Entre as notas de dor e paixão de Maíra Freitas

A cantora, pianista e produtora fala da aliança entre o erudito e o popular, do desafio em compor trilhas sonoras e sobre como música é terapia (e dádiva)

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Fotos: Mario Rocha

Como você conheceu sua primeira paixão? “Eu tinha sete anos. Minha mãe conta que eu virei para ela e falei ‘mãe, quero aprender piano’, ‘que que é isso, garota?’ – Não sei de onde eu tirei isso, mas ela me colocou na aula e eu gostei, não parei mais. Toda vez as pessoas me perguntam por quê. Acho que música não tem muito porquê”. Crescida em Laranjeiras (RJ), Maíra Freitas é pianista, cantora e produtora musical e é uma mulher de respostas profundas, as quais vêm à tona com naturalidade, um sorriso largo e grande sensibilidade ao olhar para o mundo. Com dois ótimos álbuns para saborear, Maíra Freitas (2011) e Piano e Batucada (2015), e um próximo disco (ou EP) em gestação, ela tem dedos vivos cheios de talentoe referências e uma mente que sabe da necessidade de se lembrar sempre de si mesma.

Aos 34 anos de idade, Maíra dá aulas de piano, compõe trilhas sonoras, tanto para peças de teatro quanto para filmes, e dirige sua carreira solo. No geral, a agenda é dividida entre shows e trilhas. Sobre a produção musical para outras áreas, música como meio e não como fim, ela diz que “é um outro desafio: pegar uma cena que não tem som, só falas, e imaginar qual é o som para aquele sentimento. É bem gostoso e difícil. É também trabalhar com leigos, por exemplo, diretores não vão falar que querem Si bemol, é mais um ‘quero uma coisa alegre’, só que alegria pode ser tanto Ravel quanto Stevie Wonder, entender qual é a nota ali é bem legal”. E Maíra é a melhor pessoa para montar esse quebra-cabeça. O piano é seu companheiro e, apesar de reconhecer a imponência do instrumento, aos olhos dela, tocá-lo é como vestir a roupa no corpo.

É nessa facilidade do fazer musical que mora a sedução da sonoridade da pianista. Os muitos anos dedicados à música erudita não tornaram seus discos impenetráveis, muito pelo contrário. Maíra é popular, ela aloca o piano à música brasileira – leve, mas certeiro, elegante, mas descontraído. Piano e Batucada, por exemplo, faz as qualidades da pianista – eruditas ou populares – se sobressaíram naturalmente. O movimento não é muito calculado, mas a artista conta que gosta de pensar na letra e na levada e é guiada pelo sentimento que esses nortes lhe provocam. “Acho que o único pensamento racional é que todo mundo tem que gostar: da minha tia avó até meu vizinho de 5 anos de idade, passando pelo meu marido, minha mãe e a pessoa que não entende nada de música, ela também tem que gostar. Tem que ser gostoso, não sei explicar”, diz sobre seu processo criativo.

Um piano usado custa de 5 a 7 mil reais, enquanto um novo custa 70 mil reais. Um piano de cauda custa por volta de 500 mil reais. “Então, se você quiser ser um pianista de concerto, precisa ter meio milhão, botar um apartamento dentro do seu apartamento”, brinca Maíra. Ela sofreu muito racismo nos anos em que ocupou espaços da música erudita e – inevitavelmente – a conversa chega a Nina Simone. “Lembro desse sentimento de identificação: preta, norte americana, background como pianista clássica; eu me identifiquei de cara porque não tem muitas pianistas pretas. É um instrumento caro e, quando eu descobri a Nina, falei caraca é isso. Passei a ouvir, fazer arranjos e por isso, no segundo disco, pensei que tinha que entrar uma música da Nina, porque sou eu”.

O piano de Maíra foi um presente de seu pai, o brilhante Martinho da Vila. Inclusive, foi em “Último Desejo”, do disco Poeta da Cidade – Martinho Canta Noel (2010), que ela estreou como cantora. O primeiro disco autoral também recebeu o toque especial familiar, com produção da irmã, Mart’nália. “Estudava piano clássico, ouvia Backstreet Boys, Stevie Wonder, Beth Carvalho, Paulinho da Viola, meu pai, sempre fui muito misturada musicalmente”, relembra Freitas. Ela tem uma playlist de músicas salvas que vai de Beethoven a Rock, de Funk a Pagode anos 90. Tem de tudo. “Acho que eu gosto muito de música boa”, declara. Tá delícia, Tá Gostoso (1995) talvez seja o disco mais emblemático da sua vida. Segundo ela, não haveria Maíra, se não houvesse Tá delícia, Tá Gostoso – Pop, extravagante e fundamental para a sua visão sobre construção de melodias.

Sobre compor trilhas sonoras: "Pegar uma cena que não tem som, só falas, e imaginar qual é o som para aquele sentimento. É bem gostoso e difícil. É também trabalhar com leigos, por exemplo, diretores não vão falar que querem Si bemol, é mais um ‘quero uma coisa alegre’, só que alegria pode ser tanto Ravel quanto Stevie Wonder, entender qual é a nota ali é bem legal” (Foto: Mario Rocha)

Hoje, para Freitas, a música clássica significa essa grande escola da qual ela absorveu tudo que fosse possível. “A compreensão da teoria musical abriu muito meus ouvidos para todas as partes, meandros, detalhes da música, me permite ouvir e saber qual instrumento me instiga, qual é a nota – é a certeza de que eu se quiser, e tiver tempo, eu posso tocar qualquer coisa que eu quiser”. E, assim, ela detém em seus dedos, olhos e ouvidos o poder de abrasileirar tudo. A mãe de Maíra, que costumava ouvir discos inteiros do Djavan, Milton Nascimento, Elis Regina, Chico Buarque, também fora uma grande influenciadora em sua habilidade de abrasileirar qualquer composição.

