Entrevista: Câmera

Quarteto mineiro é dono de um dos melhores discos de 2014

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Câmera é uma banda que acompanhamos desde 2011, mesmo antes do site ir ao ar em 2012. Desde então, nossa relação com esse quarteto só aumentou, com o lançamento das faixas que sucederam os EPs Invisible Houses e Not Tourist até a chegada de seu ótimo disco de estreia, Mountain Tops.

Dois anos e meio após nossa primeira entrevista com a banda, é chegada a hora de falar das novidades do grupo, da gravação deste disco e do que está por vir. Sugiro que dê o play em Mountain Tops enquanto lê o resultado do bate-papo que tive com o guitarrista Matheus Fleming.

Monkeybuzz: Vocês vinham de dois EPs, gravados em 2011, e lançaram o disco só agora. A que se deve o grande período de gestação do álbum e como o processo de gravar essas obras menores contribuiu para o resultado de Mountain Tops?

Matheus Fleming: Somos todos muito atarefados, essa é a verdade. Demoramos praticamente um ano dentro do estúdio gravando as músicas e mais alguns meses na parte de mixagem/masterização. Estivemos envolvidos em todas as etapas de produção e isso toma muito tempo. Gravar os EPs ajudou em definir como soaria o Câmera. Falo de questões técnicas: amplificadores, guitarras, ambiente, microfones. Experimentamos muitas possibilidades nos EPs, fomos para um estúdio profissional e chegamos até a gravar em casa. Para o disco decidimos dar um passo além e aumentar ainda mais a definição e captação disso tudo. Por isso tanto tempo, tivemos muito cuidado em todo o processo. É o disco de nossas vidas.

Mb: Dá para sentir alguns ecos da música dos anos 90 no trabalho de vocês, principalmente bandas como Pavement e Sonic Youth (que, inclusive, vocês já fizeram covers em alguns shows). Qual é a relação de vocês com essa época e até que ponto essas bandas são suas influências?

Matheus: Crescemos nos anos 90. Aprendemos a tocar guitarra nessa explosão que foi compartilhar músicas em fita K-7, bater na casa de fulano de tal porque era ele quem tinha determinado disco. Gostamos muito de bandas dos anos 90, poderia citar centenas delas, mas não ficamos só nisso. A década de 90 influência a gente assim como outras, mais antigas ou mais novas. Todos da banda escutam música o tempo todo e é ótimo descobrir novos sons (para nós) dos anos 60, por exemplo, ou mesmo de agora. Mas também concordo que o resultado final do nosso som é mais puxado para os 90’s. É o que somos, o que vivemos.

Câmera

”Novo e retrô são percepções de quem escuta, pra gente é tudo muito natural”

Mb: Ao mesmo tempo em que há tendências daquela década, a obra de vocês me soa muito contemporânea. Como vocês enxergam o diálogo entre o novo e retrô em sua música?

Matheus: Esse diálogo vem das influências da vida, não só da música. Existe uma mistura grande no Câmera, que é fruto da nossa maneira de compor. Todos contribuem com suas partes e ainda dão um pitaco nos arranjos alheios. Novo e retrô são percepções de quem escuta, pra gente é tudo muito natural.

Mb: Os dois primeiros EPs de vocês foram lançados de forma independente e o álbum foi lançado por um selo, Balaclava. O que isso tem a agregar para carreira de vocês?

Matheus:Escolhemos a Balaclava porque acreditamos no trabalho deles e admiramos as escolhas que eles fazem. E também queremos atingir mais pessoas, ir além das Minas Gerais, por isso um selo com grande repercussão. Sempre existe uma realização pessoal em produzir um som, um disco, mas no final das contas, nós queremos é tocar e compartilhar essas nossas criações.

Mb: Como vocês tem percebido a reação do público em relação as faixas do novo álbum? E como foi o processo de transportá-las para os palcos?

