DJs na EDM: Carreira fora de “Sync”

Gênero mudou a forma do profissional se comportar e expor seu trabalho

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Vivemos a melhor fase da música Eletrônica. Não questiono qualidade na minha frase, mas em termos de distribuição, reconhecimento, oportunidades, quantidade, hibridização de estilos, temos o melhor momento da história. Usei essas palavras propositalmente. Vivemos também a era da velocidade. A internet proporcionou esse tanto de coisa boa, mas também deixou pra trás um legado que faz muita falta: o tempo. Antigamente tínhamos tempo entre um lançamento e outro, os artistas se preparavam mais para soltar um single e, consequentemente, havia maior estudo de referência e influência. Havia mais tempo pra degustar e entender o trabalho e, finalmente, poder consumi-lo sem se distrair. Hoje em dia, a indústria entrou num ciclo de irritação diária viciosa que, infelizmente, o artista que não participar entra no esquecimento.

No mercado, quem trabalha com música e quer sobressair de alguma forma já sabe desde cedo que tem que produzir conteúdo autoral. A carreira de DJ, hoje em dia, não é tão valorizada apesar de ser fundamental, insubstituível e jamais inferior a de produtor. Enquanto o trabalho de DJ é de busca, mistura e sentir a pista, a do produtor é muito mais um talento nato com instrumentos, criação e construção. Enquanto o primeiro trabalha muito mais com a prática, muitas vezes o segundo consiste em estar em um notebook trancado no quarto.

O problema é que, por conta de toda mecanização do processo, a carreira de DJ vem mudando de caminho. Quando um produtor de eventos contrata um profissional para tocar em um club ou festival automaticamente ele está entrando em uma jornada musical. Ele praticamente comprou um “ticket” para entrar em todo conhecimento que o DJ carrega consigo durante anos de experiência. O que é dever do DJ e, principalmente do público de exigir, é explorar o antigo com o novo, fazer as misturas que surpreendam seus semelhantes, mostrar técnica para os conhecedores e fazer mexer os amadores.

Entramos em uma fase exibicionista em que o mais importante é ver a atração, e não ouvi-la. Multidões se arrastam, viajam, pagam caro, para ver DJs tocarem. Isso mesmo, ver. E não ouvir. Alguns dos maiores nomes da DJ Mag já foram descobertos tocando set pronto e, pior que isso, as pessoas parecem não se importar nem com o fato de estarem escutando um pouco mais do mesmo. Qualquer um que se dispor a ir ou até assistir os festivais consagrados de música eletrônica pelo globo vão sair com umas dez ou quinze faixas na cabeça. A impressão é que ouvimos sempre as mesmas músicas, que o estilo não muda e que não há surpresa. E quando a proporção é menor, os profissionais não deveriam ser reféns do público que procura sair de casa para continuar ouvindo o que começou a ouvir no rádio do carro. DJs não são pagos para tocar hits e o público não deveria se contentar com isso. Pelo contrário, qualquer plateia que se preze deveria aproveitar a oportunidade de estar diante de um profissional da música para abrir os ouvidos e conhecer o que nunca ouviu antes.

A cultura de rádio e o EDM, por si só, estraga a criatividade que semeia o DJ de verdade. E o medo de perder alguns ouvintes pode fazer perder a força de um profissional com identidade musical. Lembrando que somente esses que sobem, somente os que tem originalidade e que deram a cara à tapa que conseguiram subir nos maiores palcos do mundo. Ser DJ é conseguir emplacar um som fora do circuito em um contexto que faça com que ninguém perceba isso. E acima de tudo, ser DJ é ser uma autoridade, é entender que foi pago por um serviço que é feito através de conhecimento musical. Então exerça-o sem que o medo controle seus atos.

A preguiça de uma parcela considerável está contribuindo consideravelmente para manchar toda uma categoria que lutou por anos para ter seu prestígio. Se o fato de cavar e buscar num acervo músicas que movimentem a pista ao gosto do profissional, boa parte ainda tem coragem de concentrar tudo o que acontece no seu set no Sync. A tecnologia veio a nosso favor, temos hoje softwares que contribuem muito para produção, pluggins, controladoras, boards, dentre outros, que fazem, às vezes, do nosso quarto um estúdio. Mas isso não faz com que dê direito a trair o próprio público. Pra quem não sabe, o Sync é a possibilidade de “travar” o BPM de ambas as músicas de tal forma que torna impossível a mixagem sair errada, mesmo porque o próprio software que se encarrega de botar as batidas em sincronia. Agora, isso vai exatamente de encontro no que eu falei ali em cima. A “Síndrome do Espetáculo” que envolve a Cultura do EDM está prejudicando bastante quem gosta, de fato, de música. Aquela coisa de ir atrás de um artista pra ouvi-lo, para pregar o olho em suas mãos, entender sua técnica e, principalmente, se surpreender ao vivo com canais extras de áudio (ou CDJs) tá praticamente extinto.

Por mais que pareça revolução de sofá, é verdade: quem manda na indústria é quem consome. Se houver público exigente, só haverá artistas competentes. Com menos tempo, o desafio é ainda mais estimulante. Num cenário em que brota três DJs a cada pedra que se é erguida é necessário que haja maior seletividade em quem sobe na cabine da festa da esquina até quem se financia comprando música ou pagando ingresso de um festival. A “Síndrome do Espetáculo” fez crescer exponencialmente o número de pessoas que querem subir num palco e ser estrelas sem dom. Nessa mesma velocidade que vejo a proporção que a arte de tocar vai morrer, vai mecanizar e vai banalizar. Como qualquer carreira, ser DJ demanda estudo, ambição, identidade, esforço. Mas, como bem foi citado, – o imediatismo – a falta do tempo ilude os fracos, machuca os ouvidos e mata a arte.

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MARCADORES: Discussão, EDM

Autor:

Publicitário que não sabe o que consome mais: música, jornalismo ou Burger King