Conexões em ANEXO

Com a primeira coletânea no ar, projeto ANEXO reúne produtores, DJs, artistas visuais e performers dos mais variados lugares do Brasil e mostra a força dos vínculos na comunidade de música eletrônica

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Fotos: Annyl

Não é nenhuma novidade que o Brasil passa por um dos momentos políticos mais conturbados e incertos de sua história. Um dos nocivos efeitos – entre tantos outros – promovidos pelo atual (des)governo é a constante ameaça à Cultura. Seja no âmbito mais geral (a transformação do antigo ministério em secretaria) ou em esferas mais específicas (a ausência de incentivo – financeiro e moral – a artistas e produtores culturais), se depender do poder público, os agentes ligados à arte no Brasil estão sozinhos. E, para complicar ainda mais e escancarando o total desmazelo, a pandemia do coronavírus, atingiu as manifestações culturais em cheio. O isolamento social impossibilita várias pessoas envolvidas com as produções de eventos de garantir renda e superar, com o mínimo conforto, este delicado momento.

“Quando olhamos para a cultura e o atropelo político que vem sendo atirados a nós, sentimos um total desespero, e vendo a escassez desses recursos aos artistas que atuam na música eletrônica pelo Brasil”, confessa Annyl aka Lynna Oliveira, artista pluricultural contemporânea, integrante do coletivo Caldo de São Paulo e uma das cabeças por trás do ANEXO, que acaba de lançar sua primeira coletânea.

O que é o projeto ANEXO?

Em meio a esse cenário angustiante, surge o projeto: uma oportunidade de visibilidade e remuneração igualitárias aos artistas, por meio de colaborações online. O público tem acesso, além deste primeiro lançamento, a itens exclusivos como EPs, discografias, aulas, roupas de marcas parceiras, e por aí vai. Uma maneira de manter o diálogo e o vínculo com os admiradores de música eletrônica em diversas frentes. Tudo acontece de forma fluida e diversificada, da escolha das músicas até a identidade visual do projeto. “Como fazemos parte de uma comunidade em que a maioria se conhece, foi mais fácil de convidar os artistas que participam do projeto. Vale ressaltar também que o número de pessoas envolvidas foi pensado de acordo com o valor total da campanha a ser dividida entre todos”, conta Nørus, projeto do produtor Felipe Bortoloti, um dos nomes mais promissores da cena House e Techno do Brasil.

A união faz a música

O clichê “a união faz a força” cabe perfeitamente nesse caso. Aprender na marra com tudo que está acontecendo, estar envolvido com pessoas e fazer as coisas acontecerem é um presente. Todos sofreram algum tipo de mudança frente a essa tormenta e, agora, a campanha virtual trouxe novas possibilidades de navegar. “O que mais precisamos diante desse caos são projetos que estimulam a cooperação entre os artistas, e que não só tenham objetivos fixados em ganhos capitais, mas também em um apoio moral mútuo nessa situação que estamos vivendo”, diz KENY/\, que também performa sob o nome de KENYA20Hz e é natural do Rio de Janeiro, onde vive atualmente.

A cantora e produtora gaúcha Saskia também dá a letra: “ANEXO me chamou na hora certa. Eu tinha muitas ideias e não sabia onde colocá-las. Agora vou conseguir vender os pacotinhos que eu sempre quis, dentro de um pendrive. Poder usar a mídia física, o tato. Depender das máquinas para se relacionar faz com que elas reproduzam nossos sentidos. Eu estava junto quando o nome ANEXO surgiu, e esse nome expressa tudo que a gente está passando com a arte. Arte é um Anexo de consciência”.

Quais são os próximos passos? Dentro e fora do período de quarentena…

Como a arte e o mundo se mantém em constante reinvenção, pensar e agir mais no momento presente talvez seja a melhor saída. Para Albin, co-fundador da plataforma Yellow Island Records, “ainda é cedo para definirmos qual o caminho a ser seguido, mas, com o imenso número de pessoas talentosas e esforçadas que temos na cena brasileira, podemos esperar pelo melhor”.

Como entrar em contato com o projeto ANEXO? 

Pelo e-mail anexoprojeto@gmail.com, Instagram, Facebook e Bandcamp.

O que o mundo e os artistas podem aprender com o que enfrentamos agora?

