Da dor à cura com Tuyo

Trio paranaense tem em suas faixas um potencial terapêutico que, ao mesmo tempo que sara, reabre algumas feridas

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Como enfrentar a vida de peito aberto sem cair em um cinismo barato ou ser pessimista demais? Essa foi uma pergunta que me ocorreu enquanto conversava com o trio paranaense Tuyo e é provável que você também se pergunte o mesmo quando percebe que nas letras do grupo há uma “contemplação da dor”. Não há em nenhum momento uma sugestão de como sair dessa ou uma luz no fim do túnel.

“Não acho justo a vida me ensinar / De um jeito tão cruel / Como se fosse só assim pra entender / Que você não é pra mim”. É com versos assim, retirados da faixa Solamento, que mergulhamos no mundo de um dos grupos mais comemorados dos, pelo menos, dois últimos anos. A crueza dessa poesia é bastante dolorosa e é o que dá o tom de suas recentes obras: um enfrentamento à tristeza que funciona como válvula de escape, não só para os artistas que desabafam suas histórias, mas também para o ouvinte que se identifica (e às vezes se vê espelhado) nela.

De certa forma, ouvir a música de Tuyo é uma quase como terapia, ainda que a banda diga não acreditar “que música tem que ter função”, como se fosse uma pílula que se tomasse apenas para um mal estar desaparecer. Há certa ironia quando seu novo álbum tem Pra Curar como título. Segundo a banda, a tal cura pode sim acontecer, mas não no imediatismo de um analgésico. “Acho pequeno diminuir a música a um comprimido que você toma, como se toma um chá que serve pra fazer digestão”, diz Lio Soares, “é muito mais amplo, muito mais profundo”.

Insisto em dizer que a música da banda é sim um tipo terapia, mas não daquelas em que você está deitado em um divã expondo seus problemas em busca de algo que (quase) sempre estava dentro de você, mas uma terapia em grupo na qual a experiência das outras outras pessoas também influencia diretamente no seu processo de recuperação. Talvez seus shows se tornem mais que um espetáculo, sendo uma experiência terapêutica coletiva como poucos conseguem promover.

Há na música do trio algo Pra Doer e algo Pra Curar, sara ao mesmo tempo que (re)abre uma ferida. “No fim de tudo, é tudo muito embolado esse negócio de curar e de doer. São os processos, sabe?”, contou Lay Soares sobre os títulos de seus trabalhos recentes. Tais processos estão muito presentes na letras das irmãs Lio e Lay Soares e Jean Machado, que se desenvolvem como conversas num grupo que quer exorcizar os demônios do passado pondo para fora do armário cada um desses fantasmas, sempre com bastante franqueza e sem medo de qualquer julgamento.

A irmã mais nova, Lay, conta um pouco sobre esse processo: “Tem aquela parada bem freudiana de sublimar quando você vomita umas paradas e elas estão nas artes, todo e qualquer tipo de arte. Então, temos usado esse espaço, onde não podemos ser rigidamente criticados e julgados (risos), para vomitar todos esses demônios e vê-los fora da gente. Quando falamos, damos nome e cantamos essas coisas, elas estão naquele momento fora de nós e acho que é mais fácil de enxergá-los e reorganizá-los. Choramos recantando as músicas e revisitando os sentimentos de quando vivemos e escrevemos a parada”.

As experiências e dores vividas pelos três se transformam em relatos musicados de uma verdade bastante universal: todos nós sofremos, e lidar com a rejeição ou com a falta do outro é bastante difícil. Sobre isso, Lio comenta: “As coisas que nos sentimos autorizados a falar, são esses sentimentos pelos quais tivemos que passar e que todo mundo passa: esse negócio de perder familiar, perder gente próxima, perder em vários sentidos, separar, brigar, ficar bolada, entrar em depressão, ter crise de ansiedade, enfrentar uns pesadelos horrorosos, todos esses enfrentamentos. Acho eles muito democráticos e pouco acessados”.

