Depois da Onda do Lo-Fi

Estilos diferentes se juntavam sob a mesma bandeira do Lo-Fi para fazer suas criações e, desde 2009, evoluíram muito

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Fotos: Best Coast foi um dos maiores expoentes da onda Lo-Fi que varreu a Internet em 2009

2009 foi um ano e tanto para a música independente, ainda mais para aquelas que se apoiavam em tendências Pop, mas circulavam somente no meio Indie. A Chillwave, o revival do Surf Pop e o que foi apelidado como Nugaze colheram naquele ano ótimos frutos de uma semente plantada pouquíssimo tempo antes. Mesmo surgindo de gêneros completamente diferentes, as raízes e os meios de produção encontram diversos pontos em comum, o que de certa forma englobava toda uma nova safra de artistas sob três pontos: distribuição em massa pela Internet, produção caseira com uma sonoridade Lo-Fi e um olhar fetichista para a música feita no passado. Mais um ponto em comum entre esses três gêneros, mas só percebido após algum tempo, foi a mudança de sonoridade em seus trabalhos posteriores (principalmente a perda da levada Lo-Fi), que possivelmente impulsionado pela crescente oferta desse tipo de som e certa saturação mercadológica.

A espontaneidade com que surgiram foi proporcional à efemeridade alcançada nestes primeiros trabalhos, que, mesmo tendo definido seus respectivos gêneros, duraram relativamente pouco tempo em um cenário repleto de novas opções a quase todo momento. Se as cenas demoravam a se estabelecer a cerca de 30 ou 40 anos atrás, hoje em dia eles podem surgir em questão de meses e o ponto negativo dessa agilidade é que da mesma maneira que surgem rapidamente, podem desaparecer da mesma forma. E isso foi visto amplamente naquele ano em que despontava obras de Toro y Moi, Neon Indian e Washed Out no campo da Chillwave, Beach Fossils, Wild Nothing e Craft Speels no movimento que revitalizou o Shoegaze e ainda The Drums, Real Estate e o fenômeno Best Coast levando a bandeira do “novo” Surf Pop. Todos estes iniciantes da época tinham essa tríade em comum e logo assumiram o papel de “inovadores”, ou melhor, tendências daquele ano.

Em muitos dos casos, os primeiros trabalhos desses artistas emergiram no ano seguinte ao que dominaram a blogosfera e perpetuaram seu buzz por mais algum tempo. O caso mais extremo de popularidade dentre esse grupo de artistas foi sem dúvida alguma Best Coast. Com seu som praiano, leve, cheio de guitarras suingadas e letras que expunham a vida amorosa de Bethany Cosentino acompanhados por uma produção que colocava reverberação e toques Lo-Fi em quase tudo, a banda alcançou grande sucesso em pouquíssimo tempo, o que o fez atingir um público enorme e ser convidado para grandes festivais em questão de poucos meses. Esse êxito alcançado pela melancolia Pop de Crazy For You foi um dos grandes impulsionadores dessa cena, bem como de toda essa nova geração que foi de seus quartos diretamente paras as grandes casa de show ao redor mundo.

Experimentando um sucesso um pouco mais modesto, The Drums, Toro Y Moi e Real Estate também conseguiram seu lugar ao sol já em seus primeiros discos – The Drums, Causers Of This e Real Estate, respectivamente, alcançaram boas marcas nas vendas e visualizações, porém nada perto do que foi a estrondosa estreia de Bethany Cosentino e companhia. Os demais também tinham trabalhos sólidos, porém não passaram do limiar Indie e continuaram dentre de seus próprios círculos, os dominando e sendo considerados seus progenitores, mas ainda assim limitados a eles.

Em 2011, a poeira havia baixado e o sucesso destes nomes também. Passada essa primeira onda, já havia muitos adoradores de cada um dos estilos e bandas, assim como uma boa base de fãs de cada um deles, mas seria somente em seus futuros lançamentos que veríamos o real potencial de cada um desses artistas. O principal motivo para isso foi um “problema” que eles mesmos criaram: com um mercado completamente saturado de obras com contornos Lo-Fi, não havia mais o apelo com público para esse tipo de produto. O que gerou uma mudança em massa de sonoridade, feita por todos que faziam parte daquele grupo inicial.

E essa limpeza sonora gerou dois produtos bem distintos: bandas que faziam sucesso por que “eram” Lo-Fi e bandas que faziam sucesso por que se utilizavam da mesma estética. Pode parecer que não há diferença entre os dois, mas há sim, e grandes diferenças. Artistas que geralmente optam por esse tipo de sonoridade podem querer esconder suas falhas através dos efeitos e da “má qualidade” de gravação, enquanto outros conseguem mostrar seu talento apesar de tantos efeitos e da tal “má qualidade” interferindo na sonoridade final de suas obras. Como resultado direto dessa limpeza, as obras desses artistas amadureceram sonoramente e, no geral, cada uma delas os levou pra caminhos diferentes – alguns muito bons e outros nem tanto.

Enquanto alguns discos expuseram as fraquezas de algumas bandas, caso de The Only Place do Best Coast e Portamento do The Drums, outros mostraram muitas qualidades que haviam passado “desapercebidas” em suas primeiras obras. Felizmente isso aconteceu com maior frequência e podemos ver esses resultados em Underneath the Pine e Anything In Return de Toro Y Moi, o ótimo Nocturne de Jack Tatum e seu Wild Nothing, a incrível continuação de Real Estate em Days e a recente volta do Beach Fossils com Clash The Truth, que sofrem o mesmo processo de limpeza e enriquecimento sonoro. Em cada um desses discos, as bandas parecem ganhar em personalidade e conseguem extrair mais de seu som quando deixam de lado a produção Lo-Fi. Não crucificando o estilo, mas a produção sem ele foi um passo e tanto para muita das bandas que ficaram conhecidas exatamente por utilizar tanto deste recurso.

Quatro anos depois de sua gênese, podemos observar que bandas que surgiram despretensiosamente em seus quartos hoje trilham bons caminhos dentro da música alternativa e o quanto amadureceram nesse pequeno período. Mesmo não formando uma cena propriamente dita, a tríade de elementos que os unia continua quase inalterada (trocando somente uma de suas pontas) e o que criaram na época se perpetua até hoje tomando outras formas e influenciando outras pessoas a seguirem os mesmos rumos pioneiros que tomaram há algum tempo.

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Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts