Entrevista: Apanhador Só

“Música popular com espírito aventureiro” – é assim que essa banda gaúcha define seu som. Conversamos com o vocalista e guitarrista Alexandre Kumpinski sobre seu som, processo criativo coletivo e fitas cassete

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Fotos: Roberta Sant'Anna

O quarteto Apanhador Só vem conquistando cada vez mais respeito desde 2006, quando lançou seu primeiro EP Embrulho Pra Levar e logo começou a viajar para os principais pólos musicais do país, levando sua versão repaginada do Rock gaúcho ao encontro do que mais pode ser chamado de música popular brasileira. Digo isso porque o trabalho lírico das composições da banda segue a tradição dos grandes letristas da nossa cultura, encontrando beleza e humor na sonoridade e significação das palavras mais cotidianas com rimas simples e boas sacadas. Isso tudo sendo muito acessível aos mais diversos ouvidos.

Depois do álbum homônimo lançado em 2010, a Apanhador Só tem se dedicado também ao projeto Acústico-Sucateiro, com um disco lançado em 2011 todo gravado na sala do vocalista e guitarrista Alexandre Kumpinski com o uso dos mais diversos objetos misturados aos instrumentos lo-fi para reinventar o som de suas próprias canções, além de ressuscitar a ideia das fitas cassete ao disponibilizar as músicas nesse formato para venda, ou em um escambo bem bacana em que o ouvinte leva para casa uma fita em troca de cinco outras usadas, que são reutilizadas para propagar o som da banda.

Foi sobre tudo isso que conversamos com Kumpinski por telefone em plena Páscoa, às vésperas da estreia do belo clipe Nescafé. Confira abaixo o que ele nos contou.

Monkeybuzz: O som da Apanhador Só é de uma riqueza difícil de ser explicada em uma ou duas palavras. Como foi a busca pela sonoridade da banda? Alexandre Kumpinski: Cara, eu acho que a gente desenvolveu e continua desenvolvendo nossa sonoridade até hoje. Sempre foi muito natural, desde que começamos a tocar as musicas próprias, nossa linguagem sempre foi natural, foi surgindo e ainda não acabou, a gente continua em desenvolvimento.

Mb: Ainda sobre o som de vocês, teve alguma definição de algum jornalista ou músico que você ouviu e te surpreendeu? Como você prefere explicar o seu som? Kumpinski: Não, que eu me lembre nenhuma me surpreendeu não. Eu gosto da definição que diz “Música popular com espírito aventureiro”. É meio difícil ficar definindo, é tudo meio misturado na nossa música.

Mb: Como é o processo de composição de vocês? Kumpinski: Varia muito, mas o processo de composição normalmente começa só com voz e violão, e a banda faz o trabalho em cima disso. Os arranjos surgem nos ensaios e daí o que é mais pensado às vezes é uma pesquisa que a gente faz de instrumentos, uma coisa mais de produção. Pro Acústico Sucateiro, a gente faz uma pesquisa nas nossas casas pra usar nos futuros arranjos, mas é bem orgânico e o que encaixa fica. Qualquer outra coisa a gente vê no estúdio, como um cuidado pro timbre na hora de gravar, mas isso depende da técnica, do estúdio, do produtor.

Mb: Conta mais pra gente da escolha dos sons usados no Acústico-Sucateiro? Kumpinski: Primeiro a gente acha os objetos e a gente vê o que fica legal como instrumento. Depois, a partir disso, a gente instintivamente busca o timbre que acha que vai encaixar melhor ali. É um processo complicado porque é coletivo. A gente não sabe quando começa ou quando termina uma ideia, é difícil de desvendar o processo da criação coletiva, as únicas testemunhas somos nós, que estamos dentro.

Mb: Como surgiu o projeto com as fitas cassete? O público comprou bem a ideia? Kumpinski: A gente queria fazer um projeto gráfico diferente, dentro da ideia de que hoje em dia comprar o CD é mais comprar um objeto do que uma mídia, porque no final você ouve o MP3 mesmo. Dentro dessa lógica, pensamos em lançar as músicas com um objeto interessante, já que não era para ouvir por ele de fato. A retomada do vinil já estava acontecendo e isso todo mundo estava lançando, daí queríamos lançar algo diferente. Uma amiga nossa falou: “Vocês podiam lançar fita cassete” – ela falou meio brincando, mas a gente comprou na hora. Daí a ideia depois do escambo, de trocar cinco fitas cassetes por uma fita do Acústico Sucateiro e transformar as fitas coletadas para regravar e revender, que fechava o ciclo de reciclar sucata – primeiro como instrumento, depois com a fita. É muito interessante, vendeu mais do que a gente esperava. Sempre teve a resistência de não saber onde ouvir, mas a maioria das pessoas entende que é o valor é do objeto, um souvenir, porque para ouvir as músicas é só baixar no site.

Mb: O que você tem aprendido sobre o público ao tocar em diferentes partes do Brasil? Kumpinski: Fico feliz por sentir que o público tem sido cada vez mais curioso e estado disposto a curtir o que se propõe diferente, interessante, criativo, mais do que algo que repita alguma fórmula já criada, e tem muita banda, muito artista, fazendo justamente isso. Tem muita gente criando muita coisa legal, mas o problema é que não se consegue escoar muito dessa produção pro grande público, porque a gente ainda tá muito preso nas redes sociais pra chegar aos ouvintes. Tem muita gente no Brasil todo fazendo coisa muito boa, mas não tem o público que mereceria por culpa do sistema midiático que o país tem.

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ARTISTA: Apanhador Só
MARCADORES: Entrevista

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.