“Não curtimos muito essa coisa de escapismo, de que tem que cantar ‘mais amor por favor’, ‘ninguém solta a mão de ninguém’. É muito longe da nossa percepção do mundo. Gostamos muito de pensar na falência da sociedade e de como a morte é a única certeza que temos, esses clichês, sabe? É o que temos a chance de entregar na sinceridade, mais que isso seria forçar a barra. Está no disco assim, tanto nas letras quanto nas estruturas”, completa ela.

Temas como desilusões, rejeição, sabedoria, cansaço, crescimento e aceitação, entre outros, aparecem em quase todas as canções da banda, às vezes salpicadas com algum cinismo, às vezes num tom pesaroso, às vezes em um discurso totalmente resignado. Todas essas emoções aparecem à flor da pele nas vozes do trio, mas nunca revestidas de lirismo rebuscado ou de uma proposta de envolver essas histórias em camadas que dificultem o acesso do ouvinte.

“Se passasse uma estrela cadente
E pudesse me dar um presente
Eu pedia: Me leva (*Me Leva*)”

“Estamos começando a ter essa reflexões e pensei nisso essa semana lendo uma entrevista do Dinho, do Boogarins, ele falando sobre como ele curte navegar no abstrato. Estamos na contramão disso”, conta Lio, que continua: “Somos mais cronistas do que poetas. Na Tuyo, apesar de falar de temas muito abstratos, falamos sobre essas coisas de um jeito muito não metafórico. Se bem que Terminal é cheia de metáfora, né? Mas é muito óbvia a comparação, não é uma poesia muito solta. Eu Não Te Conheço é muito literal, Vidaloca é extremamente literal”.

Sobre isso, Jean, instrumentista e um dos produtores do trio, tem uma sacada divertida, algo que de certa forma muda como essa mensagem está sendo transmitida ao público: “Eu acho que a ironia é embalar esses sentimentos todos com uma estética mais confortável. Acho que hoje não temos intenção de soar agressivos, apesar de acreditarmos que essas sejam umas paradas bem agressivas pro corpo e pra mente“.

E verdadeiramente são. Todos esses transtornos com nós mesmos, vindos dos mais variados motivos, muitas vezes têm como raiz uma só coisa: a solidão. Não o fato de estar sozinho, mas de se sentir sozinho. A música, como Lio conta, pode servir para aproximar as pessoas, ainda que seja pelo breve momento de uma canção. Sabe aquele negócio de terapia coletiva? Ela explica um pouco disso:

“Quando cantamos essas paradas e as pessoas cantam junto, cada uma tá sentindo do seu jeito e talvez a pessoa que esteja do seu lado não se sinta mais tão só. Eu gosto muito da ideia de provocar nas pessoas esse sentimento de se sentir só na sua dor, não essa falsa empatia de a pessoa falar ‘eu entendo você’. Não entende porra nenhuma, você não tá vivendo a minha vida. Mas aí cada um se compreende no seu não entendimento, sabe? Eu não dou conta do que você tá sentindo e você não dá conta do eu estou sentindo, mas estamos juntos sentindo umas paradas horrorosas e vai todo mundo sobreviver. Vamos ter que ultrapassar isso aí, vai vir uma outra treta e a gente vai ter que lidar com ela também. É bonito demais. Quando cantamos Solamento e estamos num espaço que tem muita mulher preta cantando, isso aí me destrói. Me fode a cabeça. E eu fico me sentindo menos sozinha. Talvez a gente cante pra isso, pra nos sentirmos menos sozinhos”.

Mais do que uma mensagem direta envelopada em “estética confortável”, a missão do trio como cronistas é não dificultar o acesso do ouvinte ao que verdadeiramente importa: não mascarar a mensagem, mas o exato oposto, torná-la o mais abrangente possível para que quem ouça consiga transpor essa letra para alguma situação que está vivendo e não algo muito específico.

