Deekapz: flertando com a noite

A dupla relembra a rotina pré-pandemia, as loucuras do ano passado e conta mais sobre o novo EP, “Ensaio Sobre Você” (2021)

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Fotos: Bel Lafer

Desde a última conversa que tive com Paulo Vitor e Matheus Henrique, na COVER STORY de novembro de 2019 do Monkeybuzz, tudo mudou. A rotina, as expectativas, os planos, até o nome do duo: de DKVPZ para Deekapz. A dupla do interior paulista, que já foi Trashplayers e Dropkillers antes de optar pela abreviação, considerou a mudança de nome por dois motivos: primeiro, para facilitar a pronúncia e, segundo, para poder expandir o leque de produção musical. “Antes da pandemia, a gente pensava em fazer coisas mais dançantes, para clube mesmo. Internamente, a gente tinha algumas outras propostas, de fazer umas paradas mais calmas. Para escutar em casa, no carro de boa, pensar um pouco, ser uma parada mais reflexiva, sabe?”, conta Matheus, de 24 anos.

“Uma parada que eu sinto diariamente é que carregar esse nome [DKVPZ], que é mais familiarizado fora do Brasil, gera uma falta de entendimento do projeto”, completa Paulo, de 23 anos. “Antes, as pessoas confundiam com Tropkillaz, e com a sigla o pessoal não falava deekapz, o pessoal fala dê-ká-vê-pê-zê. Teve muita gente que começou a falar soletrando a nossa abreviação, então a mudança foi cirúrgica para entregar o projeto o mais mastigado possível”.

Em 2019, o Monkeybuzz se despediu dos artistas desejando uma boa viagem na turnê Europa e Ásia – interrompida em 15 dias pela pandemia de Covid-19. Um dos aconchegos que tivemos foi a quarentena da equipe Deekapz, com produção diária de conteúdo no Instagram, @bydeekapz. Além de sets em lives, apresentaram a série BEATLAB, contando o processo criativo de algumas produções da dupla, e muitas interações no stories.

Depois de um tempo, o suor encantador das discotecagens de Matheus e Paulo virou ritual de solitude, com notas de nostalgia e uma enorme vontade de ouvir o que viria. E veio: Deekapz lançou, em maio de 2021, o EP Ensaio Sobre Você. Em cinco faixas, há o sabor da sonoridade clássica dos artistas, fortemente marcada pela fusão entre Funk, House e Soul, mas há também uma história de amor. O trabalho é dançante, como se espera dos DJs já populares na noite paulistana, mas também abre espaço para alguma dose de introspecção. Enquanto “Confesso” tem um quê de degustar fantasias, “Acabou” é o tipo de faixa que suspende o coração enquanto o beat derrete. Para quem ouve Deekapz, é uma ótima oportunidade de sentir os rumos do projeto; para quem não conhece, é uma bela apresentação. Conversamos com os artistas para saber como foi o atropelo de 2020 e as possibilidades que se abrem no agora.

A gente não se fala desde 2019, queria conversar sobre esse ano doido que foi 2020. Vocês lembram de quando começaram as notícias sobre a pandemia? Vocês estavam em turnê, né?

Matheus: Começaram a surgir as notícias quando a gente estava se preparando para sair em turnê, aqui no Brasil. A gente tava com pé atrás, mas a gente pensou que até chegar lá haveria uma solução. A gente foi e as coisas só foram piorando. Foi estranho porque a gente estava em Londres, começou o lockdown e, nas ruas, éramos os únicos de máscara. Foi esquisito conviver desse jeito, fora que a gente estava preocupado em saber como iria voltar. Foi um sentimento muito bizarro; a gente estava no início da tour, que acabou não dando certo.

Vocês tiveram problemas para voltar para o Brasil?

Paulo: Não foi nem um problema, a gente teve uma novela. Estamos acostumados com novelas durante as tours. Em 2019, a gente ficou na dependência de uma passagem, chegamos a ficar 10 dias esperando, nem tinha mais dinheiro para ficar em Lisboa. Dessa vez, a novela foi diferente. A gente optou por pagar uma agência de viagens, então teve a certeza da passagem de volta após um mês rodando Europa e Ásia; chegamos dia 3 de março em Londres para começar a tour, ficamos duas semanas. Porque no dia 10 começaram as notícias, a OMS já estava passando a mensagem de que a Sars-CoV-2 foi confirmada como pandemia. Começa a novela. Os contratantes começaram a dar o papo que não ia ter mais grana, começou a cancelar toda a programação. Como todo mundo estava entendendo essa situação pandêmica, todos os brasileiros ao redor do mundo ficaram preocupadíssimos e começaram a tentar voltar ao Brasil também. Eu não julgo, a gente também estava assim, mas isso tornou muito difícil encontrar um voo. A gente dependeu muito de uma pessoa da agência de viagens, que foi a principal peça pra gente voltar dia 20 de março. Senão, a gente estaria passando fome em Londres.

No Brasil, vocês ficaram isolados juntos durante um tempo e eu lembro que foi um momento em que vocês produziram muito conteúdo, especialmente no Instagram. Como era essa rotina?

Matheus: Quando chegamos no Brasil, a gente tinha em mente que ia ficar todo mundo junto por duas semanas. Estava todo mundo meio de saco cheio de ficar olhando para cara do outro, foi bem engraçado. Foi um dos últimos momentos que eu passei com outras pessoas sem ser minha família. E foi daora porque a gente teve uma explosão de criatividade: como a gente tava trabalhando junto, a gente estava sempre refrescando as ideias uns dos outros.

“A melhor resposta sobre o EP é que se trata de um ensaio, várias peças sobre as fases de um relacionamento afrocentrado. A ideia é que cada faixa caracterize um momento deste relacionamento”

No fim, a gente teve um ano sem balada e sem previsão de volta. Como tem sido?

Paulo: Realmente é uma situação complicada. As pessoas de fora do circuito da música tem uma falsa impressão de que nós, artistas, recebemos o dinheiro das receitas, de direitos autorais, e que este é nosso principal dinheiro pra sobreviver; sendo o que move um artista no Brasil, a grana que faz acontecer as coisas vem dos shows. Ponto. Saca? A gente se sente um pouco abalado porque a gente estava pegando um ritmo muito bom. Em 2019, a gente fez muito, muito show com o pessoal da 999, Baco Exu dos Blues. Em 2020, a gente estava pegando esse pique, achando que seria um ano muito próspero. E o que aconteceu foi justamente o contrário.

Eu brinco com o Matheus que, quando a gente estava pegando esse ritmo louco em 2019, muitas vezes, no hotel olhava para a cara dele e falava: não aguento mais, eu quero uma pausa, um tempo para ficar com a minha família, no meu bairro. O que aconteceu foi justamente isso — e não aguento mais ficar em casa. Hoje eu me vejo falando com o Matheus exatamente o contrário: oh, saudade de fazer viagem, ter poucas horas de sono, fazer passagem de som, tocar.

E na entrevista de 2019 eu perguntei para o Matheus qual era o maior desafio de discotecar e ele tinha respondido que era o sono — e eu achei que era piada.

Paulo: É normal! Pessoal também acha que a rotina do artista contempla o glamour, rola essa romantização. Acha que a gente vai ter tempo de ir turistar, mas a grande realidade é: chega no aeroporto, vai direto para o hotel, faz check-in, organiza os equipamentos, vai para a passagem de som, aí tem umas quatro ou cinco horas de sono antes de ir para o evento. É outro tipo de projeção, sabe? Eu amo, estou com saudades. (risos)

E vocês estão cantando no EP! Já rolava essa intenção em alguns sets, né?

Matheus: Foi tudo um experimento. Estou tentando lembrar quando a gente teve a ideia de começar a cantar nas músicas.

Paulo: Eu acho que foi no final de 2018 e começo de 2019, eu lembro que foi quando você estava experimentando fazer uns loops de voz. Foi nesse tempo, o Matheus pegou emprestado uns microfones para poder trabalhar e foi quando a gente começou a ter essa oportunidade de desenvolver nossas vozes. Até para absorver o conhecimento porque a gente não sabia lidar com as vozes. Começamos a testar, mostramos para alguns parceiros e tivemos um feedback bem positivo, aí começou a surgir esse entusiasmo de lançar.

“A gente tinha em mente que ia ficar todo mundo junto por duas semanas. Estava todo mundo meio de saco cheio de ficar olhando para cara do outro e foi um dos últimos momentos que eu passei com outras pessoas sem ser minha família. E foi daora porque a gente teve uma explosão de criatividade”

Uma das belezas de Ensaio Sobre Você é que deu uma nostalgia de um set de vocês, mas também tem um tom diferente. Me conta mais sobre a busca pela sonoridade do EP.

Matheus: Algumas faixas a gente tinha na tour de 2019, que são as músicas que a gente cantava ao vivo. Algumas outras foram surgindo desde essa época até atualmente; meio que a gente estava com uns sons guardados e sentimos que estava passando da hora de lançar. Ligar as músicas, fazer elas somarem sentido entre si e lançar. Essa foi a ideia inicial. O que a gente queria passar através do EP são questões sobre insegurança em relacionamentos.

Paulo: Cheguei no consenso com o Matheus que esse é o trampo mais difícil de fazer a música. Fazer um som é tranquilo para a gente, o mais desafiador é quando a gente começa a se embasar nesta música para traçar um conceito e organizar isso. Como a gente tinha esse material, três faixas a gente já performava há dois anos, foi difícil chegar em uma linha de raciocínio. A melhor resposta sobre Ensaio Para Você é que se trata de um ensaio, várias peças sobre as fases de um relacionamento afrocentrado. A ideia é que cada faixa caracterize um momento deste relacionamento. Tem músicas sobre insegurança, codependência, e marca uma fase nossa: é a primeira vez que a gente lança uma coisa com esse perfil de experimento, com as nossas vozes nas gravações master e está sendo bem interessante ver a percepção da galera. Esta busca de sonoridade vem da nossa influência direta — já parou para pensar que a sonoridade que a gente toca é muito similar com o que a gente entrega no EP? Especialmente sobre groove; House e Funk são elementos que estão nos sets e transparecem nas nossas músicas. A sabedoria para viver em um mundo sem shows é ter essa criatividade de amarrar conceitos e lançar disco. Fé no Bandcamp nosso de cada dia.

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ARTISTA: Deekapz, DKVPZ