Coração, cachorros e pés no chão: Lucas Vasconcellos hoje

“Esse disco me transporta para o presente. É uma sensação que eu nunca tive como criador”; músico carioca conta como o recente “Teoria da Terra Plena” contrasta com seus álbuns anteriores

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Fotos: Ana Alexandrino

Teoria da Terra Plena não é um disco inspirado pela pandemia, mas é sim uma obra produzida no contato que Lucas Vasconcellos teve consigo mesmo em um período de, digamos, isolamento, quando se mudou da capital para o interior do Rio de Janeiro – mais precisamente para a zona rural da Petrópolis onde nasceu e cresceu. É uma dica que a própria arte do álbum já dá antes do play, com uma fotografia que faz citação a All Things Must Pass (1970), de George Harrison, ao colocar o músico cercado por cachorros com a paisagem serrana ao fundo, revelando ali seu universo hoje: sem pessoas por perto, com um enorme horizonte para sua contemplação. “Me lembrei de como ele veio parar na minha mão: meu psicanalista me deu um disco chamado ‘tudo vai passar’!”, conta Lucas, entre risos, ao Monkeybuzz, enquanto relembra a produção da capa, na qual ele é visto sem sorrir efusivamente, mas relaxado em semblante e pose. “Sem querer desglamourizar a delícia que é estar aqui, minha vida é monótona, cheia de cachorro e estúdio”, brinca.

Entre ter despontado na cena independente carioca com o duo Letuce – ao lado da então companheira Letícia Novaes, hoje Letrux – e assumir as guitarras nas turnês da eterna Legião Urbana, Lucas viveu, e vive, intensamente sua criatividade. Sua discografia, formada por três álbuns e o ao vivo/acústico Silenciosamente, argumenta a favor dessa ideia. Atuando também como produtor de outros músicos, ele desenha, em sua obra solo, uma narrativa que retrata a cada “capítulo” o momento em que o artista se encontrava, na vida e na criatividade. E sua voz, sua poesia e suas intensidades são pontos em comum durante toda sua trajetória até aqui. Postos lado a lado, os três discos parecem contar uma história complexa que desemboca em um fim feliz em sua leveza.

“‘Teoria da Terra Plena’ é fruto de novos olhares, de novas convivências, de ter ficado mais tempo sozinho, mais tempo com bicho e com planta”

Ao relembrar seu primeiro álbum, Falo de Coração (2013), Lucas comenta que “o primeiro disco solo de alguém é de fato um compêndio de ideias que você teve durante a vida inteira e que você ainda não realizou porque estava fazendo outras coisas. Então, tem uma certa ansiedade e um desejo contido que eu acho bonitos nesse disco. Outra coisa que acho bonita é que eu estava me sentindo de certa maneira amparado pela minha solidão e muito ansioso pelo que poderia ser a minha vida ali, a partir de 2013. Tenho muito carinho pelo meu apartamento do Rio de Janeiro naquela época e uma nostalgia meio ruim, meio boa da minha separação com a Letícia, que movimentou coisas naquele disco. E eu estava começando a produzir outras pessoas naquela época. Eu gosto de lembrar como meus clientes, e hoje amigos, sem querer me ajudaram a fazer o meu próprio disco – experimentei nele para usar no de outras pessoas, e fiz muita coisa em outros trabalhos que deram certo, daí trouxe para o meu. Resumindo, tenho um carinho nostálgico pela época que ele foi feito. O mundo não era desse jeito, o Brasil não era assim, a gente era feliz e sabia, mas também não sabia tanto. Ou não sabia exatamente por que era feliz, mas era (risos)”.

“Já Adotar Cachorros (2015) começou a partir do ódio. E eu falo isso com todo amor: Tenho carinho pelo ódio desse disco (risos)”, explica Lucas, “por ser descrente da máquina cultural do lugar onde eu morava, pela minha decepção com uma cidade linda historicamente e folcloricamente, que é o Rio de Janeiro. Lá, senti meu tapete ser um pouco puxado pelo passar do tempo, com as coisas sendo desgastadas pelo espectro político no fazer cultural. Eu senti que o Rio como lugar de resistência, polo de criadores e celeiro de novidades não estava conseguindo reagir a esse bombardeio de negatividade e estava sucumbindo de algum jeito. Gosto muito da produção [de Adotar Cachorros] também, do Emygdio Costa (da banda Fábrica), um cara muito interessante como artista com quem eu trabalho até hoje. Tenho carinho pelas texturas desse disco, que são a cara dele”.

