Dentro da Escola de Rock

Filme estrelado por Jack Black já é um clássico obrigatório do cinema americano recente e ainda mais essencial para os fãs de boa música

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Escola de Rock é campeão de reprises aqui em casa. Mais que a trilogia Poderoso Chefão, mais que a trilogia Guerra nas Estrelas (as duas) e outros filmes menos cotados mas que a gente gosta, como Dodgeball ou Superbad. Não adianta, a experiência do guitarrista farofento, vivido por Jack Black, que acaba lecionando para crianças de dez anos, é irresistível. Engana-se, no entanto, quem pensa que este filme contém apenas cenas engraçadinhas e tirações de sarro careteiras por parte de Black. Escola de Rock tem uma grande carga didática e faz críticas severas ao estabilishment, de uma forma sutil, mas sem abrir mão das informações precisas.

Aqui vai um pequeno resumo para quem não viu, algo que se justifica apenas por alguma doença grave ou a ausência no planeta desde o ano de lançamento do filme, 2004. Dewey Finn é um guitarrista fanfarrão, que toca numa banda chamada No Vacancy. Para ele, rock é exagero, mensagem, atitude, transformação, endeusamento pelo público. Para seus companheiros de banda, nada disso é muito mais importante que conseguir um bom contrato com uma gravadora. Não demora muito para que Dewey seja mandado embora do No Vacancy, às vésperas de um concurso local, o Battle Of Bands, que dará um prêmio de 20 mil dólares. A grana viria a calhar pois Dewey, sem qualquer dinheiro, deve sua parte no aluguel do apartamento que divide com Ned e sua namorada, Patty. O casal desaprova totalmente a atitude do malandro, mas Ned tem um grande carinho pelo amigo, com quem já teve uma banda no passado, a Maggot Death (sacanagem com o Megadeth). Mesmo assim, Dewey se vê na obrigação de vender suas guitarras para quitar a dívida, até que recebe um telefonema, destinado a Ned, chamando-o para dar aula numa “prep school” da região, a Horace Green. Claro, sem muitas opções, Dewey se passa por Ned e aceita o emprego.

Este é o ponto de partida para o filme. Dewey quer uma banda para participar do Battle Of Bands, não mais pelo dinheiro, mas por sentir-se ultrajado pela cobrança de sua dívida. Mesmo que procure resolver a situação apropriando-se do emprego de seu amigo, seu maior desejo é expressar sua insatisfação com a situação, culpando tudo e todos, através de uma rock song que fale por ele. Para Dewey, o Rock é o meio de expressão mais eficaz, capaz de enfrentar injustiças e mover o mundo. Com este espírito ele adentra a escola e dá de cara com a missão de ensinar várias disciplinas para uma turma de alunos acostumados com o sistema padrão das escolas preparatórias (equivalentes ao nosso ensino fundamental), movido por notas, estrelas e deméritos. O estranhamento é mútuo e da mesma intensidade. O que parece uma tarefa extremamente tediosa para Dewey se transformará na oportunidade de ouro para formar sua nova banda de Rock, após ver as habilidades de alguns alunos na aula de música.

Ele recruta o guitarrista solo Zack Mooneyham (Joey Gaydos Jr), o tecladista Lawrence (Robert Tsai), o baterista Freddy Jones (Kevin Clark) e a baixista Katie (a lindinha Rebecca Brown). Além deles, Dewey encontra duas backing vocals, Marta (Caitlin Hale) e Alicia (Aleisha Allen) e distribui várias funções para os alunos restantes, fazendo-os acreditar que estão disputando um torneio entre escolas, cujo projeto é chamado de “Banda de Rock”. Eles terão que formar uma banda, que será comandada por Dewey, claro, para o projeto. Mesmo com o talento dos meninos para os instrumentos, Dewey percebe que eles não têm qualquer conhecimento de Rock, no máximo conhecem artistas como Puff Daddy ou Christina Aguilera. Daí em diante, Dewey passará a agir como um professor de fato, literalmente ensinando aos alunos o que é Rock. Aí é que o bicho realmente pega no filme e está a razão deste texto existir.

As informações que o personagem de Jack Black passa para os alunos são todas calcadas em ideais e visões de mundo pré-neoliberais, valorizando sempre um comportamento de dedicação e cheio de noções de valores. Por mais que ele esteja, na verdade, enganando os alunos ao mentir sobre a razão da banda, Dewey acredita na bondade e pensa que seus motivos são nobres, além de notar que o Rock poderá trazer benefícios reais às crianças, naquele esquema tradicional de fornecer argumentos contra pais ranzinzas, valentões e a própria diretora, Rosalyn Mullins, aqui interpretada pela sempre brilhante Joan Cusack. A relação de Dewey com os alunos vai se intensificando, ele descobre uma nova vocalista, Tomika (Maryam Hassan), que tem vergonha de cantar porque é gorda e nota atitude suficiente na representante de turma Summer Hathaway, vivida pela estrela mirim Miranda Cosgrove (Drake & Josh, I-Carly), para assumir o posto de manager da banda.

Dá gosto de ver o professor passando discos como deveres de casa. Para a vocalista Marta, ele dá uma cópia de Parallel Lines, do Blondie; para Lawrence entender os teclados, recebe Fragile, do Yes; para o guitarrista Zack, Axis: Bold As Love, de Hendrix e Tomika, recém-apresentada como vocalista, recebe Dark Side Of The Moon, do Pink Floyd e a recomendação de ouvir o grande solo vocal na faixa The Great Gig In The Sky. Além disso, as crianças começarão a aprender as informações que Dewey transmite e as colocarão em prática. Destaque especial para a aula sobre “o homem”, termo usado por Dewey para algo que poderia ser entendido como “o sistema capitalista neoliberal”, algo que engessa a sociedade, previne as mudanças, absorve os movimentos naturais da sociedade, fazendo-nos acreditar que não há outra saída a não ser a vida como ela existe hoje, sem mudança que não passe necessariamente pela ordem econômica. Claro, a mensagem do filme é totalmente genérica e bem intencionada, sem qualquer acento político, o que, caso houvesse, estragaria totalmente o roteiro.

Escola de Rock surgiu da experiência do roteirista Mike White (que interpreta o verdadeiro Ned, amigo de Dewey) quando era vizinho de Jack Black. Muitas das imitações que Black empreende ao longo do filme, eram feitas nos corredores do prédio onde os dois moravam. O diretor Richard Linklater (de Antes do Por do Sol e Antes do Amanhecer) consegue entender completamente a idéia do roteiro, de levar os ensinamentos do Rock, totalmente ridicularizados pelos tempos pós-modernos em que vivemos, a crianças de dez anos, mostrando que eles ainda têm eficácia e relevância suficientes para transformar vidas e moldar mentes.

Com o detalhe luxuoso de ter todos os alunos músicos vividos por jovens que realmente tocavam seus instrumentos, além de uma trilha sonora sob medida, cheia de canções da era dourada setentista do Rock, indo de Immigrant Song, do Led Zeppelin (que só cedeu a canção mediante um apelo de Jack Black diante de mil figurantes e que está presente nos extras do DVD), AC/DC com Back In Black e It’s A Long Way To The Top, Deep Purple com Smoke On The Water, entre muitas outras, Escola de Rock é videoteca básica do cinema americano recente. Educadores sérios consideram a exibição do filme em salas de aula, justamente pelo valor contido na mensagem do filme.

O final? Feliz, claro, mas adequado e inventivo. Um jovem e respeitável clássico.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.