Dez Bandas Obscuras Dos Anos 90

Veja e ouça dez bandas que ficaram nesta década e representam bem o espírito da época

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Essa pequena lista de dez formações que atingiram as paradas – ou algum nível de sucesso – nos anos 90, pretende ser democrática. Todas essas bandas tangenciaram ou emplacaram hits mas o destino quis que elas entrassem para a história como conjuntos menores, menos favorecidos, menos importantes, o que, claro, é uma opinião pessoal. Há fãs desses grupos até hoje, capazes de defender e argumentar razões e motivos para o que aconteceu com eles. Se você não conhece a maioria, não se espante, mas aproveite a chance para ouvir – e ver – o que a última década antes do advento do mp3 e sua consequente revolução tecnológica e industrial nos trouxe. Sempre no lado mais nublado da estrada do sucesso.

Marcy Playground

John Wozniak é um cara atormentado, que estudou num colégio em Minneapolis, chamado Marcy Open School. Lá ele era alvo de bullying por parte de valentões – aqueles de sempre – da escola, no fim dos anos 70. Vários anos depois, em 1996, Wozniak montou sua banda de Rock e batizou em homenagem à escola, afirmando ter vivido dias definidores de caráter no pátio da velha Marcy. Seu maior sucesso foi o semi-hit Sex And Candy, uma cançoneta pós-Grunge aflitinha, mas com apelo Pop Inegável. Ela está no disco epônimo da banda, lançado em 1997.

New Radicals

New Radicals foi um projeto do produtor Gregg Alexander, sujeito nascido próximo a Detroit, influenciado por Rock e Soul dos anos 70. Quando ele decidiu lançar seu disco Maybe You’ve Been Brainwashed Too, em 1998, parecia que o New Radicals chegava para resgatar as paradas do pós-grunge. Disco luminoso, calcado num Pop setentista de ótima qualidade, Maybe You’ve... rendeu dois belos hits: Someday You’ll Know e a sensacional You Get What You Give. Pena que este foi o único trabalho do New Radicals, tendo Alexander voltado para a cabine de gravação para pilotar estúdios para gente como Ronan Keating e Santana tempos depois. Pena.

Ocean Colour Scene

OCS fez parte de um “britpop dentro do britpop”. Mesmo começando a fazer certo sucesso na esteira de bandas como Stone Roses, no início da década de 1990, o grupo só aconteceu quando resolveu mudar sua sonoridade. Saíram as tinturas Acid Rock e, em seu lugar, entrou em campo um revisionismo mod, com apreço por formações esquecidas como Traffic ou Humble Pie. Liderado pelo guitarrista Steve Cradock, o OCS encantou Paul Weller (que chamou Cradock para sua banda de apoio) e Noel Gallagher, que ouviu o segundo disco dos rapazes, Moseley Schoals no escritório da gravadora e ofereceu o posto de banda de abertura da turnê de 1995 do Oasis. Com a Eurocopa de 1996 na Inglaterra, a canção tornou-se um hit nos estádios de futebol, mesmo com a caída do English Team na segunda fase.

Maskavo Roots

Originários de Brasília, os integrantes do Maskavo Roots já faziam shows nos bares e biroscas underground da capital federal quando sua fita demo chegou aos ouvidos de Carlos Eduardo Miranda. Na época, o jornalista gaúcho era parceiro dos Titãs no comando do selo Banguela Records, da Warner. A ênfase do Banguela era dar voz e chance às novas bandas e o Maskavo entrou na onda. Com destaque para o instrumental Reggae permanentemente assaltado por guitarras Rock, o primeiro disco do Maskavo é um pequeno clássico dos anos 90, sendo lançado em 1995. A produção foi do próprio Miranda e de Nando Reis. Tempestade e Escotilha foram os maiores hits.

Fastball

Originário de Austin, no Texas, Fastball chamou-se Magneto USA antes de adotar seu nome definitivo. Sob o comando do guitarrista Miles Zuniga, a banda lançou seu primeiro disco em 1996, Make Your Mama Proud, sem muito alarde. Não poderiam imaginar que cravariam um dos maiores hits do fim da década em 1998, quando saiu seu segundo trabalho, All The Pain The Money Can Buy. The Way parecia feita em laboratório para dar certo, com oscilações de ritmo, detalhes instrumentais e verve pop de sobra. O sucesso da canção levou o disco a atingir o status de Disco de Platina em seis meses e, mesmo que tenham lançado mais três discos até 2009, jamais foram capazes de repetir esse golaço pop.