Após um trabalho tão carregado de arranjos (Falo de Coração) e outro tão experimental (Adotar Cachorros), é curioso como Lucas foi parar em um formato mais “cancioneiro” do que nos demais momentos de sua carreira. “Isso veio naturalmente pelo lugar bucólico em que Teoria da Terra Plena foi feito”, comenta o músico, que acredita também ter sido inegavelmente impactado pelo que viveu com Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá na estrada. “Acho que o poder de texto que Legião Urbana tem é monumental, e o contato que eu tive com essa obra foi muito intenso, então isso fica em mim”, conta ele, “se você comer carne vermelha todo dia, seu corpo fica de um jeito. Se você comer peixe todo dia, ou salada… vai moldando, é uma coisa que, quando você vê, já aconteceu. Estar em turnê com a banda e estar em contato com essa obra de uma maneira tão visceral – não como pesquisador, mas como uma pessoa que está promovendo aquela música ao vivo, tendo contato com aquelas harmonias –, é claro que elas entram mais em você. E essas músicas, de uma maneira muito intensa, mostram o poder de um texto, que é melhor não falar abobrinhas não, mas falar diretamente de coisas reais que apertam o coração das pessoas, sabe? Não quero ser pretensioso de dizer que as minhas letras chegam nesse lugar, mas o contato com uma obra incrível, principalmente do ponto de vista da composição, me faz querer ser melhor nesse lugar”.

Munido dessas experiências e isolado no interior, Lucas desenvolveu novas perspectivas para suas composições, o que culminou em Teoria da Terra Plena. “Ele é fruto de novos olhares, de novas convivências, de ter ficado mais tempo sozinho, mais tempo com bicho e com planta”, explica ele. “Quando botei esse disco na rua, a primeira impressão de quem já conhecia meu trabalho foi que minha voz estava mais grave”, conta Lucas. “Sinto que eu estou um pouco mais velho e percebo que esse grave, essa onda de rouquidão, pinta mais bonito quando você está mais velho. Outra que a direção artística desse trabalho, da Eveline [Maria], apontou muito pro texto. Ela considerou, e com muita razão, que uma parte bem proeminente desse disco estava nas letras. E o jeito de você colocar essas letras para elas ficarem bem compreensíveis, não ficarem tão perdidas nos arranjos, é chegar mais perto e colocar o texto em um lugar mais brilhante, mais ’holofotado’, algo que a gente se preocupou bastante na mixagem também”.

“Esse disco me transporta para o presente. É uma sensação que eu nunca tive como criador. Ouço esse disco e penso: ‘esse sou eu agora sem ansiedade’. Os outros tinham muitas ansiedades – na nostalgia, no futuro, nas incertezas –, a potência criativa estava sempre em um lugar de sofrimento”

Lucas conta que percebe que seu público de hoje é formado por pessoas que “gostam de leitura, de livro” e que “não tem vergonha de ter sentimentos amorosos sobre a vida”. “Coisas que eu de alguma maneira já tive – essa sensação de que o amor pode ser uma coisa clichê e que nossos sentimentos deveriam ser mais bem elaborados, com percepções mais perspicazes. Mas, na verdade, não. O amor é a coisa mais importante, nada é mais transformador do que você amar as pessoas e amar a vida. Quem escuta meu disco prefere amar a vida, não reclamar dela. As mensagens que eu recebo mostram isso”. Na liberdade de poder desafiar nossas ideias do que é clichê, ele conta também que compôs “Vamos Tacar Fogo nas Coisas” para cantar com Uyara Torrente (A Banda Mais Bonita da Cidade) após ver Diana Ross e Lionel Ritchie cantando “Endless Love” e pensou “que estranhamente bonito e datado um homem e uma mulher fazendo um dueto romântico em uma música”. E “liberdade” é uma palavra-chave para entender o álbum, dos sentimentos envolvidos aos pés descalços na capa.

Teoria da Terra Plena me transporta para o presente. É uma sensação que eu nunca tive como criador”, conta ele, “ouço esse disco e penso: ‘esse sou eu agora sem ansiedade’. Os outros tinham muitas ansiedades – na nostalgia, no futuro, nas incertezas –, a potência criativa estava sempre em um lugar de sofrimento. Eu gosto desse disco porque ele é a minha parte que não fica querendo que tudo aconteça e, ao mesmo tempo, não fica olhando para tudo o que poderia ter acontecido. Eu consigo hoje sentir a música na minha vida como algo que eu jamais vou perder. Nunca nem me preparei para fazer outra coisa na vida. Depois de um tempão trabalhando com isso, me sinto feliz com um tiquinho de certeza de ‘que bom que deu certo’”.

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.