Dependentes e Alucinações por Crystal Castles

Primeira obra do duo mostrou ao mundo um lado mais paranóico e desconcertante da lisergia

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Sabe aquele disco lançado há algum tempo que você carrega sempre com você em iPod, playlist e coração, mas ninguém mais parece falar sobre ele? A equipe Monkeybuzz coleciona álbuns assim e decidiu tirar cada um deles de seu baú pessoal e trazê-los à luz do dia. Toda semana, damos uma dica de obra que pode não ser nova, mas nunca ficará velha.

Crystal Castles – Crystal Castles (I) (2008)

A lisergia é uma companheira de longa data da música. Tendo como sua década mais significativa os anos 60 e 70, tratar dos delírios da mente auxiliados por psicotrópicos sempre pareceu encantar artistas de todo o mundo. Quando o tema vem à tona, acabamos lembrando de nomes como Os Mutantes, Pink Floyd, Jimmy Hendrix e, em uma perspectiva mais atual, Tame Impala, Animal Collective e MGMT. A questão é que, por mais que tenhamos diversos métodos de investigação lisérgica na discografia dessas bandas, ela acaba caindo sempre para uma espécie de “good trip” das drogas, ou seja, a parte “relaxante” do delírio. Por mais que seja válido (e interessantíssimo) recriar os efeitos dos psicotrópicos impressos em música, vemos que há pouquíssimos casos em que os artistas mostram os lados pesados e depressivos da droga. Um desses é o primeiro discos de Crystal Castles.

Explicado pelo DJ e produtor da banda Ethan Kath, o nome surgiu de uma referência ao desenho She-ra dos anos 80, em que foi dito que “o castelo de cristal é a fonte do poder ilimitado”. Diferente do nome, o que ouvimos no disco é algo diametralmente oposto a toda a estética colorida e excessiva desta respectiva década. Alternando entre barulhos, melodias e gritos, o som se mostra como uma experiência interessante de ser degustada. Um primeiro contato com a obra pode assustar bastante o ouvinte não preparado (sendo até mesmo recomendado ouvir primeiro os dois discos seguinte, II e III).

A estranheza pode advir de certos elementos presente da obra do duo. O primeiro são os timbres escolhidos por Ethan tanto para ilustrar as melodias, como servir de pano fundo. Por mais que eles tragam a mesma sensação da dita “good trip”, somos submetidos a todo o instante a uma tensão que não nos deixa relaxar por completo. Timbres de vozes de almas penadas misturados a sintetizadores dos anos 80 em Magic Spells e Crimewave exemplificam bem essa ambientação, além de um filtro de distorção que parece estar ligado toda a hora nos teclados de Ethan, principalmente evidenciado em Knights e Through The Hosiery*.

Outro elemento que contribui para nosso desconcerto é a voz de Alice Glass. Embora quase sempre carregada de efeitos (reverbs, distorção, autotunes), a facilidade com a qual ela consegue fundir seu timbre com as mais diversas mirabolizações de Ethan é incrível. Em faixas como Alice Practice (que tem esse nome por ser originalmente uma sessão de improviso de Alice Glass nos sintetizadores e samplers), ouvimos gritos com letras quase inaudíveis e que nos causam sensações de náusea e desorientação, porém sempre mantendo uma batida constante que nos orienta por meio do delírio sonoro. Já em Tell Me What To Swallow, a linha de voz é suave e bem melódica, porém não menos tensa. Dá para comparar à imagem de Samara (do filme O Chamado), é uma garotinha meiga, porém ela vai te matar. Aliás essa brincadeira de misturar Fofo x Do Capeta se mostra presente também na sonoridade de Black Panther (reproduzindo harmonias dos anos 80 numa velocidade e ambientação mais macabra e lisérgica).

Por último, vale a pena comentar as referências externas que o disco traz para si. Em Untrust Us, encontramos influências da música Dead Womb, originalmente composta por Death From Above 1979, que vão desde os versos “La cocaina no es buena para la su salud” (palavras que foram cantadas por um coro de crianças em Londres) até as guitarras violentas que surgem abruptamente no fim da música. Em Vanished, o delírio fica guiado pelas vozes de um sample da música Sex City de Van She. Até mesmo literatura está presente no disco, tendo os primeiros versos de Air War retirados da famosa obra de James Joyce, Ulisses. É quase como que a aura negativa do álbum (no sentido de depressão e não qualidade) não se sustentasse, agregando cada vez mais hospedeiros para infectar com sua droga.

Vale a pena repetir que o disco é uma experiência interessante de ser degustada. Principalmente porque ela se configura como a própria metáfora da droga: por mais que nos cause sensações estranhas, nos sentimos atraídos por elas (podendo gerar ao vício do disco). Saiba que o Monkeybuzz não faz apologia a drogas, portanto, não usem drogas, mas usem Crystal Castles.

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MARCADORES: Fora de Época

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.