Coração caverna, coração galinha

O novo disco de Ana Frango Elétrico é uma continuação (com rupturas) de seu debut. Com exclusividade para o Monkeybuzz, a artista disseca cada faixa de “Little Electric Chicken Heart”

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Fotos: Hick Duarte

Nos últimos três anos, Ana Frango Elétrico se viu em constante vibração. Sua carreira deslanchou com o lançamento de Mormaço Queima (2018) que a levou para palcos ao redor do Brasil e ainda rendeu o título de jovem artista revelação da cena musical carioca. Com Little Electric Chicken Heart que sai agora pelo selo RISCO, o intuito da multi musicista é o de dar continuidade ao disco anterior mostrando uma versão ainda mais verdadeira, audaciosa e livre de sua persona criativa. E, ao que tudo indica, o LP – que acaba de chegar aos serviços de streaming – pode firmá-la no posto ao qual o seu primeiro registro a levou. Abaixo, uma conversa colorida com Ana e a sua descrição de cada uma das músicas de LECH.

Em que sentido se dá a continuidade do primeiro disco para o segundo?

Tem continuidade na pesquisa da estrutura das canções, em como se dão as mudanças e rupturas entre as partes. Sinto que o LECH pega elementos sonoros do Mormaço Queima como os sopros, coros, dobras da minha voz, e os entende como sujeitos fundamentais da narrativa sonora. A grande cisão está no raciocínio de produção musical do disco: se o MQ é o disco de uma anti-cantora, o LECH é um disco de “intérprete”.

O título desse disco se parece mais com o nome do próprio projeto (Frango Elétrico, Electric Chicken). Isso, de alguma forma, representa uma postura mais intimista?

Electric Chicken é pelo chiclete da palavra, pelo som de voz de narrador da Sessão da Tarde. Sinto que esse disco escancara uma intimidade minha, meu pequeno-elétrico-coração-galinha. Tem uma frase do Maiakovski que eu plantei muito no processo: “A todas vocês que eu amei e que amo / ícones guardados num coração caverna”.

Por onde o seu coração passou nos últimos três anos? Qual é a fundamentação sentimental de LECH?

Os últimos três anos foram meu começo de carreira solo e o segundo ano de shows e estúdio. Meu coração esteve na música e em suas circunferências: amores e frustrações, a conjuntura política, as hashtags, receitas de bolo… Tem muito da minha poesia em algumas canções e tem muito de uma palavra a favor da canção. O MQ era muito saturado, LECH tem toda uma atmosfera mais aérea e azul-marinho.

O que é, para você, uma sátira romântica? Como LECH se encaixa nessa descrição?

Acho que é a coisa da falsa melancolia, que, às vezes é sugerida, mas o tempo todo é testada e quebrada. É o fato de ser um disco de intérprete em que as canções são composições minhas. Eu sou a guitarrista e a produtora musical, ao lado de Martin Scian.

Em termos de sonoridade, quais foram os seus principais objetivos com LECH e como você chegou até eles?

Tinha um objetivo de ocupar espaços de um campo sonoro redondo, pensar a produção sentimental, cromática, conceitual. Queria um som de sala grande, bases ao vivo, sopros, surdina. Yoko Ono é uma grande referência de produtora para mim. Da intenção no momento em que se grava, da poética, da linguagem como abertura para possibilidades utópicas… A inversão da sensação do espaço-tempo por meio da palavra e do som.

Se você tivesse que descrever esse trabalho usando cinco discos de outros artistas, quais entrariam nesse caldeirão?

Reach Out (1967) de Burt Bacharach, Ninguém me ama (1957) de Nora Ney, Ava Patrya Indya Yracema (2015) de Ava Rocha, Salad Days (2014) de Mac DeMarco e Build Up (1970) de Rita Lee.

S A U D A D E

Introdução/abertura/esquenta pro disco. Música de 2017, composta quando o Mormaço ainda/já estava em processo de gravação. Burt Bacharach como referência para algumas coisas em dobra de instrumentação e função da voz/coro como instrumento. Gosto da sensação do disco começar em B sus (sí sustenido), uma nostalgia.

P R O M E S S A S   E    P R E V I S Õ E S

Essa composição é do Chico França. Eu estava passando um mês em São Paulo, entre outubro/novembro de 2018, com o coração completamente apertado, e fechando o repertório do disco. Ele me mostrou e foi amor à primeira vista. Neste mês, em São Paulo, eu finalizei as últimas três músicas que entraram no disco.

S E   N O   C I N E M A

“Se no cinema” é uma canção que vem de um poema. Vem do começo de 2017. Fiz em uma mesma viagem para o mato, junto com “Saudade”. É a música em que mais sinto que está bem concluída, sinto ter conseguido uma sinestesia na poética e narrativa da canção.

T E M   C E R T E Z A ?

É uma música mais eufórica. A última do que seria o lado A do disco, minha e do Bruno Schiavo. Comecei a fazer pensando nele, no Roberto e no Erasmo Carlos, fora a alfinetada romântica. Ponto de partida e chegada da minha guitarra pós-Mormaço Queima, em termos de estúdio e shows. Umas das faixas que mais tem os anos 1970 como referência.

C H O C O L A T E S   E   T O R T U R A D O R E S

São músicas que têm um cunho mais poético, onde a palavra importa muito. “Chocolate” já tinha sido gravada em 2016, na coletânea Xepa/Nata, de um jeito completamente diferente, antes do Mormaço. “Torturadores”, musicalmente, tem uma referência mais anos 1950. Eu cantei o disco todo com o RCA, que é um microfone incrível e específico da época – o que é uma curiosidade legal. A letra não, fala de escracho popular, da breve e tardia Comissão da Verdade, “pesquisando o nome e o endereço de torturadores”.

D E V I A   T E R   F I C A D O   M E N O S

É a música mais antiga do álbum, tenho desde 2016. Acho que ela é a mais rosa-chiclete do disco. Vejo um pouco de Mormaço Queima nela também. Ao longo do processo de produção, foi mudando o que eu queria ou não queria dela. Acabou mais para um desenho animado dos anos 2000 ou 1970.

C A S P A

Caspa só faz sentido quando se entende o título como parte do poema. Fiz em São Paulo também, nesse mês que passei lá, em 2018. Já sabia que ela ia fechar o disco assim como “Saudade” abriria. Saber onde o disco começa e onde termina é bem importante para o meu processo e para como se dão as decisões a respeito das outras músicas.

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