Entre os discos que mudaram a forma com que a artista encara a música, passamos pela parceria César Camargo Mariano e Elis Regina, que ela define como “a perfeição de groove”: piano, violão, baixo, bateria, uma banda incrível; da música clássica, O Concerto de Ravel tocado por Martha Argerich, que a encanta, porque “Ravel é o cara das harmonias, é uma pintura musical muito perfeita, é o impressionismo na música clássica, que influenciou Villa-Lobos, Tom Jobim, os maestros brasileiros, Moacir Santos” Ouro Negro (2004), de Moacir Santos, também é indispensável. E tem o Michael Jackson. Segundo ela, a lista teria ainda que incluir um disco do Djavan, uma Alcione, um Arlindo Cruz, pelo menos um disco do pai – Tendinha (1978), Festa de Umbanda (1974), Tá Delícia, Tá Gostoso (1995). E Songs In The Key Of Life (1976), clássico de Stevie Wonder.

Eu conheci Maíra por meio de uma publicação em seu Instagram, na qual ela faz uma releitura sensível e fervorosa de “Onze Fitas”, de Elis Regina. O vídeo foi publicado pouco tempo depois do assassinato George Floyd, em Minneapolis, de João Pedro, no Rio de Janeiro, e de Matheus, moto táxi que morava na mesma rua que Maíra. Ela não pretende se debruçar sobre o racismo e a violência policial em seu próximo trabalho e diz que não gosta muito de falar sobre o assunto. “A gente fala porque é inevitável, o vídeo do ‘Onze Fitas’ foi inevitável, eu estava transbordando, era tanta notícia daquilo naquele momento. É muito mais do mesmo, não para nunca e essa onda do Black Lives Matter…eu fico triste porque fico achando que é moda, sabe? E acho que já está até passando, já até passou…os brancos cansaram desse papo”, destila.

“É o grande presente da música para nós: é terapêutica. Todo mundo deveria ter esse contato mais íntimo com o fazer musical, seja cantando, batucando, fazer um pouco já é uma meditada. Acredito muito no poder da música”

O racismo é uma das dores mais pungentes das nossas vidas. Curiosamente, tão perverso que faz a gente dissimular seu impacto. Esse foi um dos meus primeiros assuntos com Maíra: dor. A gente não estava falando de racismo, nem machismo, nem truculência policial, mas de um dos momentos mais bonitos da vida da artista: Maíra teve um parto domiciliar humanizado no meio da pandemia – Nasceu Zinga, irmã de Zambi. Felizmente a decisão foi prévia à epidemia, o que só reforçou a vontade de não ir para um hospital. Um trabalho psicológico intenso, que permite seguir na contramão de “fugir da dor a vida toda”. Para ela, durante o trabalho de parto, “a dor é necessária, ela te faz cada vez chegar mais perto do seu filho que vai nascer.” No limite, a pianista reconhece que em todas as fases da vida existe a dor. “Quando você entra em um relacionamento, é difícil você se entregar, é uma dor, por mais que você goste. Conviver é difícil. Você está em um ambiente de trabalho, tem que fazer uma coisa que você nunca fez. É difícil ultrapassar essa dificuldade. O piano representa muito isso, porque você precisa ficar praticando muito para conseguir fazer aquela nota, aquela escala, aquela  música é um processo de dor também, sabe? Todos os sentimentos têm seus propósitos”, diz.

E como não falar em dor no Brasil? Da dor do racismo escancarado à dor ordinária, do dia a dia. “Eu lembro que no dia que eu comecei a contrair, o Mário veio com uma notícia do número de contaminados e o que o Bolsonaro tinha dito, deu vontade de dizer ‘tira o Bolsonaro da minha casa’”, brinca. Tem sido difícil para a cabeça e para o estômago, mas a artista diz que não tem como não acompanhar as notícias. Hoje, ela balanceia: no momento em que percebe que o noticiário a está abalando muito, dá um tempo de 2 dias, “depois eu vejo mais uma coisinha, que merda o presidente falou, quem foi o ministro que trocou e tal”.

Para amenizar (não curar) a dor e lembrar de si mesma, o remédio está na paixão. “Tocar piano é terapêutico para mim, só de elaborar um vídeo de alguma música já me dá um frescor”. Ela sorri mais quando fala do piano e de suas possibilidades. Fascinada, discorre sobre o poder de, sozinha (ela e o piano), conseguir fazer melodia, harmonia, ritmo – afinal, embora muita gente não se lembre, o mágico piano é um instrumento percussivo. Lidando com o puerpério, período pós-parto, ela diz que precisa “ficar me lembrando de mim e a música me ajuda a me lembrar de mim mesma. Música é uma questão de saúde mental, grande parte do que eu faço musicalmente tem a ver com o que está me consumindo naquele momento, sentimentos, seja amor, alegria, felicidade, tristeza. Acho que esse é o grande presente da música para nós como seres humanos: a música é terapêutica”. E Maíra recomenda, “Todo mundo deveria ter esse contato mais íntimo com o fazer musical, seja cantando, batucando, fazer um pouco já é uma meditada. Acredito muito no poder da música”.

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