Indie pop alternativo. Com três palavras, Rachel Chinouriri não só definiu o seu som, como evidenciou o lado racista da indústria musical. Cansada de ter seu trabalho classificado como R&B, soul e jazz – gêneros que não chegam nem perto do seu rol de influências –, a britânica se posicionou nas redes sociais sobre o tema em 2022: “artistas negros fazendo indie não é confuso”.
Mas quem não se confunde são os seus fãs. No Brasil, eles fazem contagem regressiva para vê-la no palco do Cine Joia, em São Paulo, no dia 1º de outubro. No repertório, estarão as faixas do disco de estreia, What a Devastating Turn of Events (2024), e do EP lançado neste mês, Little House. “Sinto que não sabia o que esperar quando lancei o álbum, e o meu empresário sempre dizia que não importa o que acontece na primeira semana após o lançamento, mas sim o que acontece depois de um ano”, compartilha.
Desde que What a Devastating Turn of Events saiu, a cantora e compositora de 26 anos conquistou espaço na cena do pop britânico contemporâneo, além de ter entrado no radar da crítica e de seus pares. Em 2025, esteve no Glastonbury, foi indicada em duas categorias do Brit Awards e abriu o braço europeu da turnê Short n’ Sweet, de Sabrina Carpenter. Um de seus maiores feitos, no entanto, foi ter criado uma comunidade a partir da sua música. Íntimo e autobiográfico, What a Devastating Turn of Events mostra algumas feridas do passado da artista, como o luto e problemas de autoimagem, temas que criam uma ponte entre o individual e o coletivo.
Isso abriu margem para que quem a acompanha se sentisse à vontade para compartilhar suas próprias histórias, algo que Rachel vê com bons olhos. Nos shows, ela recebe muitas cartas, e o próprio público troca correspondências entre si. “Ainda tenho cartas de uns dois ou três anos atrás que preciso responder”, divide. “Tenho andado inundada de trabalho e é muito corrido, mas sempre levo várias delas em turnê para responder na estrada. Estou animada para ter pen pals brasileiros”.

“Sinto que não sabia o que esperar quando lancei o álbum, e o meu empresário sempre dizia que não importa o que acontece na primeira semana após o lançamento, mas sim o que acontece depois de um ano”
Os ecos britânicos
Uma visita ao SoundCloud da artista mostra os primeiros passos dela na música. Entre esses registros, está a estreia de Rachel Chinouriri numa rádio. Num sábado à noite de 2016, quando ela tinha 17 anos, Gary Crowley tocou o single “Weight of the World” no programa BBC Music Introducing, focado em novos talentos – e que ajudou a impulsionar carreiras de nomes como Arlo Parks, Wolf Alice e Florence + The Machine. O episódio satisfez um de seus sonhos de infância. “Acho que a rádio é uma parte fundamental da indústria musical. Sinto que mudou nos dias de hoje, mas quando eu era mais jovem, sempre quis que uma música minha tocasse na rádio”, confessa.
Em What a Devastating Turn of Events, essa referência aparece em “Dumb Bitch Juice”, faixa em que Rachel mostra sua caneta afiada ao escrever sobre como é difícil sair de relacionamentos – ou situationships – com padrões tóxicos. No fim da canção, quem aparece é a DJ da BBC Clara Amfo, interpretando a si mesma, como se tivesse acabado de tocar “Dumb Bitch Juice” na rádio. “Clara [Amfo] realmente me ajudou, ela me impulsionou e me apoiou dentro da BBC, assim como muitos outros DJs de lá”, conta. “Ela tem uma voz icônica, também é negra e britânica, então não poderia ser ninguém além dela no álbum”.
Ao escrever sobre relacionamentos com humor e confiança, caso de “Dumb Bitch Juice”, “Never Need Me” e “My Everything”, Rachel se coloca ao lado de outros nomes do pop britânico que trilharam um caminho parecido no começo dos anos 2000, comprovando a importância de uma personalidade marcante logo no disco de estreia. Lily Allen fez isso em Alright, Still (2006), e Kate Nash, em Made of Bricks (2007) – desse período, Chinouriri ainda leva o visual Y2K para a sua estética.
