Da janela de Marina Melo

Em “Ousar Abrir”, disco com produção de Luiza Brina, a artista se debruça sobre temas atuais – e pontiagudos – sem perder a ternura

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Fotos: Divulgação

Às vezes, as palavras escolhidas para descrever um disco podem explicá-lo muito bem, mas também falhar na hora de comunicar algumas qualidades que não cabem nas junções das sílabas. Ousar Abrir é um álbum de faixas minimalistas, com uma produção eletrônica arrojada e sons que reverberam por uma ambientação asséptica – quase como lasers que passeiam pelo corredor branco de um cenário de ficção científica. Sim, tudo isso explica o disco, mas ignora injustamente o fator humano que Marina Melo consegue desenvolver em todas as suas criações, mesmo com uma estética dessas.

Diferente de seus álbuns anteriores (Soft Apocalipse, de 2016, e Estamos Aqui, de 2019), Ousar Abrir é o que mais tem cara de uma obra pensada em começo, meio e fim. Falando ao Monkeybuzz, a artista explica que todas as canções, com exceção de “Vênus”, foram compostas – algumas já em ordem – com essa unidade em mente e “uma linha narrativa muito pensada”: “Eu fiz um caminho intencional de começar e terminar íntimo, falando de coisas muito minhas que acredito que não são só minhas. Queria convidar o ouvinte para esse caminho. Que eu sabia que em alguns momentos, seria pontiagudo, porque eu não sei ser diferente. Mas, no fim, queria dar um abraço. Assim, sem nenhuma resposta, dizendo ‘talvez, isso aí que você sente, eu também sinta’”.

Marina conta que, em suas obras passadas, as ideias nem sempre estavam tão bem conectadas e, por isso, quis trabalhar o repertório dessa maneira. “Meu disco anterior também convidava à identificação. Eu também falava de ‘alguém que eu chamei de meu amor e você talvez também chamou’. Mas era um pouco aleatório. Era ‘vem cá, me abraça, mas deixa eu contar que Marielle foi assassinada com nove tiros na cabeça’. Agora eu estou fofa e agora, agressiva. Depois, reflexiva”. Em sua perspectiva, Ousar Abrir é diferente por ter sido todo composto de uma só vez, “mais organizado” que seus antecessores. E, segundo ela, isso faz com que sua poesia se conecte melhor com os ouvintes.

“No lado A, há umas pinceladas do que pode ser uma crise climática. Falo do fim do mundo, mas ainda no âmbito do xaveco, do romance. Daí, o lado B começa com ‘Doutor’, que é uma música muito íntima – porque, afinal de contas, é alguém indo ao médico –, mas no final se revela que estou falando de uma situação, não de uma pessoa. E, agora que estamos aqui, vamos falar do nosso uso completamente obcecado das redes sociais (‘Feed’), que nos fazem saber de tudo e não conseguir fazer nada. Vamos pensar qual a relação disso com as cidades onde vivemos sem céu (‘Cidade’), e vamos abrir a janela e terminar pensando quais os desejos íntimos e coletivos que temos (‘Tempo’). Todas as músicas se conversam”.

“Desta vez, eu queria fazer diferente – queria gente. Poder fazer arte com outras pessoas pensando é importante para não ficar tão ensimesmado. Foi um processo com muita permeabilidade”

Para além da relação cultivada com quem escuta o álbum, há também muito afeto e conexão nos bastidores de Ousar Abrir – o que, certamente, contribui para o tal fator humano presente na obra. “As gravações tinham um gostinho de café da tarde”, relembra Marina. “Estava gravando vozes, mas também comendo um bolinho e pensando na vida”. E isso se deu pela escolha das pessoas que lhe acompanharam por todo o processo de realização do disco, a começar pela produtora Luiza Brina.

A escolha veio a partir do disco Prece (2024), que Marina escutou e disse que queria ter a “cabeça musical” da produtora para Ousar Abrir. “Fiquei encantada com como um arranjo pode transformar muito uma canção”, conta ela. “Eu já sabia, né? Mas, quando eu vi os arranjos que ela deu para aquelas canções – que eu já conhecia no voz e violão –, vi que ele pode trazer muito assunto para uma composição, a ponto de realçá-la e de dizer o contrário também. Propus que ela trouxesse isso, que tivessem bastante corpo e história para fazer as canções crescerem”.

“Acho que fazer arte tem isso de se propor a novidades, experimentar o que ainda não foi feito. Primeiro, me isolei voluntariamente. Depois, por conta da pandemia, produzi à distância. Desta vez, não. Queria o café da tarde”

Essa dimensão expansiva dos arranjos é muito bem dosada com o minimalismo proposto, fruto da espacialidade desenvolvida pelo sound designer Lucas Ferrari. Sobre o trabalho com ele, a artista lembra: “Era um caminho que não sabia exatamente onde daria, porque muitos arranjos trazem esse caráter minimalista, com espaços em aberto”. Para acompanhar sua poesia, eles acrescentaram “um ruidinho que parece ter vindo do espaço, uma coisa intergalática, e outros que parecem poeira de estrelas” – que poderiam, em outras mãos, resultar em uma obra fria e emocionalmente distante.

Ao contrário disso, as canções não escondem o calor humano com que foram feitas. Há afeto também nas participações de Lio Soares (da banda Tuyo) e Barbarelli (ambas em “Menina”), Otto (“Doutor”), Filarmônica de Pasárgada (“Feed”) e Ná Ozzetti (“Cidade”). As escolhas de convidados reforçam também a inserção na cena independente, de São Paulo ou do Brasil, da qual Marina Melo faz parte há tanto tempo. “Algumas pessoas farejavam um Itamar Assumpção ou um Luiz Tatit no meu primeiro disco”, relembra ela. “Mas, quando você se associa com pessoas que viveram essa história, você não deixa dúvidas [do seu pertencimento]”.

É uma forma de trabalho bastante diferente de seus lançamentos anteriores. Estamos Aqui foi feito apenas com o produtor Chico Neves no interior de Minas Gerais – “era uma viagem solitária, apenas eu com minha música e um só parceiro” – e o EP Canções de Amor para Itens Descartáveis (2022) foi produzido à distância por Naná Rizinni. “Desta vez, eu queria fazer diferente, queria gente”, explica Marina. “A real é que poder fazer arte com outras pessoas pensando é importante para não ficar tão ensimesmado. Foi um processo com muita permeabilidade”.

“Acho que fazer arte tem isso de se propor a novidades, experimentar o que ainda não foi feito. Primeiro, me isolei voluntariamente. Depois, por conta da pandemia, produzi à distância. Desta vez, não. Queria o café da tarde”.

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ARTISTA: Marina Melo

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.