eliminadorzinho, em minúsculas e no diminutivo

“Rock Jr.”, explosivo disco de estreia do trio paulista, é uma celebração às pequenas aventuras cotidianas que surgem com o início da vida adulta – e uma antítese, visceral e ao mesmo tempo Pop, da estética do “Rock de Arena”

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Fotos: Yasmin Kalaf

Seja porque você pegou a referência à música do Sonic Youth, seja pelo estranhamento, eliminadorzinho é um nome que fica na cabeça. O grau do substantivo evoca uma ideia de Rock que não precisa de pompa nem grana, mas de suor e som. “Eu gosto do diminutivo e, para mim, isso sintetiza muito bem o que eu vejo como Rock”, comenta Eliott, de 24 anos, vocalista e guitarrista da banda paulista, “O Rock virou uma coisa de estádio há décadas, algo grandioso, mas acho que eu só peguei de fato o amor por shows de Rock quando comecei a ver que pode ser em um inferninho com três pessoas assistindo, três pessoas tocando, a banda maior que público mesmo, e é pequeno, mas é destruidor, é brutal”. É com essa pegada modesta e anti blasé, despreocupada e até confessional que a banda de amigos de infância lança seu disco de estreia, Rock Jr. (2021).

“Fazer Rock Jr. foi longo e extenuante, mas uma vaidade e um orgulho”, comenta o baixista Hadd — como é conhecido João Pedro Haddad, de 24 anos —, com seu jeito quase teatral de se expressar. “É ruim, mas é bom, mas é ruim. Quando as coisas demoram, porque elas demoram, dá pra ver quanto o som amadureceu e você trabalhou as ideias até o primor. Outro efeito interessante e engraçado é que ouvindo por três anos as mesmas músicas, ensaiando, ouvindo demo, bounce, mix, master, você começa a dissociar e perde todo critério de se está massa ou não — aí você deixa na gaveta, passa um tempo sem ouvir e, quando ouve de novo, você pode afirmar categoricamente Puts Está Massa o Som”. Rock Jr. foi o projeto mais longo dos cinco anos de vida da eliminadorzinho, mas também a investida criativa mais coletiva que já tiveram até então. Depois de 4 EPs — Nada Mais Restará (2016), Aniquiladorzinho (2017) e os dois splits, Peleja (2018), com a Quasar, Lapso (2019) com Fernando Motta —, Rock Jr. inaugura alguns processos.

“O primeiro EP foram mais composições de Eliott, a gente partia sempre do riff de guitarra, inclusive a letra era a última coisa em que a gente pensava”, diz o baterista Tiago Schützer, de 25 anos. “Demorou muito pra gente começar a se dedicar mais na letra e na voz. No começo, a dinâmica era meio caótica, eu ficava zuando, a gente brincava, fazia ensaios longos aqui em casa, meu irmão e os vizinhos ficavam putos. A gente estava aprendendo a fazer barulho”. Tiago começou a tocar bateria aos 13 anos com uma forte formação de Jazz e, em Rock Jr., o artista estreia a voz — é verdade que rolavam uns improvisos de backing vocal nos shows, mas não era planejado, tampouco ensaiado. No disco, Tiago canta “Verde”, “Trânsito (Ilusão)” e “Canção Pro Tony Andar de Skate”. Por outro lado, Eliott buscava outro formato de música para Rock Jr.. “Esse disco inteiro funciona muito bem como canções — e eu gosto de usar a palavra canção porque, pra mim, não é toda música da eliminadorzinho que cabe nessa definição”, diz. “Tem muita música nossa que é um riff com voz por cima, mas não funciona se não tiver guitarra ou fora da disposição que a gente colocou. Você pode pegar o violão e tocar Rock Jr. inteiro que ele funciona ou só cantarolar o disco, o que é uma coisa diferente pra gente.”

ELIMINADORZINHO AWARDS: MELHOR SHOW QUE JÁ FIZERAM

TIAGO: O show em que a gente abriu para o Cloud Nothings em abril de 2019 foi muito bom. Tocar em um palco, né? (risos) A Fabrique tem uma baita estrutura, tinha profissionais ajudando a gente e, além disso, o som estava muito bom, a gente tocou muito até porque ensaiamos muito também.

