que pensa sem querer pensar.

Mas se você consome música, está se aproveitando de algo que foi “produzido”, ou seja, um “produto”. E ele tem um custo alto (como já ficou bem claro por aqui). Em uma época em que o play é tão gratuito e os preços parecem ser tão altos (vide ingressos de shows ou quanto sai um disco em vinil), é muito tentador fingir que você não tem nada a ver com o assunto e apenas continuar ouvindo.

Entretanto, se você é fã de música, tem algumas coisas que você pode fazer para que as bandas continuem produzindo. Não tem nada a ver com caridade, é uma questão de você pagar pelo que você consome mesmo. Eis algumas dicas:

1 – Fique atento – Muita gente sobe vídeos no YouTube, por exemplo, com faixas que estão presentes nos canais das bandas. A diferença é que, se você ouvir pelos oficiais, a grana da publicidade vai direto pra quem merece.

2 – Compartilhe – Mande pros amigos os players desses canais e espalhe boa música. Além de fazer bem pros novos ouvintes, ajuda a construir um grupo de ouvintes mais sólido perto de você, o que facilita também que a banda faça mais shows na sua área.

3 – Envolva-se – O mais legal de projetos de financiamento coletivo, sinceramente, é que você costuma ganhar algo bem legal por sua participação. Você ajuda o disco a sair do papel e ainda leva algo a mais (e, normalmente, bem exclusivo) pra casa.

4 – Entenda a gratuidade – Seu play no YouTube é de graça, mas a música não chegou ali sem custo nenhum (OK, você já entendeu isso, vou parar de repetir). Quando você vai a um show de entrada gratuita, ele também teve seus tantos gastos. O que eu costumo fazer é sempre passar pela lojinha (costuma ter, pode procurar) e levar um presente pra alguém ou pra mim mesmo.

E por último, mas de grande importância:

5 – Seja menos pão-duro – Você não chega na padaria e espera sair de lá com um pãozinho grátis. Então, pague pela música. Não é uma boa ação, é seu papel como consumidor.

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MARCADORES: Discussão

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.