Connan Mockasin É Ironia e Excentricidade Intencional

Músico faz dois shows no Brasil nesta semana, em São Paulo e no Recife

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Fotos: Divulgação

Connan Mockasin faz um som que a gente curte ouvir sem nunca levá-lo muito a sério. Ele riu ao ouvir a hipótese, disse que concorda e depois agradeceu.

A conversa aconteceu por telefone dias antes dele embarcar ao Brasil para dois shows – em São Paulo pelo selo Balaclava Records nesta quarta (14 de novembro) e no Recife como atração do No Ar Coquetel Molotov no sábado, 17. Em poucos minutos de conversa (interrompidas diversas vezes enquanto ele pegava táxi, andava na rua e voltava pro hotel), o músico neozelandês deixou claro que tudo aquilo que vemos em seus lançamentos – da estética ironicamente descontraída ao bigodinho milimetricamente desencanado – faz parte indissociável da personalidade do artista.

“É quem eu sou mesmo, eu só me divirto”, conta ele, “eu levo alguns aspectos da música a sério, eu aprecio sua beleza, mas eu gosto mais é de me divertir”. Ao ser questionado sobre sua estética, sobre como apresenta seu trabalho, ele é categórico: “É como perguntar a alguém por que sua letra à mão sai desse jeito. Esse sou eu”.

Muito admirado pelo pessoal que curte aquele Indie Lo-fi embebido de nostalgia (pense em Mac DeMarco, Ariel Pink e tal), Connan entregou ao mundo seu Jassbusters recentemente. Ao contrário de seus dois trabalhos anteriores, que ele gravou sozinho, essa obra foi produzida ao lado de sua banda, ao vivo no estúdio. “Fizemos tudo rapidinho em Paris”, conta ele, “eu queria ver como os músicos que me acompanham nos shows interpretariam essas canções. Foi um processo fácil e bastante colaborativo”. As músicas, entretanto, foram todas escritas por ele.

“Eu não sento e tento compor com um instrumento, eu só fico ouvindo umas ideias na minha mente e, se eu gostar delas, eu anoto”, comenta ele, “às vezes, eu sinto a atmosfera de um álbum, daí vou e gravo. Geralmente, é algo que aparece do nada na minha cabeça, algo que vem misteriosamente quando eu menos espero”.

O mais curioso sobre o álbum – e, no caso de Connan, sempre parece haver alguma surpresa ao longo de qualquer assunto – é que ele foi feito há dois anos, mas ele preferiu deixá-lo guardado um tempo. “É legal deixar ali, sem mexer, alguma coisa que você sabe que está legal. Depois de dois anos, eu ainda gosto dessas músicas”.

Não é a primeira vez que isso acontece. Durante a conversa, ele mencionou um disco que fez há oito anos com o parceiro Sam Dust (com quem lançou Soft Hair em 2016) que nunca viu a luz do dia – mas o músico não dá muitas explicações sobre essa decisão. Ao ser perguntado sobre colaborações, ele comenta: “Às vezes o processo de trabalhar com outros artistas tem o efeito de você não se sentir muito criativo. Depende de como as personalidades se combinam, mas costuma valer a pena”.

Voltando ao assunto da estética, ele conta que gosta de gravar “em equipamentos que não me deixam editar muito. Eu acredito em deixar registrado aqueles erros que, na verdade, nem são erros. Você gravou aquilo e pode deixar daquele jeito. Se você grava com recursos muito modernos, você começa a odiar essas imperfeições. Então, eu gosto de usar em equipamentos que não me dão muitas opções, prefiro deixar tudo mais simples”.

Simplicidade e imperfeição parecem caminhar juntas no trabalho de Connan Mockasin de maneira bastante intencional por trás dessa assumida excentricidade. Na hora de dar tchau, ele pergunta preocupado: “Que que devo esperar do Brasil com todo esse drama rolando aí?” e eu explico um pouco da vibe tensa e agressiva que estamos passando, então todo alívio é muito bem vindo. Ele pausa por alguns segundos em um silêncio que pode ter sido a reação mais sinceramente humana ao longo dos quinze minutos de telefonema e finalmente diz: “Tá certo, então vai ser bom levar alguns sorrisos ao país”.

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MARCADORES: Entrevista

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.