Lio conta sobre isso: “Odiamos ter que explicar alguma música, porque mata o problema na cabeça da pessoa. Eu lembro que no começo as pessoas pediam muito ‘ah, porque escreveu?’ ou ‘o que quer dizer essa frase?’ e era tipo ‘segura na âncora e pula no mar’. É claro que tem outras camadas, mas tá na mão das pessoas. As sentenças são amplas o suficiente para que a gente tenha a chance de associar a qualquer momento que precisarmos de um totem, de um lugar pra segurar”.

Lay ainda comenta o efeito da sua música nas outras pessoas e em como suas letras afetam os ouvintes de formas tão diferentes: “A canção é muito sua, todinha sua, quanto você está compondo, quando você está vivendo. Mas aí existe esse fenômeno quando outra pessoa recebe essa música e a reconfigura pra ela; aí é dela e eu não tenho nada a ver com isso. Não no sentido que eu não me importe, mas de que é totalmente dela e não está mais no nosso controle ou nosso alcance. Não diz mais respeito a mim”.

Sabe aquilo de enfrentar a vida sem pessimismo? Jean diz que não há respostas para tudo e seria prepotência demais esperar ter muitas certezas sobre esses assuntos tão complexos. A honestidade da banda vem disso, de admitir as incertezas e de lidar com elas, mas sem deixar que tomem conta.

Lio continua com mais algumas ponderações sobre o tema: “Gosto muito de pensar que existe um problema em achar que realidades são pessimismo, sabe? Não me considero uma pessoa pessimista mesmo não cantando esses temas. É uma outra perspectiva da realidade, de que não é ruim você encarar que depois da morte não vem nada, a pessoa não vira estrela, não tem céu. Pessimismo não está em oposição ao otimismo, eu acredito. Acho que tem um lugar aí no meio, não a realidade como se fosse uma verdade entre esses dois extremos, mas algum lugar aí no meio em que nós encaramos só os fatos e seguimos em frente. Posso não decidir o que eu vou fazer agora com essa informação e tentar seguir em frente sem ignorá-la”.

Lembra que Machado havia dito que há certa ironia em embalar todas esses temas e letras tão pesados em uma “estética mais confortável”? Esse contraste agridoce é o que torna a música do trio tão interessante e que quando se compara o novo álbum e seu primeiro EP vemos um grande salto na sonoridades propostas e nos terrenos explorados. “Acho que tem uma galera que conhece Tuyo por aquela vibe mais voz e violão e acho que esse pessoal deve ter tido um choque maior” sobre essa mudança, de certa forma, radical.

Em Pra Doer, o grupo explora mais possibilidades do que o Folk Eletrônico de Pra Curar. Há muito mais elementos eletrônicos e efeitos nas vozes e nos instrumentos. Se algumas das faixas do EP tinham algo mais “minimalista”, no disco esses espaços são ocupados por camadas de reverb, de vozes sobrepostas e pela criação de uma atmosfera sintética, que cria um contraponto interessante com as letras tão orgânicas e tão humanas. “Com o disco, eu sinto que estamos apontando pro lugar que queremos ficar morando esteticamente com mais vigor do que fizemos no EP”, conta Lio.

Ela completa: “Até as músicas que tem uma paleta mais orgânica, tipo a sem título – faixa 8 – que é uma canção mais crua, o famoso voz e violão, passou por processos de aplicações sintéticas, que é uma coisa que não tínhamos feito no Pra Doer. No EP, o que era cru foi cru, mas no Pra Curar se vamos entregar voz e violão, então vamos entregar algo mais atmosférico, espacial”.

Essas escolhas estéticas e a forma como os arranjos embalam as letras fazem da obra uma boa representação do que Tuyo pretende com sua música e, mais que isso, representam bem a própria banda como condutora de sua narrativa. “É muito difícil você produzir algo tão grande quanto é um disco sem se perder no meio do caminho”, diz Lio. O grupo me disse que se sente muito bem representado pela obra, e talvez um pouco disso venha também pelo fato dos vocais de Jean estarem mais proeminentes, agora com os três membros não só compondo, mas cantando também.