ELIOTT: O show que eu senti que as coisas mais deram certo, a galera curtiu, tudo foi perfeito do começo ao fim, foi nosso último show antes do começo da pandemia. Foi na Heavy House com o Nando (Fernando Motta). Aliás, 2019 com certeza absoluta teve nossos melhores shows, pelo que o Tiago falou: a gente ensaiou muito em 2019. A gente sabia que a gente ia gravar o disco e a gente sentia mesmo que estava melhorando.

HADD: Porão bagunça do antigo Estúdio Mameloki, dia 14 de setembro de 2018. Um espaço de 3,5m² tinha criança amontoada até no teto, bagunça, furdunço, baixaria, cheiro de gente, som alto e mal equalizado, a gente tocando super rápido, gritaria! Tocamos cover de Raça olhando nos olhos do Popoto Martins. Quando acabou, as paredes estavam molhadas, pingando, escorrendo — um evento excelente.

ELIMINADORZINHO AWARDS: DISCO DO ANO 2021

TIAGO: Orquestra Laboratório Bastet – Orquestra Laboratório Bastet

ELIOTT: BAILE – VHOOR E FBC

HADD: Lar da Retórica Incompreensível – Calvin Voichicoski

Mas eu te vejo no Sesc amanhã…

Eliott, Hadd e Tiago são amigos de infância. Estudaram juntos a vida toda. Eliott e Tiago se conheceram com seis anos de idade, no pré, e Hadd foi uma amizade da primeira série. Durante a adolescência, o trio era inseparável. Então surgiu uma banda de cover chamada — atenção — Os Camelos que durou basicamente até surgir a eliminadorzinho, com a formação do trio. Tiago já estava tocando bateria quando Eliott e Hadd começaram a aprender violão — e Eliott jura que Hadd só foi tocar baixo porque comprara a guitarra primeiro. No final do colegial, Eliott decidiu fazer produção musical e começou a gravar Os Camelos.

“A gente gravou na casa do Tiago, do jeito mais tosco possível, e a partir disso eu comecei a gravar coisas minhas também”, conta Eliott, “Comecei a escrever e tive a ideia de fazer um trio, pra fazer um som mais direto e pelas influências do que eu gostava na época — minha maior referência para começar a eliminadorzinho foi a Cloud Nothings, que é a banda que a gente tocou junto em 2019. Houve alguns shows deles que mudaram o jeito que eu componho até hoje, foi muito transformador ver eles como um trio tocando pra caralho, fazendo um barulho como se fosse muito mais gente no palco.” Uma curiosidade sobre esse show com Cloud Nothings é que Eliott ficou por meses tuitando (e marcando a Balaclava Records, organizadora do evento) dizendo que era seu sonho abrir para Cloud Nothings; um dia depois do seu aniversário, o selo convidou eliminadorzinho para tocar.

“A gente foi entrando nesse meio de bandas de amigos que começou a ser chamado de Rock Triste e quando fomos fazer esse disco, percebemos que a gente não queria mais fazer Rock Triste, sabe? A gente queria fazer uma coisa mais animada, o que deu uma pegada mais Pop também, fazer uma letra que as pessoas queiram cantar”

Essa época de gravações na casa do Tiago foi quando o trio estava começando a conhecer a cena de bandas alternativas brasileiras. “Já ouvia Lupe de Lupe, na época gostava muito de Terno Rei, Gorduratrans tinha acabado de lançar um disco e acabaram sendo uma grande influência pra gente”, diz Eliott. Aliás, foi o vocalista do Gorduratrans, Felipe Aguiar, quem mixou o primeiro EP inteiro, atendendo ao pedido depois de um show da Gorduratrans. “Eu tenho a maior convicção que a gente não teria feito nada se não fosse o Felipe. A gente pediu ajuda com uma música, ele fez o EP todo e soou bem. Ele fez o bagulho crescer e virar o primeiro EP que a gente lançou, e eu lembro que ele postava com o maior orgulho. Depois disso, a gente começou a andar mais com os próprios pés.”

No final de 2014, na porta de um show da E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante — banda de Luden Viana, produtor musical de Rock Jr. —, Eliott conheceu Guilherme França, vocalista e guitarrista da Quasar, banda com a qual fariam o split em 2018. Outro encontro foi em 2016 com a banda Amandinho, uma das influências do nome da eliminadorzinho, em sua Cruzada Contra o Rock de Arena Tour. O desenvolvimento sonoro da eliminadorzinho e sua abrangência de shows, mesmo sem ter um disco de estreia, é uma consequência da movimentação orgânica do trio como fãs da cena de Rock independente.