KENY/\: Analisando pelo contexto global, a impressão que fica é a de que estamos todos no mesmo barco, mas é delicado quando em alguns países há distribuição de renda emergencial para classe artística de forma justa e eficiente. Já aqui, os artistas estão em situações de bastante fragilidade totalmente inviabilizados pelo sistema público. E tudo isso acontece em um momento em que vemos efetivamente o quanto a Arte, em suas mais variadas frentes (TV, Cinema, Música, Humor), faz diferença nas nossas vidas, no nosso bem-estar, então, antes de falarmos aos artistas “Vocês precisam se valorizar!”, precisamos gritar pra sociedade “Vocês que precisam valorizar e respeitar a Arte”. E é muito mais fácil essa mensagem ser ouvida quando veiculada em conjunto, e essa é a finalidade de um coletivo como a ANEXO, reunir essas vozes.

Nørus: Que a união é algo muito importante para o futuro não só da música, mas de todas as outras áreas da nossa vida.

Saskia: Acho que todos nós estamos lidando mais com o presente do que com o futuro. Todas nossas garantias caíram por terra, agora estamos jogando nossas certezas aos céus. Acho que a valorização do tempo e espaço é o que mais tá mudando as cabeças das pessoas. Muito irônico que é quando nos isolamos, nos prontificamos a não só entender, mas a efetivamente ajudar o que tá lá fora.

Annyl: As conexões estão fazendo momento menos amargo, e acredito que como lidar com o futuro através delas seja o caminho.

RHR: Que quem é fudido de grana não tem vez e que o Estado não tá preparado pra lidar com essas situações e o mais importante: devemos cuidar do mental e estar próximo de quem é importante no nosso rolê.

Albin: Muitos estão usando o período para aprender e ensinar através dos meios online. Vejo também muitos profissionais procurando mostrar seu trabalho atrás das artes visuais, livestream, algo que já vinha crescendo antes da pandemia.

Fornazier: Acredito que vem por aí uma mudança geral em todos os espaços e envolvimentos, a começar no próprio digital, diversas ideias e criações voltado pro meio. As relações pessoais ficarão mais unidas, o compartilhamento de informações e as possibilidades de criação irão se ampliar de acordo com que vamos descobrindo e fazendo daqui pra frente. Por mim, a união pessoal e as formas de se desenvolver conectado a essa nova rede de pessoas que vão se formando seja o aprendizado mais importante. A partir disso, o desenvolvimentos vai criando outros ciclos e aprendizados pessoais e sociais, a preservação da natureza também, aprendizado esse que já deveríamos ter tido há tempo. E que ainda no hype do corona eles veem motivo para desmatar e destruir patrimônios naturais “na calada”.

“As conexões estão fazendo o momento menos amargo” – Annyl, responsável pela parte visual do projeto

O processo criativo da track

RHR: Geralmente, demoro um pouco em cada som. A forma que eu começo depende sempre, é diferente. Mas esse foi baseado no que eu estava estudando na semana, síntese granular. Levo mais ou menos uma ou duas pra fechar um som. Admiro quem faz isso em um dia, mas eu não consigo. Fico tentando vários processamentos antes de finalizar e ao mesmo tempo, tento deixar o mais simples possível. Gosto de escutar e pensar como eu dançaria.

Meu pensamento é um só já faz meses, que é fazer meu rolê virar pra conseguir fazer meus coroas pararem de trabalhar. Principalmente minha mãe…esse momento de pandemia só agravou essa ideia.

Saskia: Essa música eu comecei pelo vocal. Estava com “sorrisos escondidos atrás das máscaras oficiais” na cabeça, fiquei o dia cantando isso. Daí resolvi gravar. Gravei umas 5 linhas de vocal, e comecei a fazer o baixo, depois fiz o beat e depois colei o drum n bass no final. Foi uma música que eu fiz de uma vez só, ela veio, eu transcrevi. Tem um barulhinho nela que é um rangido. Esse rangido é na verdade um rato em câmera lenta.

