É Possível Ter Letras Interessantes no EDM?

Música eletrônica é criticada por não ter lirismo significante, principalmente nesse estilo

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Enquanto os maiores nomes do EDM enchem estádios, estão nas atrações dos festivais pelo mundo, tem suas músicas repetidas na rádio, um grupo grande de estudiosos, produtores e fãs da cena Eletrônica underground continua tratando o gênero com pouco caso. Apesar de falamos bastante sobre o fenômeno do EDM aqui no Monkeybuzz, é válido voltar em algumas questões. A sigla de três letras remete a Electronic Dance Music, previamente catalogando qualquer gênero voltado às pistas que tivesse, em sua estrutura, beats e sintetizadores. Entretanto, de um tempo pra cá, o estilo vem trazendo consigo algumas características mais segmentadas e uma identidade própria. Por exemplo, se você abrir agora o Top 100 EDM Songs da Beatport, é bem capaz de perceber um padrão. Boa parte dos artistas já não são totalmente músicos, são apenas pessoas que aprenderam um tutorial de como produzir faixas… e o fazem, no laptop deitado na cama ou no aeroporto a caminho da próxima gig. Não há estudo de tendências, nem expressão de referências nem mão na massa. EDM virou uma fórmula que hoje comanda robôs em festivais que pulam e levantam suas mãos. E gera dinheiro. Muito dinheiro.

David Guetta, Skrillex (até um ano atrás), Calvin Harris, Steve Aoki, Avicii, Swedish House Mafia, Krewella, entre vários outros, são alguns dos nomes que preenchem o leque do que estou falando. EDM nada mais é do que a música eletrônica Pop. Todas aquelas referências bem mastigadas, estruturas de fácil assimilação e muito vocal. E é exatamente aí que mora o número 1 de reclamações: a falta de significado da maioria das letras.

O EDM é um gênero despretencioso que não traz consigo tanta responsabilidade. O estilo, por si só, já levanta tanto astral, já tem seus sintetizadores escolhidos a dedo para que se aflore sensações positivas, que às vezes esquecem de dar atenção ao que é cantado. Aqui vão alguns exemplos de letras de artistas famosos, mas que poderia vir de um colega do ensino fundamental ou de uma primeira paixão com 15 anos de idade:

”I live for the night, I live for the lights, I live for the high til I’m free fallin'” (Live for the night*, Krewella)

”We’re gonna see that we can feel. We’re gonna fly, this time love can be real” (I Feel Like*, Kaskade)

”When I wake up, still drunk, Got my shoes on my feet, I’m hesitating to look at my computer screen I live up on a cloud for the whole world to see” (Living my love, Nervo feat. LMFAO)

”So many girls in here, where do I begin? I see this one, I’m ‘bout to go in. Then she said ‘I’m here with my friends’. She got me thinking, and that’s when I said ‘Where them girls at, girls at?'” (Where Them Girls At, David Guetta)

”I wanna know your name. You just killed me, could you at least do that? I wanna know your name or better yet, stand there, just do that.” (One, Swedish House Mafia)

”And I wait all day, I won’t give up, To the sound of the drums, bring it back to love” (Sound of the Drums, Armin Van Buuren)

”I hit the spotlight, all night, ready to go. Give you a hard night, so tight, ready to blow” (Live It Up, Jennifer Lopez feat Pitbull)

”The way you look at me, the way you touch me, the fire in your eyes (makes) Me swear, makes me shiver inside. There’s nothing I can do about it, ‘cause nothing seems so true when I’m beside you. Am I dreaming of Venus?” (Shinning Star, Get Far)

Existem dois momentos muito claros que distanciam as produções nessa estrutura. O EDM de alguns anos atrás, que segue bastante a linha comentada acima, a música com foco em sua estrutura e ausência de preocupação lírica, apenas estímulos vocais que servem como um auto-ajuda musical, para que você esqueça todos seus problemas e que por três minutos você consiga “se divirtir a noite toda sem se preocupar com o amanhã”, levantar suas mãos para o céu e fingir que o que se canta faz algum sentido palpável. O segundo é a forma como o EDM vem caminhando para prender ainda mais seu público. Brincando de Storytelling ou de ficção, algumas músicas estão saindo do senso comum, alcançando outras temáticas e até criando personagens. É o caso de Wake me Up, do Avicii, ou até Don’t you Worry, do SHF, que trazem ainda mais mensagens de que “vai dar tudo certo”, completamente plausível para um público que está 95% do tempo ébrio.

