Do baralho de Tagua Tagua, a carta da Morte

“Inteiro Metade” é o primeiro disco do músico sob nova alcunha; com inspirações que vão de Neil Young a Kali Uchis e pensando nos paradoxos do amor, ele falou sobre como o fim de um ciclo representa o início de outro

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Fotos: Thiago Picolli

Falei com Felipe Puperi uma semana antes do lançamento de seu disco de estreia com o vulgo Tagua Tagua. O produtor musical e cantor gaúcho comemorou 35 anos em 2020 e lembra dos seus 20 e poucos com um carinho meio desapegado – nem nostálgico, nem áspero. Afinal, durante esses doces anos, ele aprendeu doces anos uma lição fundamental: as coisas levam tempo. Na nossa agradável conversa por vídeo, falamos sobre Inteiro Metade (2020), poliamor, a felicidade de ser eclético e ouvir música boa de todos os lados, a onda ultraconservadora na política mundial e tarô — curiosamente, o denominador comum entre os assuntos é justamente a força implacável do tempo.

Contemplado pelo Edital Natura Musical, o álbum é uma balada que se dança sozinho. O baixo acentuado de João Augusto deixa o mergulho ensimesmado de Felipe envolvente; as letras, em sua abstração, refletem os sentimentos do artista de uma forma relacionável; e a atenção aos detalhes da produção musical tornam o álbum uma experiência lúdica. O rigor técnico de Felipe, que é quem produz tudo que sai pelo Tagua Tagua, não veio por acaso: é consequência de uma formação musical prática nos anos de Wannabe Jalva, banda de Groove Metal gaúcha da qual o músico foi vocalista por quase 10 anos. Mas, sonoramente, Tagua Tagua é outra história. Inteiro Metade (2020) transita entre música experimental, Indie e Soul, mas não é exatamente nada disso — o que tem tudo a ver com a visão antropofágica que Felipe tem sobre referências sonoras. É hora de mergulhar no imenso lago Tagua Tagua.

Foto: Guillermo Calvin

A produção do Inteiro Metade (2020) rolou durante o isolamento social?

Não, estava pronto desde o ano passado, acabei ele entre novembro e dezembro. Tive que    esperar todo esse tempo porque estava esperando a verba da Natura e tinha que lançar no ano de 2020 — mas eu sabia que queria lançar cedo em 2020 para aproveitar o ano, olha que ironia. Mas teve um lado positivo até, que eu lancei as músicas bem mais espaçadas, achei legal porque as pessoas foram conhecendo aos poucos o disco e, quando ele sair agora no final dessa semana, acho que já tem uma familiaridade com o disco.

É curioso porque fala sobre solidão, em muitos sentidos. Eu pensei que fosse um álbum do isolamento social.

Quando eu lancei a segunda música, muita gente perguntava isso também. Tem uma frase de “Mesmo lugar” que diz “parece até que sabe onde chegar, andam dizendo que o agora é tão diferente e a vida vai passando pela frente”. Eu lancei em abril, então estava todo mundo exatamente com essa sensação de que o agora é totalmente diferente, a vida vai passando, que é um pouco o que eu senti esse ano: que loucura estar tão privado assim! E de uma forma tão coletiva, né? O mundo inteiro estar privado.

Mesmo em uma tragédia, você tem que seguir a vida, continuar trabalhando, lavar roupa, estender roupa…

A vida não para, né? Ela não dá espaço para isso: as contas seguem vencendo, as pessoas seguem com seus problemas. A música fez sentido em algum lugar e até porque eu acho que as letras têm alguma sintonia com esse momento histórico, porque falam de uma ressignificação. O disco é sobre isso — claro, é muito mais no sentido de um relacionamento amoroso entre duas pessoas, mas, se você tentar colocar isso como perspectiva, a gente está tendo uma ressignificação. Isso é repensar nossos hábitos, rever nossos espaços, ver como a gente vive com a gente mesmo, com a nossa solidão, quando a gente não pode desaguar para outros lados. É uma ressignificação de certa forma, por isso o disco acaba batendo e fazendo tanto sentido.