Eu estava no clima introspectivo-observativo, indo comprar tabaco no posto e vendo São Paulo. Me mudei pra cá com alta expectativa de viver a cidade grande, a cidade do ralo, a cidade que se o mundo acabasse ia começar por ela. Mas, no fim, nada aconteceu. É louco andar na rua e ver todo mundo de máscara. Você só vê os olhos e tenta, por eles, interpretar o que a pessoa sente ou pensa. Sempre fui uma pessoa que as pessoas olhavam na rua. Mas o lance de agora é sobre isso. Sobre meus amigos longe, mas perto, toda a função da arte de observar e comunicar, agora, através das telas. É tudo bem absurdo.

Fornazier: Há pouco tempo, pensando comigo mesmo, cheguei à conclusão de que meu processo de produção acontece de uma forma lenta (aprendi com isso a não acelerar meu desenvolvimento). Produzo tem cerca de 2 anos, nesse tempo lancei poucas coisas e sempre procurei aprender e evoluir meus métodos de produção, tentando criar diversas atmosferas e sentidos diferentes entre elas, e, pelo fato de ser totalmente pelo Ableton, raramente uso equipamento externo acabo colocando muito tempo em como os elementos soa e age no espaço.

Nessa track do ANEXO, por exemplo, procurei separar diversas taxas de frequências e dar a elas espacialidade diferentes. Nela também procurei criar uma sensação desconectada do BPM (velocidade da track) fazendo inicialmente em 80BPM com sensações de outras velocidades ao decorrer da sua construção. Fiquei muito feliz com o resultado de ter conseguindo criar o que tinha pensado e experimentado, criei ela em 2 semanas e o fato de ser pelo ANEXO que me deixa mais contente, um projeto repleto de artistas incríveis que admiro muito.

O nome dela já diz um pouco do resultado: “Empty Folder”, quis deixar as frequências isoladas e espaçada em diferentes posições o que acabou levando a uma “vibe vazia” e ao mesmo tempo envolvente pela incerteza dos compassos de cada elemento dela. Essa foi uma música que produzi no primeiro mês da pandemia, já havia um sentido de saudade e revolta por tudo que foi cancelado e todo caos governamental e social que está acontecendo no Brasil e no mundo. Acabou que nessa “vibe vazia” leva só uma sensação de fachada para uma música repleta de liberdade nos médios, revolta e movimento nos hits e bass. Ao meu ver claro, cada um sente de uma forma diferente.

A crise/vulnerabilidade pode se transformar em gás para produzir?

Saskia: Tudo pode ser um gás. E sofrimento é uma das comidas preferidas da arte. Mas não acredito que a massificação da arte seja o mais apelativo. Acredito que a transformação dos artistas está sendo mais interessante pra mim. Ver outras caras, outros lados da arte dos artistas que eu conhecia e dos que estou conhecendo agora. Quantidade não me interessa, eu estou gostando de ver o aprimoramento da qualidade.

RHR: Sim. A vulnerabilidade cria várias fitas químicas dentro do nosso corpo e mente. Baseado nisso e a fita de sobreviver, o ser humano acaba quebrando alguns ”’portões” e indo além para algo que nem ele mesmo tinha pensando antes. Deve funcionar assim: todo mundo mais ou menos criando e gerando coisas a partir da necessidade tristeza e frustração. Tudo isso engloba estar vulnerável e o principal sobreviver, né não?

Fornazier: Não necessariamente. Com todo clima de incertezas que estamos vivendo está muito difícil prever como vai estar nossa inspiração no dia, a vulnerabilidade leva a diversos tipos de pensamentos e sentimentos que acabam retornando à produção e virando a sensação central da música. No meu caso, que inicio a track em um dia e acabo em outro, mescla mais intenções e cor à música. É legal respeitar seus processos e entender como você transforma sensações e experimentações.

Ouça:

Contribua: ANEXO

 

 

*A primeira coletânea do Projeto ANEXO contou com: Accela a Granel, Albin, Ana Peroni, DJ CARNE DE RÃ, Annyl, ARMENIA, Data Assaut, Deejay Camel, Fornazier, Giograng, Juliana.r, KENYA, Murilo Yamanaka, Nara, Norus, Pianki, R O D, Rassan, RHR, Saskia, Tabu.

O Projeto ANEXO recebeu o apoio de: SOLO, BEATWISE, NICE & DEADLY, GOWIPE, YELLOW ISLAND, BEM LIXO, SOLO ETC, ZONA EXP.

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ARTISTA: Projeto ANEXO