Ebony e LARINHX: a volta para casa nas colaborações em “KM2”

Criadas em Queimados, MC e produtora transformam a vivência na Baixada Fluminense em matéria-prima para o mais recente disco de Ebony – entre cacofonia, memórias, barras e acidez

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Fotos: Mateus Aguiar

Entre Visão Periférica e KM2, são apenas quatro anos – tempo breve diante da dimensão que Ebony tomou no hip-hop nacional. Milena Pinto de Oliveira iniciou sua trajetória com um impulso para a música ainda muito cedo, aos 15 anos de idade. Crescendo em Queimados, Baixada Fluminense, em família conservadora, ela nunca esteve sozinha depois que se encontrou na sua arte.

Depois da estreia, em 2021, com Visão Periférica e o apoio de nomes como BK e Borges, a Ebony precisou se provar trabalho após trabalho para seguir com a relevância que alçou sua arte ao potencial viral. Inovando no seu trap com influências eletrônicas, e sem mais revisitar letras antigas ou suavizar sua linguagem, chegou às maiores faixas de sua carreira, “100 Mili” e “Pensamentos Intrusivos”, de seu segundo disco, Terapia.

A partir do segundo álbum, a Milena da adolescência se reencontrou na vivência da cena artística de Queimados, e estabeleceu uma conexão que direcionou grande parte da produção das faixas que marcaram seu nome no rap nacional. LARINHX já era uma das referências do potencial artístico que Ebony enxergava muito antes de dar início a sua trajetória.

Queimados, berço que moldou o início da trajetória de ambas, chegou a ser considerada a cidade mais violenta do país em 2018. E entre o estampido de balas, sirenes, trens e ônibus, a esperança e os sorrisos inocentes serviram de guia para um álbum que desponta como um dos grandes lançamentos do rap em 2025. O ponto de partida vem exatamente do entendimento de como traduzir em som e palavra a vivência na cidade da Baixada onde tudo começou.

Entre o interlúdio e a última faixa do disco, KM2 traz quatro faixas em que Ebony e LARINHX se encontram, em disco que conta com produções de Pep Starling e AG Beatz e reúne canetadas de uma Ebony autoproclamada ‘mais séria’, mas que ainda guarda a acidez e o ar profano característicos.

Conversamos com as duas amigas, depois da primeira apresentação de algumas das novidades do álbum na Festa Lâmina, no Rio de Janeiro, antes da estreia oficial na capital, marcada para chegar ao Circo Voador no dia 26 de setembro.

Entre os sucessos de “100 Mili”, momentos marcantes de “Espero que Entendam” e novidades, como “Vale do Silício”, vocês duas estiveram juntas, Ebony e LARINHX. Sem dúvidas, essa dupla não começa em KM2, tampouco em Terapia. Como se deu essa conexão entre vocês duas, que são da mesma cidade, mas que tiveram criações e desenvolvimentos diferentes?

EBONY: Para mim, foi muito natural. Eu ouvia o nome da LARINHX quando tinha uns 10 anos de idade, porque ela já fomentava o funk, ela já fazia rap, ela já compunha para outras pessoas. Em Queimados isso era muito forte, e eu tava crescendo ali numa contracultura – eu vinha do lugar onde eu não podia consumir esse tipo de coisa.

Lembro que eu já flertava com a música da LARINHX e com a ideia de quem ela era na cidade desde muito tempo antes, então começo a fazer música e ela me reencontra. Para mim, foi tipo um círculo fechando. Eu estava sendo levada para o lugar que eu tinha que estar desde sempre, tá ligado?

LARINHX: Cara, é porque, assim, em Queimados é uma cena muito pequena, tá ligado? Então, todo mundo que começa a fazer alguma coisa e se mantém fazendo alguma coisa, vai se destacando ali na cidade. encontrei a Ebony depois de uns anos, fora de Queimados, mas foi na Baixada, num show. E ela já era ‘Ebony’, já tinha lançado a música dela, que ela fez no celular. E tipo assim, isso era muito inovador para Queimados. A gente vai fazer um show, se não me engano, em Nilópolis. E aí a gente se falou: “Caralho, você é a LARINHX?”, “Você que é a Ebony?”.

A gente começou a fazer música, comecei a trabalhar na produção musical das coisas dela. E foi muito foda, porque das mulheres do rap, da cena do rap no geral, do funk, ela é uma das pessoas mais inovadoras – quem, para mim, não tem medo de arriscar. Acho que isso que é diferente. E isso me instiga, porque nos meus beats, vejo que não é todo mundo que conseguiria rimar, porque é muita maluquice. Você precisa de uma pessoa com um nível de maluquice igual para fazer, tá ligado?