Felipe, me conta sobre o projeto Tagua Tagua. É seu disco de estreia com esse vulgo, então…do começo, o que significa “Tagua Tagua”?

Cara, é na real uma região no interior do Chile. Eu fui para lá em 2016, no início do ano, e tem uma região que chama São Vicente de Tagua Tagua, onde tem esse lago chamado Tagua Tagua. Eu fui para lá e foi onde eu estava quando tive todos esses insights, que era o momento de eu dar esse passo novo na vida. Faz quase 5 anos e foi muito marcante porque lá eu estava nesse momento de deixar para trás o Wannabe Jalva, que é um projeto que eu tinha há muitos anos com outras pessoas, e vir para São Paulo, começar algo diferente, uma coisa nova, só minha, em que pudesse jogar todas as minhas ideias. Como eu estava lá e foi um período bem introspectivo, quis trazer esse lugar comigo nesse projeto, aí virou Tagua Tagua. Até porque quando eu descobri que estava nesse lugar, o nome me chamou atenção e eu perguntei o que significava; o cara disse que era uma palavra indígena e desse lago, Tagua Tagua, era de onde tinha vindo um dos primeiros povos da América do Sul e isso me tocou muito.

Qual foi a diferença da sua orientação como produtor musical dos dois primeiros EPs do Tagua Tagua para fazer Inteiro Metade?

Acho que o Inteiro Metade foi um pouco mais parecido com o segundo EP que eu lancei. O primeiro teve um processo bem diferente: contei com outros três ou quatro músicos tocando o tempo todo comigo, então eu fazia bem o papel de produtor mesmo, sabe? Estava pegando as melhores ideias, propostas que ofereciam. Nos outros, foi um processo bem mais solitário. Inteiro Metade eu fiz sozinho na garagem da minha casa. A diferença é que eu chamei o JoJo [João Augusto Inácio da Silva], que gravou baixo em algumas faixas, o Leo [Leo Mattos], que foi quem gravou as baterias, e a galera dos instrumentos de sopro, mas eu já tinha as músicas bem desenvolvidas.

“Talvez o grande segredo seja esse: colocar todas as referências no liquidificador e fazer uma outra coisa — quando aparece muito o que você anda ouvindo, parece que não foi para um lado muito certo”

O disco é bem mais Soul do que experimental, apesar de haver essa intenção experimental também. Como foi seu contato com o Soul?

Ouvia bastante por tabela por conta dos meus pais. Eles tinham uns discos de vinil, meu contato mesmo foi antes com Brasil, Tim Maia e o Soul mais Brasil. Com 20 e poucos anos, escutei Marvin Gaye, Shuggie Otis, Al Green, que eu curto muito. Depois, cacei esses que fizeram sucesso mais tarde, como Charles Bradley e Sharon Jones. Mas é uma doideira, eu escuto muita coisa diferente, adoro Soul, gosto mesmo, mas tu vê que meu som não é “Soul Soul”, é uma mistura com um monte de outras coisas. Penso bastante nisso: não é muito minha ideia recriar, mas tentar achar o meu caminho.

Quando surgiu a intenção do disco, o que você estava ouvindo?

No início de 2019, comecei a compor, tava ouvindo muito Leisure, banda da Nova Zelândia que gosto muito e é bem Pop. Ah, tava ouvindo muito Michael Kiwanuka, que traz muito o Soul com ele, só que totalmente revisitado. Escuto muita coisa Indie, acho que vem bastante desse lugar de bandas inventivas criando novas sonoridades, tentando — se é que isso é possível — ter alguma originalidade. Acho interessante. Gosto dessa invenção com essa coisa mais raiz. Eu sou de Porto Alegre, lá se escuta muito Rock sessentista, é difícil fugir disso como adolescente que gosta de música em POA — Pink Floyd, The Who, Rolling Stones, Supergrass, Wilco.

