David Byrne e St. Vincent: O Casamento Musical do Ano

Veja o que pode acontecer quando dois grandes e excêntricos nomes da música contemporânea se juntam em um só projeto, o disco “Love This Giant”

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O anúncio de um álbum colaborativo entre um dos grandes gênios da música, David Byrne, e a charmosa St. Vincent surpreendeu muitas pessoas e nos leva a imaginar como Love This Giant pode soar quando for lançado em setembro. À primeira vista, ambos os músicos parecem muito diferentes, seja pela idade e experiência musical ou pela própria sonoridade que ambos buscaram ao longo de suas carreiras. Entretanto, sob um olhar mais atento, suas obras chegam a uma intersecção através de caminhos opostos.

St. Vincent, ou Annie Clarke, é uma multi-instrumentista e cantora que iniciou sua carreira tocando com a banda de Sufjan Stevens em 2006, na turnê do clássico Illinois. Em 2007, lançou seu primeiro CD solo, intitulado Marry Me, o qual mostra uma artista terna e doce, mas ao mesmo tempo excêntrica e psicodélica em alguns momentos. Sua voz bela combina com as construções musicais jocosas ou calmas que sempre tem um toque, um tempero final que caracterizam St. Vincent. Jesus Saves, I Spend e Paris is Burning mostram bem suas construções Folk e são um bom cartão de visita da artista. Foi em 2009, quando lançou Actor, que Clarke alcançou o estrelato e teve sua obra reconhecida diante do grande público. O disco mostrava amadurecimento e a consolidação do seu estilo característico. É difícil não se deliciar em canções como The Strangers e Marrow, que lembram muito o estilo Folk-Psicodélico do próprio Sufjan, que a apresentou ao mundo. O terceiro álbum, Strange Mercy (2011), é o seu maior sucesso até hoje e dá continuidade a um estilo que cada vez mais parece ser único e definido como vindo da St. Vincent. Inocente à primeira vista, devido ao seus traços delicados, a cantora mostra que as aparências definitivamente enganam – e para o bem, nesse caso.

Jesus Saves, I Spend

The Strangers

Talvez o estilo único de Vincent tenha feito o seminal David Byrne se aproximar dela. Ou talvez por este ser um dos precursores da New Wave, divulgador da World Music ou curtir estilos musicais fora do eixo. Ou ainda porque David Byrne é um workahollic, que trabalha com teatro, ópera, grava discos solo e ainda tem tempo pra escrever um livro sobre viagens de bicicleta, como Diários de Bicicleta. Talvez por ser um músico que abraça o mundo e suas paixões e que possui uma cabeça aberta e multidisciplinar. A verdade é que David Byrne sempre se envolveu em projetos diferentes entre si, mas que sempre tiveram o toque também excêntrico do músico – porém, “excentricidade” no sentido de “fora do centro”, do comum, e não pejorativo como sua vó às vezes deve dizer a você, leitor. Ele trabalhou com o mega produtor Brian Eno, Fatboy Slim, Caetano Veloso, Dirty Projectors, N.A.S.A e Thievery Corporation, para citar alguns, e fez parte de uma das maiores bandas de todos os tempos, a Talking Heads. Sucesso nos anos 80, o grupo colocava todos pra dançar com um som que puxava ritmos de diversas partes do mundo e a voz característica de Byrne, criando o que seria considerado o New Wave. Com certeza, você já escutou Psycho-Killer em alguma festa, e se pegou cantando “Fa-fa-fa-fa-fa”. This Must Be The Place e Burning Down The House são outras canções ímpares que servem de ponto de partida para conhecer o grupo um pouco mais a fundo.

Talking Heads – Psycho Killer

Dirty Projectors com David Byrne – Knotty Pine

Como ambos os músicos podem combinar no seu próximo projeto, Love This Giant? Ao escutar a primeira canção do trabalho, Who, vemos Byrne cantando igual ao seus tempos áureos do Talking Heads, conduzido por um saxofone, nos levando a inevitáveis mexidas de cabeça, e pés. É dançante, até que St. Vincent entra docemente, cantando quase que ao pé do seu ouvido. O tom mais agudo e estridente de Byrne se mistura à voz aveludada de St. Vincent e elas combinam perfeitamente, deixando todo o espanto do anúncio da parceira de lado. Ambos podem ser considerados à frente de seu tempo: Byrne desde os anos 80 até hoje e St. Vincent com sua feminilidade exalada através de sua música. O álbum, sinceramente, nos deixa com água na boca de um projeto que deve explorar ritmos dançantes vindos de Byrne e misturados à ternura psicodélica e Folk de Annie Clarke. Deve surgir algo para dançar e escutar nos momentos de tranquilidade, o que desde já soa incrível. O resto é torcer para que a já anunciada turnê conjunta passe por aqui, quem sabe para um show em uma casa menor. É a chance da cantora mostrar que está em pé de criatividade com Byrne, pois em excentricidade ambos combinam como gin e tônica.

David Byrne e St. Vincent – Who

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.