DJ Shadow e O Rádio Na Madrugada

Conheça mais dessa obra que popularizou a cultura de samples tão difundida hoje e que continua encantando por sua coesão e mistura de influências

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Josh Davis tinha 24 anos em 1996. Nasceu em San Jose, California e cresceu nas imediações, numa vizinhança suburbana eminentemente branquela. Deste jeito, em meados dos anos 80, esse pessoal adjacente só poderia gostar de Hard Rock, no sentido Van Halen/Aerosmith/Motley Crue do termo. Josh não achava esse som algo lá muito interessante. Preferia ficar de olho (e ouvido) nas novíssimas formações de Rap/Hip-Hop, no sentido Public Enemy do termo. Quando ouço Endtroducing, o disco de estreia de Josh Davis, que é conhecido mundialmente pela alcunha de DJ Shadow, fico imaginando como esse sujeito foi capaz de apreender uma série de influências musicais e estéticas a ponto de lançar um trabalho tão legal.

Acredito que Shadow seja o exemplo do “sujeito certo na hora certa”. Gosto de ficar imaginando o cara no meio de seus amigos da rua, do bairro, da escola, todos aprendendo a tocar guitarra, baixo ou bateria, se apaixonando pelo Guns’n’Roses quando este surgia, lá no fim dos anos 80. E vejo Shadow, ouvindo discos em casa, economizando suados tostões de mesada e gramados aparados no verão (americanos adoram fazer isso na estação mais quente do ano). Vejo Shadow como um potencial integrante do elenco de filmes como Adventureland, trabalhando num parque de diversões furreca da cidade, em troca de mais uma graninha pra comprar equipamento, pick-ups e discos, muitos discos. A capa de Endtroducing estampa esse espírito da loja de discos. Entendo esse estabelecimento do passado (sim, porque, eram várias e em cada esquina) como pontos de difusão da amizade, camaradagem e conhecimento sobre música. Shadow certamente peregrinou por moquifos de todos os tamanhos em busca de raridades do Rap/Hip-Hop mas, claro, não manteve seu ouvido fechado para a música em geral.

Outro fator integrante da estrutura para obtenção de informações sobre música numa sociedade pré-internet era o grandioso e insubstituível rádio. Uma audição mais atenta em Endtroducing irá revelar um espírito de programa de rádio, daqueles que são transmitidos na madrugada, com locutor que entende profundamente do assunto, provavelmente um DJ, que tem relativa fama local. Imagino Shadow com o rádio embaixo do travesseiro, esperando a hora do hipotético programa, com vinhetas e efeitos sonoros para anunciar que o show começou. E lá vem o locutor, cheio de novidades em vinis de 12 polegadas, versões maiores de canções que já são legais, solucionando em parte o que eu chamo de “mistério do fade out”. Cabe uma digressão pra explicá-lo: fade out é o efeito que algumas gravações têm que vai diminuindo o volume da música, até acabar. Muitas canções, claro, foram gravadas com o fade out encerrando, mas, nos anos 70 e 80, as trilhas sonoras de novelas da Globo usavam o fade out para encurtar determinadas músicas. Você comprava o disco e ouvia a canção até a marca de três minutos. E entrava o maldito efeito, diminuindo o volume até o silêncio e os eventuais estalos do vinil preencherem o ar. Guardo especial tristeza com três músicas: Cuba, do grupo disco Gibson Brothers; Sun Is Here, com a formação de Funk/Soul Sun e My Life, do piano man americano Billy Joel. Estas três canções, das quais gosto até hoje, integravam trilhas sonoras de novelas globais e se apresentavam amputadas.

Voltando para o subúrbio californiano de Shadow. Imagino que não havia semelhante picaretagem por lá, mas suponho que programas de rádio normais não teriam tempo suficiente para tocar canções muito maiores que quatro minutos, o que sentenciava a audiência de Disco, Funk, Rap, Hip-Hop e demais estilos calcados na dança, a se concentrar em programas especializados no assunto. Sendo assim, é fácil imaginar um adolescente Shadow pirando com os malabarismos nos scratchs, as mixagens perfeitas, o encontro dos bpm’s corretos para encaixar uma música na outra. Quanta fita cassete, quanto gravador, quantos “soundsystems” em festas de bairro foram suficientes para o sujeito perceber que seu destino era ali, atrás de uma mesa de som, turbinando pistas?