Eu me considero bem melódico: gosto muito de melodias e do que me pega pela melodia, sabe? Acho que isso se reflete automaticamente na minha música, eu faço poucas coisas com melodias tortas, não exploro tanto esse caminho — e até acho incrível artistas que conseguem fazer isso. O que eu ouvia basicamente era isso…e muito D’Angelo, Voodoo (2000) era meu disco de cabeceira na época, Daniel Ceaser, a Kali Uchis foi uma das grandes inspirações para fazer esse disco, apesar de não aparecer por lá o som. Talvez o grande segredo seja esse: colocar todas as referências no liquidificador e fazer uma outra coisa — quando aparece muito o que você anda ouvindo, parece que não foi para um lado muito certo, né?

“A música é extremamente relevante nesse momento. Ela consegue ser um lugar que acessa todo mundo. Acho que tem várias maneiras de demonstrar isso musicalmente, não acho que só com letras super sociais, botando dedo na ferida que se faz isso, às vezes a sensibilidade e a sutileza também chegam, sabe? Conseguir ter um traço de sensibilidade quando o mundo está te mostrando que é um ogro.” (Foto: Guillermo Calvin)

Me fala uma música que você gostaria de ter feito.

“On The Beach”, do Neil Young.

Alguém já tirou um jogo de tarô para você?

Claro, a minha mãe é taróloga.

Sério? Eu estava ouvindo seu disco e ele me trouxe uma sensação muito forte da carta da morte, sabe?

É muito por aí mesmo, você teve a sensação correta, porque o disco é sobre o fim de um ciclo e começo de outro. Ele significa isso. A carta da morte normalmente vem para isso, mostrar que uma coisa possivelmente está finalizando. É renovação, basicamente. O disco é esse novo olhar sobre o mundo. Fala bastante sobre a ressignificação e acho que ela vem na forma de conseguir enxergar sob uma nova perspectiva. Vamos supor que você ficou muito tempo em um relacionamento com uma pessoa. Conseguir enxergar essa pessoa na sua vida de outra maneira é um desafio e tanto e, para isso, você precisa estar bem aberto a sentir, viver, sofrer, respeitar todos os sentimentos que estão ali em volta.

Eu acredito muito nesse amor para sempre, que é tão romântico, mas colocado de uma nova forma. Não acho que o amor é esse que nos vendem desde que a gente é pequeno, acho que o amor é uma coisa construída e essa construção necessita muitas vezes dessas ressignificações — pode ter sido um amor romântico e, de repente, as pessoas vão se amar para sempre, estar ali até o fim dos dias, mas elas vão ter que saber passar em algum momento por esse período de readaptação, de enxergar uma nova caixa para aquela pessoa dentro da sua vida. Isso é dolorido, não é fácil. Voltando à sua pergunta da carta, acho que é isso: entender que um ciclo está acabando para começar outro, que pode ser tão lindo quanto.

É muito louco porque não tem como pensar amor sem que seja uma coisa fresca. Para mim não ressoa tanto a ideia que o amor envelheça como vinho…

A gente está em um momento do mundo, da vida, em que a gente também está tentando se libertar de muitos estigmas, acho que a questão dos relacionamentos é um deles. A gente tem tentado entender como é que se relaciona. Como se fica com uma pessoa por bastante tempo? Isso faz sentido? Como se mantém isso? A gente está vendo ruir muita coisa, do patriarcado, o que é muito significativo e representa muito esses valores impostos, inclusive da igreja católica. A nossa geração quer ressignificar tudo isso. Qual é a forma de se relacionar que realmente pode funcionar, sabe? Ou que é saudável? Eu penso muito nisso e me coloco muito nesse lugar quando penso na ressignificação. Talvez seja essa uma das formas: entender que as coisas têm seu tempo para ser esse fresco que você está mencionando, sabe?

Ao mesmo tempo em que a gente é essa geração que quer muito questionar, nesse âmbito romântico a gente tem uma dificuldade tremenda de falar, então falta muito ainda…

É um processo, imagina que a gente está em um processo que vem de uma geração que não questionava, outra geração questionava, mas falava muito pouco. A gente é uma geração que fala bem mais, apesar de ainda ter todas as nossas travas. Possivelmente, nas próximas duas gerações as pessoas vão estar falando abertamente sobre isso ou já vão ter esclarecido coisas que a gente ainda está batalhando para entender. Ou isso nunca vai ser assim, posso estar viajando e pode ser um dilema da humanidade esse.

