Davis no divã

No EP “Dance Peralta”, terceiro trabalho lançado pelo selo alemão Live at Robert Johnson, produtor paulistano mescla o clássico e o contemporâneo e busca afastar complexidades e angústias da mente

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Fotos: Hitori OG

Está difícil manter-se feliz em uma época tão cheia de incertezas, perdas e arbitrariedade política. Neste momento, transformar a dor em arte pode ser a única opção para manter a sanidade. Foi o caso de Davis (ODD/In Their Feelings) com o EP Dance Peralta, obra construída em uma fase depressiva do DJ e produtor paulistano.

Intervenções oitentistas, como do Electro oriundo da TR 808, além de momentos Acid permeados às vezes por melodias sensíveis ou influências sutis de Breakbeats formam um trabalho que mescla o clássico e o contemporâneo a fim de construir uma sonoridade agradavelmente perdida no tempo. Elementos que remetem às sonoridades da Downtempo também estão presentes repaginados. “Dance Peralta”, “Avesso”, “Tempo de Vida”, “Fissura na Neblina”, “Fugaz” e “Vertical Amnesia” batizam as faixas do projeto, terceiro lançamento do artista pelo renomado selo alemão Live at Robert Johnson, após Perle (2017) e Ordinary Sleep (2019). O novo trabalho também sairá em vinil, distribuído pela Kompakt.

Na conversa com o Monkeybuzz, o produtor contou sobre como é lidar com a depressão e manter um trabalho artístico que depende da sensibilidade. Ele também relembrou as apresentações no clube alemão que batiza o selo, o Robert Johnson, que conta com artistas como Roman Flügel, Massimiliano Pagliara, Portable, Fort Romeau, Skatebård, Lauer e mais uma extensa lista no catálogo musical. Localizado em Offenbach, fronteira com Frankfurt, o espaço – vizinho a um clube de remo – está na ativa desde 1999, em frente à zona portuária da região. O já lendário clube foi criado originalmente a partir de uma parceria com a universidade de artes local.

 

Por que o nome Dance Peralta batiza o lançamento?  É um trocadilho?  A expressão simboliza alguma ideia maior ou situação envolvida no desenvolvimento do trabalho?

O nome veio das minhas anotações. Tenho o hábito de anotar nomes de obras de arte que eu aprecio. Podem surgir de visitas a museus e galerias, de um pixo ou cartazes nas ruas. O nome do disco remete ao sentimento de alegria, uma imagem de uma dança de olhos fechados que parece não ter fim. A expressão simboliza uma pessoa introspectiva, porém inquieta, uma pessoa travessa que se porta e se enfeita de maneira exagerada, que por meio da dança e do visual busca se afastar de suas complexidades.

Você comentou anteriormente que, de certa forma, a elaboração do EP serviu como uma válvula de escape para um momento depressivo. De que forma a criação sonora se tornou um meio de suporte emocional no combate à depressão na sua vida de artista?

Sim, este disco surgiu como uma manifestação, um pedido de socorro no meio de uma depressão que rolou no final do ano passado. Eu não tinha consciência do que estava acontecendo na minha vida, por que andava tão desmotivado e infeliz mesmo fazendo tantas coisas que eu amo. Depois de algumas conversas com amigos e profissionais da saúde, eu entendi quais foram os gatilhos para esse sentimento de depressão e comecei a reagir. Minha prioridade era sair daquela escuridão. Criei uma nova rotina, baseada em atividades físicas, meditação, estudos sobre desenvolvimento humano e, especialmente, comecei a passar mais tempo no estúdio com o propósito de colocar o tema da depressão da minha vida em forma de música.

Com certeza foi um suporte emocional para minha vida. Sou muito grato por encontrar, na minha amizade com o Zopelar, o apoio necessário para este momento. Conversamos muito sobre como eu me sentia e como poderia de forma criativa e autoral transformar um tema tão sensível em música eletrônica de pista.

