Da Sensibilidade Imagética do Som

O quão influente a imagem de uma banda é na escolha do que se escutar?

3,832 total views, no views today

É de conhecimento e consenso geral de teóricos da comunicação e semioticistas que a imagem exerce uma profunda influência sobre o comportamento humano. É curioso ver de que forma isso direciona nosso jeito de viver, sendo um dos exemplos mais primordiais e marcantes as mensagens de família perfeita expostas em propagandas dos anos 50, que induzia o receptor a comprar seu produto propondo (inconscientemente) que sua família seria como aquela se você usasse determinado produto. Não que isso seja novidade, mas é como dizem “uma imagem vale mais que mil palavras”. Seja ela da natureza que for (produção gráfica, moda, personalidade, cinema etc.), o fato é que isso pode ocorrer tanto de forma consciente como inconsciente e, por mais que sejamos diretamente inclinados a nos firmar nessa posição “certinha” de jamais julgar o livro pela capa, não poderíamos estar mais distantes da verdade. Somos instigados a tomar decisões baseadas nas imagens destes objetos a todo o instante e a música não escapa dessa dinâmica.

Quando falamos de “imagem” na indústria fonográfica, não estamos necessariamente falando apenas da arte gráfica de seus álbuns, porém cabe aqui uma digressão a respeito deste campo em especial. Por mais que tratemos a música como arte, não podemos ignorar o fato que ela acaba (na grande maioria das vezes) servindo a uma finalidade de produto e, como todo produto, ela está associada à publicidade e marketing. Sendo assim, o primeiro contato que se tem com um disco é a sua capa, embora isso tenha diminuído um pouco com o aumento de downloads ilegais e lojas digitais). Assim, uma capa chamativa e “bonita” (gostaria de poder colocar mais umas 40 aspas neste termo) é quase sempre um ponto chave da elaboração do conceito do disco e, portanto, o contrário pode gerar uma reação contrária. Por exemplo o último disco de Deafheaven, Sunbather, levou muitas pessoas a persistir na audição do disco (de um gênero musical considerado difícil de ser degustado), assim como a capa do single Reflektor de Arcade Fire causou um considerável estranhamento entre os fãs acostumados em ver belíssimas obras de arte nos últimos três discos da banda.

Mas como dito antes, a imagem de uma banda não se traduz apenas no campo gráfico. A moda também tem um poder muito forte nas impressões que tiramos de determinados artistas. Um dos exemplos mais famosos dessas dinâmicas foi o boom de MGMT em 2008/2009. O visual “hipster” descolado e psicodélico agregou valor à banda de forma a elevar sua popularidade bastante. Mas, da mesma forma que o visual cool beneficiou o duo nessa época, ele causou certa cegueira na crítica dos últimos eventos da banda. Por exemplo, o desastroso show que a banda fez no Brasil em 2012 e o último disco acabaram sendo julgados por alguns veículos de mídia com notas muito mais altas do que o merecido, pois toda a imagem da banda de descolados e famosos acabava pesando na hora da decisão. Mas há exemplos em que uma conduta de vestimenta considerada “bizarra” pode chamar a atenção para a audição de excelente discos, como o vocalista de Deerhunter se vestindo de mulher ou as vestes aborígenes com penas de pássaros dos integrantes de Sigur Rós.

Outro exemplo que acabou gerando polêmica, podendo ser ouvido até hoje comentários preconceituosos, é o Emo. Apenas uma franja mais colada à testa é capaz de produzir um “nossa, que emo essa banda”, ou ainda “e aí, miguxo?”. Embora nesse caso haja uma certa complicação, porque não é apenas um fator exclusivamente imagético que causa o preconceito, a moda que costuma acompanhar as bandas do gênero, representada por tatuagens, óculos, tênis All Stars e franjas (embora isso tenha praticamente parado) acaba se firmando, para muitas pessoas, como um aviso de “nem vale a pena escutar essa banda”.

Querendo ou não, uma banda tem uma imagem, por mais que ela não queira. Los Hermanos, por exemplo, nunca demonstrou interesse em se vestir de determinada maneira quando se apresentava. Mas essa casualidade gerou uma imagem, justamente a de não se preocupar com o visual. Uma despreocupação com a imagem gera uma imagem.

A questão aqui é realmente parar de julgar algo baseado em preconceitos. Não estou tentando ganhar nenhum concurso de Miss Universo com esse discurso de respeito ao próximo e mundo sem julgamentos. O que acho pertinente é jamais deixar de ouvir uma banda por mais que ela pertença a um estilo que você não goste. Se for algo bom, porque não escutar (seja Black Metal, Funk Batidão, Hip-Hop, Samba etc.)?

3,833 total views, no views today

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.