Entrevista: Bixiga 70

Conversamos com dois dos integrantes do conjunto instrumental sobre suas influências e o processo de composição

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O combo paulistano Bixiga 70 acaba de lançar novo trabalho, novamente mergulhado nas águas plácidas dos ritmos africanos. Não é só “Afrobeat”, como uma certa “inteligentzia rítmica” insiste em dizer. No tacho do B70 há espaço para vários dos chamados “ritmos da diáspora”, ou seja, as interpretações feitas em territórios fora do Continente Negro sobre suas sonoridades. Isso significa falar em Caribe e Brasil, sobretudo. Conversamos com Décio 7 (bateria) e Daniel Gralha (trompete) para saber planos futuros e detalhes sobre o álbum, que já está disponível para audição e compra no www.bixiga70.com.

MB: Vocês estão lançando novo disco. Contem pra gente o que há de novo no horizonte do Bixiga 70.

GRALHA: O horizonte do B70 agora é tocar esse show novo que construímos. Ok, estamos bem felizes por estarmos com disco novo na praça, um disco que deu muito trabalho pra ser feito e fizemos com todo carinho e atenção que nos foi possível. Mas o que deixa a gente mais entusiasmado no momento é que estamos com um show novo no palco!! Estamos experimentando coisas que não estávamos acostumados até então, e até mesmo nem tinhamos substância para tanto. Hoje em dia temos um repertório mais amplo em termos de sonoridade, com uma maior variedade de ritmos e climas, e isso nos proporciona arriscar algumas coisas inéditas dentro do nosso show. Chegamos nesse resultado guiados pela experiência adquirida no palco nesse tempo em que estivemos apresentando o disco 1, de 2011. Tiveram alguns shows cruciais nesse nosso processo de abrir a cabeça pra outras possibilidades de palco, como os dois que fizemos em Recife (Rec Beat 2012 e Porto Musical 2013) e alguns shows da Europa, principalmente Rudolstadt (Alemanha) e Nantes (França). No nosso horizonte agora mora o desejo de levarmos esse show pra lugares ainda não visitados e amadurecer ainda mais nosso show e nossas composições, assim como retornar aos lugares já conhecidos com essas novidades que temos em mãos.
Dessa nova vivência vai sair muito do material que estará em nossas próximas gravações.

MB: Voltando ao início da carreira de vocês, como surgiu a ideia de fazer uma banda instrumental de ritmos africanos?

Décio 7 – Já era uma brincadeira antiga essa idéia meio utópica de montar uma pequena orquestra a fim de celebrar simplesmente o groove, a base, sem necessáriamente ter que se prender ‘a poesia, um cantor ou uma figura central. O foco era o todo, tudo. Instrumentista era nossa função na maioria das situações, acompanhando cantores e outros projetos. Existia uma certa necessidade de um lugar aonde o foco fossem apenas os arranjos, riffs, melodia e beats. Essa idéia veio a se consolidar dentro do estúdio Traquitana no inicio de 2010 quando fui convidado pelo Maurício Fleury para gravar bateria e percussão em uma faixa de um projeto dele em parceria com um trompetista de Chicago, o Ben Lamar. Após a sessão de gravação, ficamos escutando a faixa, curtindo pra caramba aquele clima dançante e concluímos: é isso!!, vamos recrutar um time pra fazer esse som. De alguma forma ali já existia um elemento Bixiga na faixa mesmo sendo uma canção com letra e tudo mais. Essa música “Grito de Paz”, foi incorporada ao repertório da banda e se tornou a faixa de abertura do primeiro disco da banda lançado em 2011.

MB Ouvindo o novo trabalho, é possível notar que vocês talvez tenham se sentido mais à vontade para abraçar sonoridades brasileiras e caribenhas, apesar disso tudo estar insinuado no primeiro disco.

DÉCIO 7: Sim, demos mais vazão para as Africas Brasileiras e Latinas. A música brasileira e latina estão muito presentes na nossa pesquisa coletiva atualmente.

GRALHA: Pois é, como disse o Décio hoje em dia essas sonoridades têm aparecido mais na nossa pesquisa sim. E como observado por você “apesar disso tudo já estar insinuado no primeiro disco” rolou um aprofundamento geral nas nossas influências e na nossa própria música, até em termos individuais mesmo, como instrumentistas. E com o aumento das ferramentas, individuais e coletivas, nesse mergulho em nós mesmos, nesse “nos pesquisarmos” essa brasilidade e latinidade acabou se aflorando um pouco mais mesmo. Assim como também aconteceu com outros elementos, e pelo mesmo motivo.

MB: Como funciona o processo de composição da banda?

GRALHA: O processo de composição da banda amadureceu bastante porque o entrosamento entre os 10 se fez maior. O que acontece é que alguém traz uma ideia pro grupo e trabalhamos em cima disso, geralmente isso surge de um ou dois, no máximo três integrantes. Por vezes, a ideia já chega mais andada e madura, por vezes mais crua, mas a gente nota que a composição se transforma bastante durante o processo, com todo mundo contribuindo uma parcela, descobrindo novas possibilidades, somando ideias, decantando o som. Esse trabalho coletivo tem sido muito enriquecedor e determinante no resultado final, por isso decidimos assinar as composições dessa forma que se vê no disco, o nome de quem trouxe a ideia inicial + Bixiga 70.