Daughter é outro nome que faz parte do catálogo de referências de Rachel. À Pitchfork, ela classificou If You Leave (2013), álbum de estreia da banda inglesa, como seu “perfect 10”. Quando tinha 14 anos, o disco a ajudou a lidar com problemas de saúde mental, elemento que ela também quis levar para o seu trabalho. O tom calmo que Elena Tonra usa ao cantar a inspira até hoje, bem como a manipulação dos sons feita pelo grupo que, com pausas e silêncios, cria uma jornada em cada canção. If You Leave a leva de volta para os dias da adolescência, marcados pelo Tumblr. “Eu vivia, respirava, comia e dormia Tumblr. Ainda tenho um até hoje, provavelmente postei em algum momento deste ano. Eu era louca pelo Tumblr. Provavelmente não deveria ter uma conta com a idade que tinha, mas eu estava lá. Mal posso esperar para que ela ressurja, porque serei a primeira a voltar a usar”.
Aviso: o conteúdo a seguir contém temas sensíveis, como distúrbios alimentares e suicídio.
As camadas do pop
Cinco Rachels aparecem na capa de What a Devastating Turn of Events. Na janela da casa, uma delas ajeita um cordão com bandeiras da Inglaterra. Num primeiro momento, essa decisão pode parecer estranha, levando em consideração que a bandeira foi tomada como símbolo da extrema direita e de grupos neonazistas. Mas é justamente essa a intenção da artista: reclamar algo que também pertence a ela, mesmo que em outros momentos o objeto tenha sido usado para ferir sua existência enquanto pessoa negra.
A veia política de Rachel vem de família. Imigrantes zimbabuanos, seus pais foram para o Reino Unido antes do seu nascimento. Os dois lutaram e se conheceram na Guerra da Independência do Zimbábue, quando tinham apenas 13 anos. Por ter crescido ouvindo sobre essas experiências e seus efeitos, ela aplica o posicionamento político à sua trajetória como artista.
Em 2024, junto com mais de 80 artistas – entre eles, Kneecap e Lambrini Girls –, não participou do South by Southwest, porque o exército norte-americano, um dos patrocinadores do festival, apoia o genocídio na Faixa de Gaza. E, neste mês, no dia 17 de setembro, se une a nomes como Brian Eno, Damon Albarn e King Krule no Together Palestine, evento com 100% do valor dos ingressos convertidos para a causa palestina. Além da vertente política da música, Rachel entende como o pop pode tratar de temas que cercam a vida das jovens e a importância de falar sobre eles. É o que acontece na canção que dá nome ao disco.
Embora a batida possa enganar, “What a Devastating Turn of Events” é uma das mais tristes do álbum. A música conta a história da prima da cantora, que tirou a própria vida após ter pensado que poderia estar grávida de um homem com quem perdeu a virgindade, mas que não continuou com ela. No contexto de uma família com costumes mais estritos como a de Rachel, enraizados na cultura africana, isso seria interpretado como um escândalo. “Que perda devastadora não escolhemos / Ela está em mim e em você”, canta.
Distúrbios alimentares e autoimagem são outros tópicos do disco, refletindo um movimento que cresce entre cantoras pop. Recentemente, o vídeo de um pai num show de Olivia Rodrigo viralizou na internet. O motivo foi o fato de ele perceber o quanto as meninas ao seu redor, incluindo a sua filha, se identificavam com a letra de “pretty isn’t pretty”, canção que fala sobre se sentir insuficiente em relação à aparência e até cultivar comportamentos nocivos, como deixar de comer. Lorde, por sua vez, assume um tom confessional em “Broken Glass”, música de Virgin (2025), para falar do distúrbio alimentar que desenvolveu durante a pandemia e que a acompanhou nos anos seguintes.
Em What a Devastating Turn of Events, é “I Hate Myself” que mostra como pensamentos autodestrutivos relacionados à aparência podem tornar alguém uma vítima da sua própria cabeça. “É interessante porque ‘I Hate Myself’ não é a música mais popular nas plataformas de streaming, mas é a que os meus fãs mais se conectam e mencionam quando falam comigo, principalmente as garotas”, reflete. “Isso faz com que eu sinta como se tivesse feito uma coisa boa ao expressar esses sentimentos. Agora que eu saí disso, sou grata, mas é uma experiência dolorosa, pela qual muitas garotas superjovens já passaram. Então, espero que a minha música chegue em mais gente”.
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