O que faz de Endtroducing uma peça para se guardar em meio ao turbilhão de produtos de péssima qualidade é que, justamente, ele não se parece com um produto. É um resultado, uma soma de experiências, de aprendizado, de ourivesaria dançante, mas daquelas que não servem para induzir a dança de pés e mãos, mas da mente, sem que seja absolutamente necessário o uso de algum aditivo químico. A cultura das festinhas, das idas e vindas, das boates, das galeras, da juventude, tudo epitomizado em forma de música, decalcada em formato daqueles mitológicos e hipotéticos programas de rádio especiais para dj’s.

Shadow começou sua carreira justamente como disc jockey numa rádio universitária, a KDVS, da Universidade da California. Era uma época em que alguns ousavam brincar com os samples, amostras de canções, trechos, harmonias, devidamente pinçadas em verdadeiros palheiros musicais, para ganhar novo significado em novas composições. O Public Enemy acabava de lançar It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back (1987), que vinha nessa onda de colagens sonoras. Os Beastie Boys soltariam seu Paul’s Boutique naquele ano, ampliando o conceito. Foi operando as carrapetas da rádio que Shadow conseguiu chamar a atenção de executivos e equipes de som locais, culminando com o single Entropy, cujos 17 minutos serviram como salvo-conduto para Shadow entrar em contato com o selo inglês Mo’Wax. Alguns singles depois, Shadow estaria em seu apartamento bolando Endtroducing. A idéia era fazer mais um disco totalmente composto de colagens sonoras, com o esmero artesanal e obsessivo de trazer algo novo. Ele conseguiu. Fontes de sons extrapolaram o universo Hip-Hop/Rap e chegaram aos santos terrenos do Jazz, do Funk, do Heavy Metal, chegando até a usar trechos de entrevistas e falas de filmes. O resultado, bem, é acachapante.

Eu não sei dançar. Sério, não tenho o menor talento pra isso. Mesmo assim, uma das minhas mais queridas audições em mp3 player, indo de lá pra cá, é, justamente, Endtroducing, na ordem certa, com a abertura de trocentas vinhetas sampleadas, passando para o clima hipnótico de Building Steam With A Grain Of Salt, que traz bateria, piano em elipse, voz de uma entrevista em meio a corais femininos e baixo sinuoso. O disco todo segue nesse padrão, trazendo tudo de todo lugar, concedendo sentido e ordem a um caos sonoro que é harmonioso e cheio de referências. O grande “touché” que o ouvinte mais velhusco grita em Endtroducing vem singelo e subterrâneo, oculto pela opulência do todo. A décima faixa, Why Hip-Hop Sucks In 96?, é um questionamento direto e reto de alguém que contemplou a época em que o estilo canto-falado era um porta-voz de várias pessoas com muito a dizer e pouca chance de fazê-lo. Artistas criativos o bastante, fundaram o estilo, trouxeram-no para todas as cidades grandes do país, grudaram sua dança e maneirismo no ideário da juventude negra e branca. Em 1996, quase 1997, Shadow, ele mesmo um branco cooptado pelo Hip-Hop, perguntava: por que o Hip-Hop é uma m**da em 1996? Ele mesmo respondia. Pelo dinheiro. O grande motivo do fim da relevância de muita coisa no mundo, o grande vilão capitalista selvagem que o neoliberalismo imperante pós-Muro de Berlim trouxe para o cotidiano das pessoas.

Belo, com mensagem, com apuro, com relevância. Ouça Endtroducing agora. Outro dia eu volto para falar do resto da carreira do brilhante Josh Davis, a.k.a DJ Shadow.

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ARTISTA: DJ Shadow
MARCADORES: CEL

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.