Qual? Encontrar uma forma de se relacionar?

Descobrir qual é a forma de se relacionar que realmente te satisfaça, te deixe feliz. E conseguir amar sem posse, sem sentimentos que são tão inerentes. Umas ideias muito erradas, no meu ponto de vista. O sentimento não tem uma posse, não tem a ver com controle, sabe? E ele tem seu lugar. Se você gosta de alguém, ama essa pessoa e ela te ama de volta, não importa se ela ama mais duas ou três pessoas também, tu tem o teu lugar dentro dela — e esse lugar é só teu.

Muito louco pensar o amor hoje. Me parece muito paradoxal falar de poliamor, encontrar isso na nossa vida e, quando a gente olhar para o país…

Sim, parece que a gente está totalmente contra a onda que está vindo.

Falar de poliamor em alguns lugares é literalmente papo de maluco.

Doido isso. Mas eu sou bem otimista em relação a isso, essa onda super ultraconservadora. Eu acho que isso é o último respiro fracassado de uma coisa que não tem mais como segurar, uma onda de progresso que o mundo grita. Vem uns conservadores tentar segurar um trem que já está andando — não tem mais como parar pautas igualitárias, sabe? Isso é ridículo até, mas eu acho que a gente tem que passar por isso historicamente para dar um passo maior ainda. Eu acredito muito no equilíbrio das coisas. Acho que a gente vai passar por isso, sabe?

Qual é o papel da música no meio desse equilíbrio?

Cara, é doido. A música tem uma força muito grande, ela consegue romper e dialogar dos dois lados. Por mais que alguém não goste que o artista seja de esquerda ou sei lá, essa pessoa gosta da música também, ela é afetada pela música, ela também está sendo afetada por aquele canal. A música é extremamente relevante nesse momento. Ela consegue ser um lugar que acessa todo mundo. Acho que tem várias maneiras de demonstrar isso musicalmente, não acho que só com letras super sociais, botando dedo na ferida que se faz isso, às vezes a sensibilidade e a sutileza também chegam, sabe? Conseguir ter um traço de sensibilidade quando o mundo está te mostrando que é um ogro, só tem coisas absurdas acontecendo, pessoas demonstrando muito pouca empatia, aí tu vem com uma super sensibilidade e consegue chegar nas pessoas através disso, entende? Como eu vou acessar uma pessoa aparentemente insensível?

Até porque forma também é conteúdo.

Sim, a arte é isso. Não é uma coisa literal, é sentimento, que vem muitas vezes em forma de metáfora — essas metáforas estão aí para despertar coisas nas pessoas que podem ser variadas e essa é a beleza de tudo. Não falar exatamente o que tu quer ouvir, mas fazer tu sentir de uma forma que talvez nem eu senti. Mas, é claro, tem artistas que tem o perfil de botar o dedo na ferida e eu acho fundamental que tenham essas pessoas também.

Qual é o próximo passo do Tagua Tagua?

Ano que vem espero rodar muito com o disco por aí, porque esse era o plano de 2020. A pandemia me deu tempo de programar coisas, então estou lançando esse disco na Europa também, com um selo de Barcelona, chama Costa Futura. Então o plano é tocar lá também, conseguir gerar o máximo que eu puder com esse disco. Tenho muita vontade de levar para todos os cantos do Brasil principalmente, mas também furar as barreiras da língua. Acreditando muito nisso que a gente falou da força que tem a música como um todo, das melodias. Agora a gente lançou recentemente duas músicas nos Estados Unidos e está tocando em umas rádios de lá, fiquei super surpreso e feliz. O que eu ouvi já da galera de lá é que a música é impressionante porque ela consegue comunicar em uma língua que para eles não faz sentido nenhum — tu sente a música.

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