Entrevista: Baleia

Banda carioca nos conta sobre o processo de criação do álbum “Quebra Azul”, uma das maiores surpresas da temporada

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Baleia é uma banda que começou no Jazz, se destacou fazendo versões cover de músicas Pop nesse estilo e agora lançou seu primeiro álbum, que mistura uma enorme gama de referências brasileiras com uma alma Post-Rock”. Essa foi a maneira mais clara que eu encontrei para tentar começar a explicar a banda e seu trabalho em Quebra Azul – uma das mais agradáveis surpresas da temporada.

Porém, sempre que eu leio uma frase dessas, mesmo que de minha autoria, fico preocupado que ou um disco tão denso está sendo explicado muito levianamente, ou dou margem de interpretação para alguém achar que trata-se de mais um desses grupos pedantes e intelectualóides (adjetivos frequentemente exalados por músicos muito atento às raízes brasileiras e/ou que se aventuram por criações menos “dentro da caixa”). Só que a sensibilidade dos versos da banda, com teores tão pessoais, desmerecem o sexteto de uma classificação dessas (ufa!).

Para nos certificarmos de uma vez por todas qual é a do grupo, conversamos por email com três dos seis músicos de sua formação: Felipe Ventura, Cairê Rego e Sofia Vaz, que nos contaram sobre o processo de criação do álbum e o trabalho com os produtores (Lucas Ariel e Bruno Giorgi).

Monkeybuzz: Como foi o processo de deixar de cantar música dos outros para mostrar ao mundo suas próprias criações?

Felipe: A banda começou de maneira bem leve. Cairê e Sofia tiveram a ideia de ensaiar standards de Jazz pra tocar em festas e eventos de amigos e foram convidando as pessoas próximas, que estavam querendo se divertir, para fazer parte. Essa é a formação da Baleia até hoje. Ninguém imaginava que iríamos chegar onde chegamos, do ponto de vista musical. Mas, com o tempo, fomos descobrindo que tínhamos muita afinidade musical e a banda foi deixando de ser um “projeto específico”, para se tornar a banda que todos, no fundo, gostaríamos de ter. Isso implicou, num primeiro momento, em fazer versões de canções que não eram Jazz (Radiohead, Dorival Caymmi) e, em seguida, começamos a trabalhar nossas próprias ideias.

Cairê: Na verdade, em nosso primeiro show já tocamos três músicas próprias, mas elas todas eram presas na idéia de que éramos uma banda de Jazz. Mas aí surgiu Furo e o cover de Dorival que explodiram tudo…

Mb: Que papel Quebra Azul tem para firmar a identidade da Baleia?

Sofia: É o primeiro álbum da banda, o primeiro corpo de trabalho. Acho que não firmamos nada, ainda. A sensação é que estamos em um processo que não terminou, e espero que nunca termine. Gosto de acreditar que a identidade de uma banda é algo volúvel, sintetiza um período de tempo em que determinadas influências e anseios estavam aflorados no grupo.

Felipe: Só queremos que o álbum provoque o ouvinte da mesma forma que ele nos foi provocante enquanto criadores.

Mb: Em algum momento, o trabalho com os dois produtores tinha a direção de mostrar mais quem a banda é? Como foi a experiência de trabalhar com eles?

Cairê: O álbum nunca se propôs a ter algum tipo de afirmação ou um rompimento explícito. Ele é um reflexo natural das vontades musicais que temos hoje, fruto de um processo inevitável de abertura para as influências individuais e de experimentação.

Sofia: Gravamos as músicas da forma que quisemos. O trabalho real com os produtores aconteceu no segundo estágio: Tentar solucionar oito músicas extremamente difíceis e conflitantes dentro delas mesmas e do disco. Eles tiveram um papel fundamental na lapidação dos sons e dinâmicas do álbum. Demos carta branca para que eles propusessem e brincassem com tudo que tinham vontade. Foi super gratificante.

Mb: As músicas são todas assinadas pelo grupo como um todo. Como é o processo de criação dos seis juntos?