Uma das maiores referências da eliminadorzinho é Polara. Em "Rock Jr"., o vocalista da Polara, Carlos Dias, é o artista visual que assina a capa.

“A gente foi entrando nesse meio de bandas de amigos que começou a ser chamado de Rock Triste e quando a gente foi fazer esse disco a gente percebeu que a gente não queria mais fazer Rock Triste, sabe?”, comenta Tiago, “A gente queria fazer uma coisa mais animada, o que deu uma pegada mais Pop também, fazer uma letra que as pessoas queiram cantar. A gente deu muita sorte com o primeiro hit [Das Vezes Que Conversamos na Cama e Acabamos Dormindo], mas os dois EPs eram uma bagunça só, até pelo processo de gravação caseiro, tinha letras que não dava pra ouvir — e era a estética. Mas foi muito legal trabalhar junto e ir afinando detalhes da música, isso deu outro sentido para o disco.”

Essa guinada de estilo era um objetivo comum e, por isso, houve o debate se “Temporais” deveria ser o single lançado antes de “Eu Só Preciso de um Tempo”. “Ela começa como uma abertura, o riff dela é simples, é quase como se eu tivesse tocando as cordas soltas da guitarra e ela tem uma pegada que lembra nossos primeiros EPs”, defende Eliott, “Mas, no meio, ela entra com uma pegada mais Punk que pra mim é uma transição muito boa do que a gente estava fazendo antes para o disco.” Enquanto escrevia com Tiago, Eliott cantava qualquer coisa para ter uma ideia da letra, de onde surgiu “Laterais”. A música quase se tornou uma canção sobre futebol, mas depois veio a palavra “Temporais” e juntos começaram a criar uma cena para compor, um processo novo dentro da banda. Esse perfil de música-narrativa aparece em outros momentos do disco, como “Pompeia” e “Canção Pro Tony Andar de Skate”.

Enquanto o primeiro EP da eliminadorzinho é claustrofóbico, Rock Jr. é expansivo – ou explosivo. É sobre sair, estar na cidade e fazer coisas com outras pessoas. Tentar, quebrar a cara e se ber no Sesc amanhã mesmo assim. “A gente colocou a experiência de ter uma banda no disco”, conta Eliott, “A gente estava tentando fazer um brainstorming para a capa, pensando o que confere a unidade visual desse disco e, na minha cabeça, era muito claro o conceito de pé na rua: sair, dar um rolê com a galera. Uma das minhas grandes resistências de lançar o disco na pandemia era por isso, ele perderia seu sentido. É legal ter lançado ele agora porque é um sentimento que está voltando, a gente está voltando a encontrar nossos amigos e poder pensar em ter roles.” Rock Jr. tem a ver com tomar uma cerveja no fim da tarde e, no susto, topar ir a um show de uma banda independente. É uma celebração das pequenas aventuras cotidianas, com uma entrega emocional, sincera, aberta a vulnerabilidades e impulsionada pelo peso das guitarras. Uma odisseia sobre o início da vida adulta.

SESSÃO NOSTALGIA DA ELIMINADORZINHO (com comentários de Hadd)

TOP 5 VIDEOGAMES

- Zatch Bell mamodo Fury PS2

- Soulcalibur GameCube

- Tony Hawks Pro Skater 2 (“esse é brabo memo”)

- Os Incríveis: Rise of the underminer PS2

- Guitar Hero (“principalmente os ímpares”)
TOP 5 DESENHOS ANIMADOS

- Du, Dudu e Edu (“sim, mais conhecido como banda eliminadorzinho”)

- A Vaca e o Frango

- As Meninas Superpoderosas (“mais conhecido como banda eliminadorzinho também”)

- Padrinhos Mágicos

- KND A Turma do Bairro

Menção honrosa: Naruto
TOP 5 DISCOS DE ROCK

- Raw Power (1973), The Stooges

- Charlie Brown Jr. Acústico MTV (2003)

- Like a Virgin (1984), Madonna

- White Album, dos Beatles (1968)

- Virgem (1987), Marina Lima

Menção honrosa: Speaking in Tongues (1983), Talking Heads
TOP 5 FILMES DA SESSÃO DA TARDE

- Escola de Rock

- Diários da Princesa

- Delírios de consumo de Becky Bloom

- Titanic

- Space Jam

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