Mulheres Q Dizem Sim

Se você é fã das produções de Kassim ou dos próprios Los Hermanos, saiba que os Mulheres Q Dizem Sim têm grande parcela genética pelo surgimento desta cena independente carioca do fim dos anos 90. Formado por Palito, Domenico Lancelotti, Pedro Sá e Maurício Pacheco, o Mulheres fez e aconteceu no início dos anos 90. Lançaram um belo disco em 1994, fizeram show no Teatrão da Uerj (onde pude vê-los ao vivo) divulgando o trabalho e cravaram canções legais como Cinema Francês, SoS e Eu Sou Melhor Que Você, de co-autoria de Moreno Veloso.

Blind Melon

Em meio ao estouro do Grunge no início da década, o Blind Melon surgiu sem aviso nem compromisso com a sonoridade dominante. Com o vocalista Shannon Hoon no comando, a banda era muito mais influenciada pelo Rock sulista dos anos 70. Seu grande sucesso veio em 1993, com “No Rain”, que atingiu o terceiro lugar das paradas de sucesso em curtíssimo espaço de tempo. O disco epônimo de estreia da banda também foi impulsionado pelo êxito da canção e do adorável clipe, tocado em altíssima rotação na MTV. Shannon, amigo e conterrâneo de Axl Rose, havia participado dos discos Use Your Illusion 1 e 2, lançados pelo Guns’n’Roses em 1991, especialmente de November Rain e Don’t Cry. Mesmo com o sucesso da banda, Hoon seria encontrado morto em 1995, vítima de overdose de cocaína. Deixou uma filha de três meses, Nico.

Virguloides

Virguloides fizeram grande sucesso em 1997. Numa década em que a música brasileira precisava associar Rock com alguma coisa, faltava a associação mais óbvia, que não havia surgido até então: Rock com samba. O trio paulistano Henrique Lima, Beto Demoraux e Paulinho Jiraya saiu de Cidade Dutra, na zona sul paulistana, para as telas da MTV. Sua banda, com nome fundido de Herculoides (antigo desenho animado dos anos 60/70) e Virgulino Ferreira, foi lançada por Carlos Eduardo Miranda e o disco de estreia produziu um hit inegável: Bagulho No Bumba. Ganharam o prêmio de revelação no VMA de 1997 e gravaram mais dois discos, tendo regressado em 2012, durante a Virada Cultural em São Paulo.

Rotnitxe

No meio da década de 1990, com sucesso de bandas como Rappa e Cidade Negra, surgiu o Rotnitxe. Só gravaram um controvertido disco e tiraram seu nome da palavra “extintor”, grafada de trás pra frente. Em suas fileiras estavam Mongol (amigo de Oswaldo Montenegro) e Tom Capone, que viria a ser um dos produtores mais requisitados do Rock Nacional naquela década. Produzindo o disco, Sergio Vasconcellos, um dos fundadores da Rádio Fluminense FM, no início dos anos 80. O resultado? Brigas, desentendimentos e uma substituição na produção, saindo Vasconcellos e entrando Mazolla. O disco não foi bem, era uma mistura confusa de samba com pop e rap, chegando a haver momentos constrangedores como Rap Do Martinho. Rap da Polícia, a música linkada aqui, é memória afetiva, e inegavelmente pop, apesar de ter letra confusa e de caráter duvidoso. É mais uma grande curiosidade do que os meandros da música pop são capazes de produzir.

Barenaked Ladies

Tudo bem que o Canadá é sinônimo de Rush, Neil Young ou Broken Social Scene, dependendo do gosto do freguês. A grande banda canadense dos anos 90, no entanto, passou batida pelo Brasil, poucos sabem ou sabiam de sua existência na época. O BNL surgiu no fim dos anos 80 em Ontario e lançou seu disco de estreia, Gordon, em 1992. Dele saiu seu grande, portentoso sucesso, “Brian Wilson”, uma homenagem tão sincera ao líder dos Beach Boys, na época ainda meio recluso e em recuperação, que a Brian Wilson Band, no disco Live At Roxy Theater, cantarola a canção com o próprio Brian arranhando os vocais. Os primeiros quatro discos dos BNL são cheios de pérolas pop, por isso, catem uma coletânea deles ou os próprios álbuns: Gordon, Maybe You Should Drive (1994), Born On A Pirate Ship (1996) e Stunt (1998). Ainda cravaram a brejeira Shoebox na trilha sonora do seriado Friends, em 1994.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.