Daft Punk e Chromeo: Gringos na Califórnia do Futuro

Recriando a música Eletrônica à sua maneira, os dois nomes tem sua fama merecida

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Em setembro de 1991, André Forastieri, então na Revista Bizz, disparou uma boa frase, em meio à resenha de Mental Floss For The Globe, álbum lançado pela banda holandesa Urban Dance Squad: “A Califórnia é o futuro da humanidade, se tudo der certo”. Ele estava encantado com a capacidade dos holandeses de emular sonoridades típicas do Golden State em sua música, que havia sido gravada dois anos antes, na fria e improvável Bruxelas, capital da Bélgica. O que importa aqui é a certeza que Forasta estava bem próximo da verdade, a Califórnia talvez fosse uma boa opção de futuro para nós, se não uma realidade palpável, que seja possível de ser alcançada pelo imaginário musical. O Urban Dance Squad conseguiu e, mais recentemente, duas duplas também chegaram lá: Daft Punk e Chromeo.

Os franceses do Daft Punk, Tomas Bengalter e Guy Manuel de Homem Christo , se conheceram no colégio em Paris, cidade natal de ambos. Viram que guardavam muito em comum, com interesses convergentes em várias áreas do que realmente importa, a cultura pop. A mesma cena aconteceu para os canadenses do Chromeo, David Macklovitch e Patrick Gemayel (na verdade, libanês de Beirute, emigrado para Montreal aos cinco anos de idade), que também formaram o duo após se conhecerem no colégio. Entre as duplas, cerca de cinco anos de diferença na idade, com os franceses nascidos em 1974/75. Os quatro integrantes foram, portanto, alvos fáceis de todo o arsenal de músicas, filmes e série televisivas “made in USA”, que sempre tiveram como subtexto a exaltação da Califórnia – e dos Estados Unidos – como o melhor e mais legal lugar para se viver. Para nós – eu nasci em 1970 – essa ideia é absolutamente natural. Em termos musicais, que é nossa área de interesse aqui – o objetivo a ser alcançado por ambas as duplas é uma espécie de fusão atemporal de Disco, Funk e o nascente Rap, com direito a experimentos eletrônicos de primeira mão. Era essa a sonoridade reinante na terra do Tio Sam até meados dos anos 80, com desdobramentos até o início dos anos 90, com adição da cena Hair Metal de Los Angeles, encabeçada por gente como Mötley Crüe. Essa mistura explosiva de sons, todos advindos da interseção de música urbana, consumida por jovens de classe média/baixa em grandes cidades cheias de problemas raciais, gerou essa música capaz de falar a brancos e negros coisas muito semelhantes.

Se analisarmos a discografia de ambos os duos, veremos que Daft Punk não buscava, pelo menos, não intencionalmente, como em seu último disco, Random Acess Memory, algo tão americano em termos de sonoridade. Sua abordagem sonora era mais universal, pertencente a uma espécie de “pista de dança mundial”, é claro, cheia de influência dos ritmos dançances forjados nas engrenagens do Funk e do Disco setentistas, mas, de alguma forma, miscigenados com as realidades de cidades como Londres, Bristol e Paris, cheias de divisões raciais e preconceito. Daft Punk flertaria com essa variante “universal” da pista de dança também em Discovery, seu segundo disco, lançado em 2001, ainda que iniciasse uma jornada discreta rumo à América musical do início dos anos 80.

O arsenal de samples utilizados por Bengalter e Homem Christo já dava conta que a dupla olhava com carinho para a década dourada dos anos 70, cheia de gravações magistrais e experiências de todos os tipos em busca da sonoridade perfeita para a dança sem-que-houvesse-amanhã. A descida rumo ao som americano documental daquela época iniciou-se de forma mais ostensiva a partir do quarto disco da dupla, a trilha sonora da refilmagem de Tron. O terceiro disco, Human After All, de 2005, repetia a abordagem do anterior e indicava, apesar de ser bastante interessante, uma certa estagnação da dupla. Com a trilha sonora do filme, Daft Punk se viu com carta branca para mergulhar na sonoridade Eletrônica (hoje de ares vintage) daquele início de anos 80 (o filme original foi lançado em 1982), que radiografava exatamente a interseção musical em questão. Além disso, era o primeiro momento dos jogos eletrônicos, migrando dos arcades (no Brasil, conhecidos como fliperamas) para os Ataris 2600 do mundo. Acreditem, era uma época legal.