MB: O novo disco foi gravado em apenas 4 dias. Mesmo com dez pessoas na banda, vocês já chegam com tudo definido na hora de gravar?

GRALHA: Na verdade foram 5 dias de gravação, das 14h ‘as 22h. Mas o grosso foi feito antes; dois meses e meio de ensaios intensivos. Teve semanas de írmos todos os dias pro estúdio em ensaios de 6 a 8 horas. Queríamos maturar ao máximo cada detalhe das composições, cada trecho, cada ponte, cada abertura de voz, experimentando todas as sugestões que ocasionalmente surgiam durante o processo. Alguns ensaios “setorizados” também aconteceram: só de naipe de sopros, só de percussão, só cozinha. Tudo porque SIM, quisemos chegar com tudo definido pra hora H. Outro motivo importante pra termos mergulhado nesse intensivo foi também pra nos familiarizarmos ao máximo com as músicas de forma a tocá-las espontaneamente e a sonoridade ficar o mais próxima possível do “ao vivo”, o grande porquê do disco ter sido foi feito com os 10 gravando ao mesmo tempo.

MB: A banda produziu os dois discos que lançou até agora. Vocês têm um produtor dos sonhos para pilotar o estúdio pro Bixiga 70?

GRALHA: Bom, a gente tem ficado bastante satisfeito com o resultado alcançado dentro desse formato. O processo todo do Bixiga 70 é muito ímpar, porque envolve uma química dos 10 juntos construindo uma sonoridade X, sem se saber previamente qual é – pelo menos até aqui. Essa busca por uma sonoridade em que todos se sintam contemplados dentro daquilo que enxergamos ser o som é bem delicada. Até agora tivemos a sorte de ter o suporte importantíssimo de pessoas de fora, todas bastante sagazes pra harmonizarem dentro dessa dinâmica. Mas o trabalho de um produtor é mais profundo do que algo que experimentamos até agora. Estamos ansiosos por trabalhar com alguém que possa potencializar o temos em mãos. Uma pessoa que saiba entender nosso processo e realmente nos amplie a maneira como enxergamos nossa própria música. Será enriquecedor. E um desafio pra ambas as partes. Alguns nomes já vieram ‘a tona sim, mas não acho que chegamos a falar em ninguém como sendo um produtor “dos sonhos” não. Vamos ver o que acontece.

MB: Além de vocês há outras bandas brasileiras enveredando por esse caminho afroinstrumental. Vocês atribuem essa tendência a algum fator ou é uma espécie de “geração espontânea”?

GRALHA: Me parece como espontâneo. Há uma antropofagia já histórica na nossa construção enquanto povo brasileiro, o que acaba se refletindo na arte (e não nos falta exemplos de belíssimos resultados disso). Agora, acredito que de tempos em tempos se olhe mesmo pra trás em busca do que veio antes, até pra se entender melhor o que se faz no agora. Fundindo o passado com o presente. ‘As vezes querendo, mesmo sem a pretensão consciente, se apontar direções pro amanhã. De fato podemos notar essa tendência citada por você, o que é curioso. Talvez a internet tenha sido determinante, possibilitando um contato bem mais acentuado a coisas que não se teria como acessar antes, como gravações caseiras de rituais e eventos folclóricos/tradicionais dos povos mais distantes de onde quer que você seja oriundo. Nessa, nós, por termos maior afinidade com a música africana nos enveredamos por aí, porque de qualquer forma a música popular brasileira contém uma fatia imensa de África. E, abrindo o zoom, a maior parte da música Pop mundial carrega a influência da música negra. O que talvez explique o porque disso ocorrer também em outros cantos fora do Brasil.

MB: Desde o lançamento do primeiro disco vocês rodaram o Brasil e se apresentaram no exterior. Já há algum plano de turnê para divulgar o novo disco?

GRALHA: O plano de turnê está se desenhando pouco a pouco. Somos um grupo grande, 10 músicos + equipe, e não é nada fácil colocar uma banda assim na estrada. Estamos todos trabalhando pra quebrarmos essa barreira e viabilizarmos nossa ida a cantos ainda inéditos pro Bixiga 70 e temos conseguido algum resultado. Temos shows no Nordeste, Sul e Centro-Oeste já bastante encaminhados em termos de negociação, com algumas apresentações inclusive já certas dentro dessas regiões citadas. O plano é irmos pra todos esses cantos no maior número de cidades possível, inclusive no Norte, aonde não chegamos ainda nesses 3 anos de banda.
E fora o Brasil obviamente temos a pretensão de voltar ‘a Europa onde já amarramos alguns bons contatos nas duas vezes em que estívemos lá. A primeira vez fizemos dois show (Holanda e Bélgica) e na segunda já foram 6 em cinco países (Suécia, Dinamarca, Alemanha, Holanda e França). Estamos negociando o lançamento desse novo disco por lá e vamos ver o que acontece. Estamos na torcida.

MB: Quais as maiores influências do Bixiga70?