“Ser de Queimados me deu uma gama muito ampla de percepções sobre o mundo, bota fé? Isso molda quem eu sou – e se reflete na minha arte” – Ebony

Para além de vocês terem crescido em Queimados, vocês voltam às raízes em KM2. É um disco que carrega, além do nome, a presença do lugar que moldou a trajetória de vocês. Seja no interlúdio, na última faixa ou no maior hit, “KIA”, a quebrada está ali. Como vocês relacionam essa escolha pela música – e pelo rap – com a vivência e o território de onde vieram?

EBONY: Quando lembro de Queimados, não é só sobre uma memória. É um conjunto de memórias. Quando volto para lá mentalmente para escrever, é exatamente a intro de KM2. São sons, são pessoas e são situações que ninguém deveria testemunhar. E são pessoas felizes, são crianças, num contexto muitas vezes complicado, e que ainda assim seguem sendo crianças e sendo inocentes. Ser de Queimados me deu uma gama muito ampla de percepções sobre o mundo, bota fé? Acho que isso molda quem eu sou – e se reflete na minha arte.

LARINHX: Acho que uma coisa que aprendemos muito, nascidas e criadas em Queimados, é o respeito e valores que são inegociáveis. A minha família, tanto a minha quanto a da Ebony, é muito humilde lá em Queimados. Quando a gente transita por aí, a gente vê coisas muito grandes, mas nada deslumbra tanto, porque a gente ainda tem um lugar para voltar que é muito simples. Acho que isso alimenta pra caramba. Eu posso fazer milhões de coisas, mas as pessoas que mais amo, que mais me enxergam como quem eu sou, ainda estão ali, numa simplicidade. Com um olhar ainda muito puro das coisas. Acho que Queimados se reflete na nossa arte dessa forma, tá ligado? Uma galera que tem muito potencial, e é muito pura em relação a tudo que tem no mundo.

Acho que as minhas produções são muito essa coisa da cacofonia de Queimados, tá ligado? Acho que tem muita materialidade no álbum, mas eu gosto muito também das que eu não produzi, isso é foda – eu gosto de todas.

Foto: Gabi Lino

“Quando a gente transita por aí, vê coisas muito grandes, mas nada deslumbra tanto, porque a gente ainda tem um lugar para voltar que é muito simples. Isso alimenta pra caramba. Posso fazer milhões de coisas, mas as pessoas que mais amo, que mais me enxergam como quem eu sou, ainda estão ali, numa simplicidade. Com um olhar ainda muito puro das coisas” – LARINHX

E a origem do álbum? Começa com vocês duas?

LARINHX: Cara, começa no gosto da Ebony, por justamente isso, por essa cacofonia de Queimados. Eu já faço pesquisa sobre isso há um tempo, sobre esses ‘barulhos’, e ela estava justamente procurando por isso. Sobre o que é Queimados, o que é que você pensa quando você fala de Queimados. Qual é o som, como você chega em Queimados – que geralmente é de trem ou de ônibus, sabe? Então, se junta nesse lugar, mas é uma pesquisa que parte muito dela, dessa coisa de o que que é Queimados para ela, entendeu? A gente, que é produtor musical, entra muito no lugar de ler o artista também. A proximidade ajuda por isso, porque você consegue dizer exatamente o que a pessoa quer, às vezes sem precisar falar muito.

O álbum traz um feat., que também é um dos destaques do repertório, com o Black Alien – e produção da LARINHX –, em “Vale do Silício”. Como se deu essa aproximação com o Gustavo? Eu particularmente já enxergava uma conexão lírica nas letras de vocês dois, de pessoas que percebem e também escrevem sobre o entorno com certa desconfiança – que também traz segurança, uma blindagem, de certa forma. E ao mesmo tempo, são figuras de gerações diferentes, em momentos diferentes.

EBONY: Cara, foi muito foda trampar com o Black. Tipo assim, eu, infelizmente, devido à minha criação, tive um acesso muito tardio às rimas do Black, assim. Mas quando eu as acessei, elas me salvaram. Então, eu e o Gustavo conversamos muito sobre salvação, assim, sobre redenção, sobre arrependimento, perdão, confiança. E foram conversas que eu vou levar para minha vida e que definitivamente foram um alicerce de “Vale do Silício”. Foram conversas que a gente teve muitas vezes até a gente ousar ir para uma cabine e falar alguma coisa no microfone, sabe?

E qual é a faixa preferida no disco de vocês?

EBONY: Cara, sempre vai ser “Extraordinária”.

LARINHX: Cara, porra, me botando numa situação difícil. Como eu falei, gosto de todas, mas eu acho que “Extraordinária”, realmente condensa toda a ideia de quem ela é, dos acessos – de tudo, assim. Tudo é realmente muito extraordinário. Eu acho que “Extraordinária” é a cara do álbum.

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ARTISTA: Ebony, LARINHX

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