Felipe: É muito louco, pra falar a verdade. Chega a ser difícil de responder, ainda não entendemos muito bem como isso funciona, mas, de alguma forma, funciona. A opção de deixar em aberto a função de cada um no álbum é porque trabalhamos intensamente em conjunto, em todas as dimensões, seja o arranjo, as melodias e até as letras.

Cairê: Todo mundo se envolve com o trabalho de todo mundo. Às vezes, é enlouquecedor. Estar nessa banda é como um exercício constante de desapego e anti-individualismo (risos). Mas, no final, todo mundo fica bem mais feliz com o resultado.

Mb: Sobre as letras, elas parecem ter uma dose grande de pessoalidade, mesmo as cujos versos são menos figurativos. Essa unidade da Baleia nas composições aparece como uma coletividade nas experiências cantadas (alguns ou mesmo todos vocês se sentem dessa forma) ou ajuda o autor a não precisar se expor ainda mais com seu nome?

Cairê: Acreditamos que um álbum pode ser um projeto fechado, dotado de alguns sentimentos, significados e símbolos inerentes a ele que só são acessados quando ele é visto como uma obra única. Dentro desse pensamento, que coube muito bem no Quebra Azul, todos os desdobramentos e informações contidas no disco (desde a escolha da capa à ordem e numeração das faixas) devem ser informações relevantes, que sirvam para te aproximar de alguma forma dele. Achamos que a associação da composição de certa música com um integrante específico não é uma informação relevante para a compreensão do álbum, e pode até causar um distanciamento do todo. Por isso, não diferenciamos.

Felipe: Além disso, algumas letras vieram sim de experiências compartilhadas, como Furo 2, e outras foram escritas a várias mãos, como Breu.

Baleia

Mb: As escolhas estéticas da banda para as oito faixas vieram naturalmente, com combinações que vocês sentiram que ficariam boas, ou foi um trabalho mais objetivo, mais “experimental”?

Cairê: Foi uma mistura dos dois. O arranjo de Motim, por exemplo, foi criado a partir dos ritmos, as ideias percussivas foram o fio condutor. Furo surgiu como uma balada jazzística que fomos desconstruindo até virar do avesso. Breu foi construída em torno de uma pequena melodia que a Sofia fez. Algumas canções vieram com propostas mais resolvidas, enquanto outras mal existiam como música.

Sofia: Dentro de qualquer trabalho de criação, existe uma proposta que na verdade está comunicando um contexto na qual ela foi produzida. A gente tem uma vontade natural de evitar caminhos cômodos para desenvolver as idéias que surgem espontaneamente. Imagino que isso seja um reflexo do que a gente busca como ouvintes de música.

Mb: A impressão que temos de Quebra Azul ainda é a primeira, mas vocês estão há praticamente dois anos trabalhando ao redor do álbum. Quando olham pra esse tempo, que “cara” o disco tem pra vocês?

Felipe: Isso é engraçado. A gente não sabe o que achar. Estamos muito orgulhosos, é claro, mas, ao mesmo tempo, muito ansiosos pra ver se as pessoas vão se conectar com ele.

Cairê: Logo antes do disco sair, achava que ele estava uma confusão, que ninguém ia entender nada, que éramos malucos. Logo depois, no dia que ele saiu, me lembro de conseguir ouvir ele pela primeira vez como algo pronto, como ouvinte mesmo. E gostei.

Sofia: O longo tempo que levamos pra fazer o álbum veio, é claro, da nossa obstinação e paciência, mas também porque ainda não podemos sobreviver só de música. Não tínhamos tanto dinheiro pra investir, usufruímos da crença e amizade de todos os envolvidos; entrávamos em estúdio pra gravar durante as madrugadas, dedicamos o máximo do nosso tempo livre a ele. Agora está pronto. Podemos mostrar pros nossos amigos, pra nossa família, pra todos que são e foram, também, nossa inspiração. Esse disco é, antes de mais nada, uma grande realização pra nós. Todo esse tempo, todo esse esforço, toda essa convicção já valeu a pena.

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ARTISTA: Baleia
MARCADORES: Entrevista

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.