Em contrapartida, há quem defenda o EDM justamente por isso. O gênero viria apenas pela diversão, pela evocação de bons fluidos, boas energias. Um gênero completamente voltado para movimentar as pernas. Há quem inclusive prefira música eletrônica sem nenhum apelo vocal, para que se dê a devida atenção ao que importa: a melodia. Lirismo vem sendo discutido há anos, bem antes mesmo de Around The World ou Lose Yourself To Dance e as repetições do Daft Punk. A preocupação em se escutar algo com significado vem como uma busca de identificação, do ouvinte fazer parte do processo, de achar que o que ouve tem uma intenção, além da de causar sensações.

Agora falando do outro lado da moeda, o lirismo chega como uma fase final, uma carta comercial aos produtores. Geralmente quem faz música começa somente com estruturas básicas e vai aperfeiçoando as técnicas com o tempo, trazendo novas camadas e até recortes vocais de alguma música antiga ou pedaço de filme etc. Entendem, assim, que uma forma de crescer ainda mais é tornar o som mais palpável trazendo o lirismo às batidas, e então vem o desafio de encaixar letras que sejam coerentes com as mesmas. Além da parte comercial, o obstáculo é aproximar quem não tem conexão tão intensa com as batidas e construir um relacionamento menos sinestésico e mais direto com o ouvinte. Uma forma de tornar menos etéreo uma relação que já é íntima entre o músico e sua produção. Conseguimos sim chegar em bons exemplos disso, talvez não no EDM propriamente dito, mas em estilos que vão do French ao Deep House, aproveitando uma estrutura brilhante para recheá-la com lirismo significativo. É o caso de Odd Look (remix) e Hold On:

”Your hesitation speaks to me louder than million words per minute. I was born to this life you’re living, in this game, oh yeah. Said nothing will ever be… ever be the same, when you’re finished. I freed a couple of souls, just yesterday, ooh yeah” (Odd Look Remix, Kavinsky feat. The Weeknd)

”The lights are on but no-one’s home. No-one likes being alone. My insecurities hold me captive, captive deep inside. All that I want to mean is a little bit of certainty. My senses become radioactive, active in the night. I can’t be your hero, I can’t be your saviour.” (Hold On, Duke Dumont feat. MNEK)

A grande questão disso tudo é que, como tudo que se traduz se perde, muitas tentativas não dão certo. E nos outros estilos não vieram somente com a proposta de agitar um festival, como é o caso do EDM. Não que ele seja o único vilão da série “qualidade musical”. O Hip Hop e o Pop (por que não falar o próprio Funk Carioca?) são alvos de muita gente há muito tempo. A cultura da ostentação nem sempre vem para trazer uma mensagem, assim como o Pop, por ser um som com intuito de grudar na cabeça, não pode ser complexo. E então, diante de tantas possibilidades, chegamos à conclusão que esses gêneros não fariam tanto sucesso se fossem tão precários como os intitulam. Há quem, assim como outras formas de entretenimento, como TV e filmes, abrace a proposta comercial e mastigada. E é preciso entender que as pessoas buscam a música com propósitos diferentes, seja para alcançar uma identificação com as letras, para fazer exercício, para se inspirar ou apenas para se divertir e não pensar em nada. O EDM se encaixa aí. E, diante de sua proposta – por mais que você não concorde ou continue esnobando -, seja melhor questionar seus fãs do que criticar o potencial lírico do gênero.

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Autor:

Publicitário que não sabe o que consome mais: música, jornalismo ou Burger King