GRALHA: Putz, essa pergunta teria de ser respondida pelos 10 e, apesar de aqui e acolá aparecerem algumas referências parecidas, teríamos as mais diversas respostas sendo escritas. É um caldeirão muito maluco. ‘As vezes acabamos levando alguns sons pro ensaio que não têm nada a ver com a nossa música pra alguém de fora, mas que pra gente faz todo sentido escutarmos e analisarmos alguns detalhes que acabam nos influenciando de alguma forma. E geralmente são coisas que escutamos no nosso dia-a-dia mesmo, cada um com sua própria gama de preferências.

Mas São Paulo acho que é a grande influência em comum. Tocamos, hoje e sempre, em diversos outros projetos musicais de segmentos bastante variados e isso acaba sendo fundamental na nossa formação, pesquisa e expressão. E a cidade, já a algum tempo, vem tendo uma cena muito rica e diversa. Nós todos, enquanto platéia também, acabamos sofrendo bastante interferência disso tudo. Felizmente.

MB: Para o pessoal que vai aos shows de vocês e sai querendo saber mais sobre as sonoridades africanas dos anos 70, quais discos e artistas vocês recomendam?

GRALHA : Tem algumas coletâneas muito boas que inclusive foram referência pra gente no começo de tudo, antes do primeiro ensaio. “Ghana-Soundz”, “Afro-Rock”, “Ghana Special” entre outras. No começo também trocamos alguns arquivos de música angolana, alguns albuns que eu nem sei o nome mas deixo registrado o disco “Angola 74”, do Bonga. A obra do Ebo Taylor é uma boa referência pra sacar essa sonoridade também, assim como K.Frimpong e African Brother Band. Mas diversos discos brasileiros também têm um teor riquíssimo dessa sonoridade que nos permeia. O próprio disco do Pedro Santos Krishnanda, de 1968, e“Os Tincoãs d’Os Tincoãs, de 1973, de onde tiramos as duas músicas não autorais dos nossos discos, são referências óbvias mas que devem ser citadas. E não só esses discos como a maior parte da obra desses artistas e outros relacionados. Vale muito a pena a pesquisa: Georgette, Amado Maita, Antonio Adolfo, Conjunto Baloartes, Grupo Sambafro, até mesmo Candeia tem algumas coisas meio fora da curva daquilo que ele é mais conhecido.

MB: O novo disco está disponível para venda em CD e vinil e para download sem valor definido, podendo ser baixado de graça. Como é o comportamento do fã de música nessa hora? Contribuem com algo?

GRALHA: Olha, o nosso fã tem se comportado de maneira bastante positiva e estamos bem contentes com a receptividade pra com esse disco, tanto de quem já acompanhava a banda quanto de quem tomou conhecimento agora. Vemos as pessoas divulgando bastante nosso link do disco, por vezes com alguns comentários bem entusiasmantes. A contribuição em termos financeiros não é lá muito substancial, e podemos colocar diversos fatores pra que seja assim no Brasil, mas acontece bastante das pessoas baixarem o arquivo do disco e depois comprarem o físico. Desconfio que isso seja mais frequente até. De qualquer forma só de acontecer esse grande interesse em nossa música já é bastante gratificante, e muitas vezes as pessoas acabam retornando pra deixar alguma mensagem no site ou via redes socias, o que recebemos sempre com muita atenção e carinho.

E, o mais importante talvez, as pessoas têm vindo ao show. E mesmo quando elas mesmas não podem ir acabam divulgando nosso show. Isso tem sido fabuloso. Diversos shows com lotação máxima, essa eu acho que é a maior contribuição que o nosso fã nos tem dado.

MB: Qual o segredo para uma banda instrumental de dez integrantes, tocando afrobeat sobreviver num cenário musical como o nosso? É possível ultrapassar a barreira da internet e chegar a um público maior?

DÉCIO 7: O nosso segredo é o mais manjado de todos: o trabalho. Procuramos manter nossos encontros com frequência e dessa forma achar uma solução criativa e propositiva pra todas as adversidades que um projeto com esse perfil atravessa. De alguma forma, todo esse pacote de adversidades para sobreviver de arte no Brasil contribui pro resultado artístico. Acho que também não se limitar a nenhum estilo musical ajuda a ampliar nossos horizontes, alcançar variados públicos e nos alimenta mantendo sempre acesa a chama da criação e pesquisa. O surgimento da internet informática foi fundamental para artistas que não trabalham associados a grandes corporações ou formatos artíscos previamente estabelecidos pelos meios de comunicação ou indústria fonográfica. Ela modificou e ampliou nossos horizontes. Ficamos muito felizes e satisfeitos com o alcance do nosso som proporcionado pela rede até agora e o feedback que recebemos de vários cantos do país e do mundo. É gratificante, mesmo que ainda não tenhamos pernas pra visitar todo mundo!.. Na real, o que realmente espero é que a internet e todos outros meios de comunicação ultrapassem a barreira da manipulação da informação e que todos os seres humanos sejam livres e aptos para pesquisar o que lhes interessa.

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ARTISTA: Bixiga 70
MARCADORES: Entrevista

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.