Don L: “Caro Vapor é uma tatuagem da minha alma”

Em seu mais recente álbum, o rapper carrega sua essência e, ao mesmo tempo, expande os horizontes

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Fotos: Bel Gandolfo

Quando a mixtape Caro Vapor – Vida e Veneno de Don L (2013) foi lançada, Gabriel Linhares da Rocha estava dentro de um avião que deixava Fortaleza, cidade em que o rapper brasiliense cresceu, e tinha como destino São Paulo. Era seu primeiro trabalho fora do Costa a Costa e, olhando as nuvens de cima, Don dobrou a aposta. “Tem sido um voo foda, a todo vapor”, cantaria quase uma década mais tarde, na turnê de Roteiro para Aïnouz Vol. 2 (2021). Aclamado pela crítica, o disco angariou prêmios, que vão de artista do ano a melhor show, e rendeu uma turnê de anos rodando o Brasil. Os números se multiplicaram em streamings, plays e ouvintes em casas lotadas gritando “nesse dia nós prendemos a polícia” – um feito que não parecia muito cobiçado no rap nacional, mas que compartilhava o frescor de uma novíssima geração de artistas brasileiros, de Gê Vianna a Mateus Fazeno Rock, que parece mais interessada na construção de contos de subversão do que naquilo que Don chamou de “fetiche da distopia” na sua recente entrevista para o Spotify.

Desde 2023, Don começou a retomar Caro Vapor no seu repertório ao vivo, cantando “Chips” e “Depois das Três”, esta última que, junto com “contigo pro que for”, fazia a vez dos românticos no show. “Quando eu estava no fim da turnê de RPA2, as músicas que eu mais estava curtindo eram as de Caro Vapor”, conta Don. “Então, eram essas músicas que estavam falando mais comigo, traduzindo melhor o meu momento. Eu tava sentindo muito isso. Era o momento de eu fazer o Caro Vapor II. Eu nem quis revisitar o disco porque eu não queria refazer, entendeu? Eu já tava com a essência, que é tudo que eu queria. Caro Vapor é uma tatuagem da minha alma, tá ligado?”.

Era domingo quando começou uma discreta aglomeração entre a Rua Maria José e a Rua Fortaleza, no Bixiga, um bairro tradicionalmente imigrante de São Paulo. O endereço é conhecido pelos que acompanham a escola de samba Vai-Vai ou a Sintonia, festa de KL Jay que, por vezes, promove eventos ali. DJ Roger estava tocando em um palco pequeno, encostado no lado esquerdo da Rua Maria José. Até as 17h, tinha menos de 100 pessoas dispersas no largo formado pelo encontro das ruas. Casas, bares e prédios baixos compunham a vista. Lys Ventura e KL Jay assumiram as pick-ups e, quando escureceu, já era difícil atravessar de uma rua para a outra. Don subiu aopalco e falou ao microfone. Era praticamente impossível entender qualquer coisa, mas o rapper também não fez cera. O evento era a audição do segundo volume de Caro Vapor, dessa vez com o subtítulo Qual a forma de pagamento?. A música cubana “Tabu”, de Percy Faith, logo na introdução da primeira faixa, “CARO”, instaurou um silêncio inédito na rua. Era o gostinho de algo familiar, íntimo e nostálgico sendo entregue de bandeja para o público, sedento por mais um filme de suspense, dramas e paixões como no primeiro volume, lançado 12 anos antes. À meia-noite, o disco estava no ar.

“Eu escrevi todas as letras desse disco em um mês”, conta Don L. “Eu tinha três músicas, ‘para Kendrick e Kanye’, ‘pimpei seu Estilo’ e ‘tristeza Não’, que foram as primeiras que saíram e estava produzindo uns beats com o Iuri Rio Branco, outros com o Nave. Eu sabia mais ou menos o assunto de cada música, mas eu não queria parar para escrever enquanto eu não tivesse todos os beats. E aí, quando parei, escrevi tudo”.

O tempo dedicado aos beats não foi por acaso. Nesse disco, Don tomou uma decisão contraintuitiva na produção musical do rap: em vez de dar um tratamento aos samples a fim de encaixar uma batida de boom bap, Don quis seguir, como ele mesmo define, “sem batidas gringas”. É um disco em que Don rima em cima de um baião, um amapiano, uma bossa, um xaxado, um funk. Nada é muito ao pé da letra, e aqui a sonoridade brasileira é manuseada mais na lógica da interpolação, que parece ser a metáfora da nossa geração, muito mais do que o remix ou o próprio sample.

“Escrevi todas as letras desse disco em um mês. Sabia mais ou menos o assunto de cada música, mas eu não queria parar para escrever enquanto eu não tivesse todos os beats. E aí, quando parei, escrevi tudo”

A escolha dos samples também é significativa. “para Kendrick e Kanye” estabelece um diálogo com “Para Lennon e McCartney”, de Milton Nascimento. Já “Tristeza Não”, com participação de Anelis Assumpção, evoca a música homônima de Itamar Assumpção com Alzira Espíndola. O beat de “Saudade do Mar” foi o único do disco cujo sample não foi escolhido a dedo por Don: surgiu de um encontro do produtor Iuri Rio Branco com Alice Caymmi no estúdio, e já chegou para o rapper com o trecho em que Alice canta “Só Louco”, de Naná Caymmi.