Se isso não é novidade para os fãs mais assíduos aos shows, é surpresa para a aqueles que só ouviram o EP. Agora, Machado tem um papel mais presente nos vocais, inclusive sendo a voz principal em Terminal, canção que inaugura Pra Curar. Ele comenta: “Eu estava morrendo de medo. Eu cantava sozinho e sempre compus os rolês que a gente tocava, mas até então não tinha interpretado uma música dentro da Tuyo. E começar com a música foi um rolê pra assustar mesmo”.

Depois de tanto conversar com eles, deu para perceber um pouco do que é seu processo criativo. Há um momento de sentir, de reviver, de lidar com a dor e transformar isso numa poesia – ou eu deveria chamar de crônica? Já outro é musicar essas letras. Além de experimentar em estúdio, eles ainda me disseram que os palcos, os shows tem um papel importante nessa criação:

“Acho que vale muito o rolê de testar o arranjo e a vibe da música nos shows, as letra nem mudam tanto, sabe? Acho que, quando tocamos uma canção, a letra já está mais fechada. Já o arranjo dela é um teste sim”, conta Jean. Bom, não é raro ver vídeos ou shows do grupo em que as composições ganhem pequenas mudanças, adições ou reparos. E talvez isso seja mais um dos motivos pelo qual é tão interessante acompanhar a banda e ver o nascimento e desenvolvimento de uma canção.

Falei também com a cantora goiana Bruna Mendez, que colaborou recentemente com o grupo e criou laços que vão além da música. Ela me conta um pouco sobre esse processo de composição e como sua música se comunica com a do trio:

“Quando a música começa a virar um processo muito bem pensado, ela passa também por uma superficialidade, porque tudo é muito programado sabe? E nisso nos conectamos de uma forma incrível. Acho que eles conseguem me tocar, acho que as músicas falam o que eu gostaria de escrever, o que eu gosto de ouvir e a sonoridade é incrível, né?”

Ela ainda comenta sobre as letras serem quase sempre tão claras, mas ao mesmo tempo ter a mais, as tais camadas que Lio já havia comentado: “É tudo muito imagético, tem muita coisa pra você descobrir, sabe? Pra você identificar, pra você interpretar de outras formas. As letras são imagens e acho que nisso eu tenha me identificado muito”.

Os minutos finais da conversa com Tuyo foram um pouco sobre o processo de lançar a obra e o alívio pós-lançamento, mas também a ansiedade que o precedia: “Um pouco é teste, um pouco é ansiedade, né? Não sabemos esperar. Somos uma banda extremamente ansiosa e esse disco só saiu esse ano por causa disso, pela nossa extrema ansiedade”, comenta Lio.

Jean ainda completa: “É muito louco que conseguimos circular com um EP e rolava muito essa ansiedade de poder circular com um disco completo, isso motivou muito a gente de testar essas músicas durante os shows. Mas agora é um outro jeito, circulando com o Pra Curar, a gente talvez invista em outro jeito de criar o próximo álbum”.

Por falar em próximo álbum, o grupo já tem mais uma agendado para o próximo ano, a ser lançado por um edital da Natura Musical. Sei que é cedo para falar em um novo disco, sendo que Pra Curar foi lançado há poucos dias, mas a ansiedade não é só pelo lado dos artistas. A data? provavelmente em novembro de 2019, sendo que EP e disco, foram lançados respectivamente no mesmo mês nos anos de 2017 e 2018. Uma “tradição” segundo Lio.

Respondendo aquela pergunta do começo, sobre enfrentar a vida sem cinismo, acho que a resposta está na música ou nas artes no geral. Lembra que Lay havia dito de sublimar (aquele “parada freudiana”)? E se isso acontece não só com que faz, mas também com quem ouve ou aprecia a obra? E se essas canções servissem como uma ponte entre a dor e a cura? Um caminho mais fácil para essa tortuosa via que vamos ter de caminhar de qualquer forma. Acho que essa não é exatamente uma resposta, mas é algo que nos traz mais outras tantas perguntas.

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ARTISTA: Tuyo
MARCADORES: Entrevista

Autor:

Desde criançaa apaixonado por música, consumidor compulsivo de hamburguer e chato