“A expressão [Dance Peralta] simboliza uma pessoa introspectiva, porém inquieta, uma pessoa travessa que se porta e se enfeita de maneira exagerada, que, por meio da dança e do visual, busca se afastar de suas complexidades”

A música estimula positivamente partes do cérebro, além de ser capaz de ativar sentimentos e sensações agradáveis. Mas, para uma pessoa em depressão, é muito difícil transpor as barreiras limitantes da doença e ter forças para iniciar ou manter uma atividade artística, que envolve sensibilidade. Mesmo que isto a auxilie no processo de cura. Como foi este processo na sua vida? Qual conselho você daria para alguém nesta situação, cada vez mais comum em época de pandemia e isolamento? 

O mais importante foi vencer a barreira do orgulho e aprender a pedir ajuda. O primeiro pedido de ajuda aconteceu há 20 anos, quando fui buscar orientação para tratar minha dependência química. E, desde então, quando estou preso em algum sentimento que não me deixa viver de forma feliz, eu peço ajuda. São pouco mais de 20 anos de sobriedade na minha vida, acompanhados de desenvolvimento humano, e, quando me deparei com esse quadro de depressão, fui buscar ajuda novamente.

Minha sugestão é pedir ajuda. Hoje há alguns tratamentos acessíveis, grupos de mútua ajuda, literatura interessante e muita gente de coração aberto ávida para ajudar e compartilhar suas experiências.

Com quais características de curadoria e proposta musical do selo Live at Robert Johnson você mais se identifica? Em relação ao clube propriamente dito, como foi a experiência de ter se apresentado lá?

Boa pergunta, risos. Difícil de responder, mas olhando para os meus três lançamentos no LARJ vejo que todas as faixas foram muito assertivas e contemporâneas. Consegui criar uma identidade bem marcante com os sons do ARP 2600 e da TB-303 no primeiro disco. Já no segundo disco, eu mantive a mesma proposta, mas com o acréscimo de manter uma faixa com a sonoridade que me remetesse a uma rave nos anos 1990. Foi uma forma de me reconectar com os sons da época, mas como uma leitura do presente.

Todas as vezes que toquei no clube foram marcantes, divertidas e bem recebidas. Umas das noites mais insanas da minha carreira aconteceu no Robert Johnson, quando, em 2017, toquei numa festa chamada Stay all Day and Night, com Job Jobse, Gerd Janson, Awesome Tapes from Africa, Ame … O clube estava lotado, Gerd estava tocando antes de mim e o fervo tava instalado, as paredes do clube suavam, o povo tava muito muito animado, foi louco demais tocar naquele dia.

“O processo é divertido, muitas vezes, o erro é o acerto, sabe? Um ruído estranho, uma distorção inusitada traz todo o charme e espontaneidade para a música. E a soma desses elementos fez as minhas produções terem sua identidade”

De que jeito rolou o desenvolvimento da direção de arte com Michael Satter?

Quando o label manager do selo me falou que Michael assinaria novamente a capa do meu EP, eu fiquei muito feliz e confiante. Tenho muito carinho pelo Michael e uma grande admiração pelo seu trabalho. Nos conhecemos pessoalmente há alguns anos e ele se mostrou interessado pela cultura brasileira. Eles me enviaram duas opções de capas, escolhi uma e, logo em seguida, me enviaram 4 versões diferentes. No final, não só pela minha escolha, mas também pelo melhor resultado do trabalho, foi escolhida essa que vocês veem.

No release é citado o uso de clássicos, como TR-808 e MS-20. Conte um pouco mais sobre o setup do EP e quais as razões para você ter escolhido tais equipamentos na sua produção.

Sempre fui fã e gosto de usar equipamentos vintage bem como não abro mão do uso de uma boa quantidade de tecnologia. Temos um acervo de clássicos no estúdio: Juno 106 e 60, Dave Smith, ARP 2600, Farfisa, Moog Rogue, etc. Bem, como falei anteriormente, consegui criar uma identidade bem marcante com os sons desses clássicos. O processo é divertido, muitas vezes, o erro é o acerto, sabe? Um ruído estranho, uma distorção inusitada traz todo o charme e espontaneidade para a música. E a soma desses elementos fez as minhas produções terem sua identidade.

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ARTISTA: Davis

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