Chromeo já nasceu em busca dessa sonoridade. Com She’s In Control, o primeiro registro em formato de CD datando de 2004, o duo canadense já tentava atingir o pós-Disco, aquela variação de Funk mais Pop, levada adiante por gente como Michael Jackson (no período entre Off The Wall e Thriller) ou Rick James, cheia de teclados e visual espalhafatoso, meio futurista, meio cafona, meio espacial. Com David (Dave 1) nas guitarras e vocais e Patrick (P-Thugg) nos teclados, beat box e demais parafernálias eletrônicas, o duo logo chamou a atenção da imprensa especializada, justamente por seu caráter além-Montreal, e atemporal, buscando a reprodução de todo um período na história recente da música Pop. Com o segundo disco, Fancy Footwork, a fusão de sonoridades encontrou uma forma harmônica de existência, como prova a faixa-título, capaz de conter em seus pouco mais de três minutos, uma lista de tiques musicais em voga nas paradas entre 1981 e 1985. O segundo disco os levou para a Europa, onde abriram turnês para os alternativos [Bloc Party]()http://wordpress-214585-650819.cloudwaysapps.com//artistas/480/bloc-party/, além de uma aproximação interessante com Daryl Hall, um verdadeiro maverick do Blue-Eyed Soul, que os chamou para seu programa Live At Daryl’s House e para acompanhá-lo no Festival Bonnaroo. O último disco de Chromeo, Business Casual, data de 2010 e amplia a visita aos 80’s, dessa vez com a participação de Solange (irmã de Beyoncé), que empresta seus vocais de diva Funk-Pop em When The Night Falls, com a dupla buscando recriar totalmente os beats dançantes de gente como Lionel Richie ou Rockwell.

O mais recente movimento do Daft Punk é de conhecimento da maioria dos habitantes do planeta. Seu Random Acess Memories é uma minuciosa e dedicada recriação de todos os idiomas Pop surgidos nessa Califórnia futurista que fica no passado. Mesmo que haja toques de Nova York no pacote rítmico proposto pela presença de Nile Rodgers, o criador do Chic, responsável por colossos como Le Freak, Everybody Dance ou canções de outrem como We Are Family, de Sisters Sledge e I’m Coming Out, de Diana Ross, todas de importância determinante na evolução da Disco Music em algo maior. Também estão presentes o compositor Paul Williams e o produtor e visionário Giorgio Moroder, ambos, cada um a seu jeito, responsáveis por esta marca sonora tão peculiar. Pharrell Williams, mais um dos aspirantes a emulador mediano das sonoridades oitentistas negras também está presente e cantou o maior sucesso planetário de 2013: Get Lucky, uma engenhosa liga sonora que desperta os sentidos de quem era nascido e já entendia a música na época de Chic e outros transeuntes da mudança da década de 1970/80.

O novíssimo disco do Chromeo, White Women, tem lançamento previsto para o primeiro semestre deste ano. Pelas duas músicas conhecidas até agora, Over My Shoulder e Come Alive, com participação de Chaz Bundick (Toro y Moi, é possível perceber que o duo canadense ampliará a busca por este momento musical, talvez tendo como meta a superação de Random Acess Memory, mas com a leveza e o humor que já caracterizam a dupla. Tanto Daft Punk como Chromeo são habilidosos e interessantes o bastante para empreenderem essa viagem ao passado sem abrir mão da modernidade. Ao seu lado, seguem outros em escalas diferentes, com o próprio Bruno Mars, decidido em seu segundo disco Unorthodox Jukebox a recriar as peripécias da época. Também podemos dizer que há algo em marcha na carreira do próprio Toro y Moi, mas, nada que se compare ao trabalho de ourivesaria instrumental que as duplas empreendem hoje em dia.

A Califórnia, esta entidade misteriosa, sem normas confiáveis de tempo e espaço, segue no futuro para a maioria das pessoas. Talvez alguns percebam que seu grande barato está na capacidade de entender como funcionam essas leis da Física por lá e as subvertem com maestria, trazendo o melhor do futuro para o presente, ou, para outros, o melhor do passado para o futuro ou para o presente. Vá saber.

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ARTISTA: Chromeo, Daft Punk
MARCADORES: Eletrônica

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.