Já em “BANdido”, Don isolou os vocais do refrão de “Fico Louco”, música de Itamar Assumpção regravada por Branca di Neve, e o sample foi manuseado sem pudor. “Eu sempre quis samplear essa música, mas ela tem coisa demais ali, ela é muito cheia de elementos, o que me deixaria preso no reggae dela, mas eu queria outra coisa”, revela. “Agora que tem uma tecnologia que permite separar os canais de voz e instrumentos de uma faixa, eu consegui samplear ela. Cinco anos atrás, eu não poderia ter feito essa música”.

Para Don, o flow é o trunfo de CARO Vapor II – “num compito com MCs, compito com seu suingue / incrível o flow como quando seu corpo infringe as leis é como eu rimo”, debocha na terceira faixa do disco. “Tem flows ali que eu não tinha feito nunca mais, né? Como o RPA2 era um disco que tinha uma temática muito mais política e eu queria alcançar mais gente, eu dei uma simplificada no flow. Nesse agora, eu volto a ter um flow mais no meu melhor mesmo, sabe? Sem me limitar”, comenta. “Acho que ‘saudade do Mar’ tem alguma coisa a ver com ‘Me Faz Acreditar’, que é uma música de interlúdio de Caro Vapor e tem aquele flow meio quase de uma canção de ninar.” De um lado, o flow. Do outro, a caneta. A poética de Don parece cada vez mais visual. Em “aFF MARIA”, o movimento do corpo da gata no baile vira metáfora para o ato de rimar. Já em “saudade do Mar”, Don descreve: “A fumaça sangra pelas persianas contra luz vermelha / Como num submarino em chamas / Entre um cabaré na estiva e a neblina de um céu alugado, / Eu quero dizer te amo e no teu sonho ser canção de rádio”.

Quando perguntado sobre quais obras o arrebataram nos últimos anos, Don responde de cara que sente uma profunda identificação com os filmes do diretor chinês Wong Kar-Wai. O cinema atravessa CARO Vapor II, como em todo disco de Don L. Em “Cafetina Seu Mundo”, de Caro Vapor – Vida e Veneno de Don L, há um verso que diz: “ou cê vira suco ou é Tony Montana”. Esses personagens nunca deixaram o imaginário de Don L. Entre O Homem que Virou Suco (1981) e Scarface (1983), o refrão de “para Kendrick e Kanye” diz: “Fortal (Fala) / É d’onde eu vim / Pra desenrolar aqui é mais que Tony em Scarface / Fidel em Cuba, é nós contra o mundo / Esse placo é nosso, vagabundo”. E se o primeiro Caro Vapor tem um quê de Anjos Caídos (1995), acelerando a moto pela avenida em “Morra Bem Viva Rápido”, no delírio de um eu-lírico que deseja se perder enquanto busca encontrar o outro; em CARO Vapor II, tudo é mais Chungking Express (1994), o caos é mais groovado e os romances são mais dilatados.

“Gosto de ouvir os funks de Soundcloud. As coisas mais doidas. O funk é um laboratório de inovação coletivo. É uma experiência de criação tão rápida e tão coletiva que não é nem que ele rejeite intencionalmente a autoria, mas acaba sendo tão coletivo e tão rápido que você não sabe quem criou as coisas”

Para além do cinema, a maior referência de Don é a sua própria geração, dos parceiros de longa data, como Nego Gallo, até os convidados do disco, como Giovani Cidreira. “Mateus Fazeno Rock é um artista que realmente me emociona, sabe? E eu acho que as nossas obras conversam… Sem a gente ter muita conversa. A gente é amigo, é parceiro, se admira e tal. Mas a gente não conversa muito. Eu lancei o RPA2 e depois ele lançou o Jesus Ñ Voltará, que tem muita coisa ali em comum com a RPA2. E, agora que eu lancei esse, ele já me falou que, pô, tem muita coisa aí que tem a ver com o que ele tá escrevendo pro próximo trabalho dele. Existe uma conversa, sabe?”

Na noite do show de lançamento, mais de três mil pessoas encheram a pista. CARO Vapor II é o show mais coreografado e visualmente instigante da carreira de Don L. A participação de Giovani Cidreira em “para Kendrick e Kanye” e “aFF MARIA” foi a entrega mais poderosa da noite. “tristeza Não” foi cantada em coro, como um mantra. O champagne derramava sobre as pessoas em festa no palco ao som da participação de MC Dricka em “melhor Vida” em loop. “Quando eu vi o clipe de ‘38 carregado’ da MC Dricka [música produzida pela DJ belorizontina Ray Lais], minha mente explodiu”, relembra Don, “O funk de BH é uma parada muito doida. Mano, não tem bateria! E os caras tão dançando freneticamente no vídeo num escadão de favela e a Dricka chega naquele swag de bandida cabulosa… E agora já mudou, né? O funk de BH tem bateria. Quem criou isso? Quem mudou?”

“Eu gosto de ouvir os funks de Soundcloud. As coisas mais doidas, assim, mesmo”, comenta Don. “Porque o funk é um laboratório de inovação coletivo, né? Funk é uma experiência de criação tão rápida e tão coletiva que não é nem que ele rejeite intencionalmente a autoria, mas acaba sendo tão coletivo e tão rápido que você não sabe quem criou as coisas, né? Então, o Passinho do Romano tem mais de dez anos. E quem criou o Passinho do Romano? Uma parada icônica da nossa cultura. Eu fui atrás de quem tinha criado o tamborzão, né? O tamborzão é um bagulho muito genial. O cara que criou fez em uma R-8 – e essa deveria ser a nossa 808. Deveria ser uma drum machine reverenciada no Brasil. Nessa drum machine foi criado o tamborzão. É um grande marco da nossa cultura. É como, quem foi que fez um… Um samba no pandeiro pela primeira vez?”.

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ARTISTA: Don L