Matheus: Desde 2011, tem surgido material que acabou entrando no disco e a maioria das músicas tem mais de dois anos que foram compostas. Quem acompanha a banda ao vivo percebeu essas músicas amadurecerem. Agora, com elas finalmente lançadas, estamos tendo uma resposta muito positiva. Algumas mais até do que esperávamos, como Desolation Peak, que é uma música instrumental e que divide o disco. No palco, ela ganha muito com a dinâmica que impomos para a parte caótica. No show, sempre procuramos executar o mais próximo do registro no disco. Por exemplo, foi necessário acrescentar um teclado no palco para podermos tocar algumas músicas, pois no disco gravamos esses elementos. Além disso, uma grande diferença das gravações para o ao vivo é a bateria. Quem a gravou e a compôs foi nosso antigo baterista, Gustavo Simoni, e agora estamos com um novo membro nas baquetas, Diogo Gazzinelli.

”Demoramos na definição do título e da capa. Veio nos acréscimos do segundo tempo e foi bom ter esperado tanto, pois ele encaixou perfeitamente no que foi o processo de composição e gravação do disco. Como numa escalada, que depois de tanto empenho, há uma vista privilegiada como resultado final”

Mb: Ao que me parece, título e capa tem uma relação muito especial com o ambiente que cerca a banda. Qual é a relação de vocês com Minas Gerais e como ela aparece na música de vocês?

Matheus: Demoramos na definição do título e da capa. Veio nos acréscimos do segundo tempo e foi bom ter esperado tanto, pois ele encaixou perfeitamente no que foi o processo de composição e gravação do disco. Como numa escalada, que depois de tanto empenho, há uma vista privilegiada como resultado final. Minas Gerais é um estado muito grande, muito diversificado, cheio de extremos. Nossa capital é muito nova, muito tradicional também, e tem gente de tudo que é canto aqui, principalmente do interior. Isso faz com que as pessoas sejam mais receptivas/desconfiadas, observadoras, é o jeito do mineiro. A gente vive aqui, então tudo isso influência.

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Mb: A Psicodelia sempre esteve presente na musicalidade da banda, porém, acho que ela aparecia de forma mais tímida nos EPs, o que não acontece no disco, principalmente em Lost Cause, I Surrender!. O que mudou para vocês assumirem esse lado mais psicodélico da banda?

Matheus: Nos EPs, ainda estávamos modelando nossa identidade. Percebendo quais caminhos nossas misturas tomavam e como isso nos agradava. O que mudou foi que agora já tocamos há mais de três anos juntos, nos conhecemos melhor e nos propomos a compor músicas mais desafiadoras.

Mb: A cena mineira, principalmente a de Belo Horizonte, me parece estar ganhando cada vez mais força e vem revelando bons nomes nos últimos anos. Quem desse novo sangue belorizontino vocês acham que nossos leitores não podem ficar sem conhecer?

Matheus: Principalmente a cena instrumental tem crescido bastante. Nossos amigos do Pequeno Céu tem ousado bastante em misturar tudo quanto é tipo de sons. Melodias complexas, guitarras matemáticas, noise dissonates, ritmos variados dançantes e climas suaves. Vale a pena conhecer o som. Eles estão por lançar seu debut. Atenção nesses caras.

Câmera

Mb: Escrevi na minha resenha que Mountain Tops representa uma gama de sentimentos universais tão grande que depende do ouvinte a tarefa dizer que tipo de energia ele traz à tona. Vocês tiveram esse tipo de reposta por parte de outros ouvintes ou comentários neste mesmo sentido?

Matheus: Isso é o que a arte proporciona. Esse reflexo pessoal que cada um identifica de maneira única. Os comentários sobre as músicas novas são realmente bem amplos, podemos perceber isso também no público dos shows. Pessoas com interesses variados nos sons: melodia, barulhos, distorção. Muitos estão surpresos e admirados pela mistura. O que é extremamente gratificante.

Mb: E eu sei que vocês tem várias apresentações marcadas para os próximos meses, incluindo a abertura para o show de Real Estate. Qual a expectativa de vocês para essa apresentação?

Matheus:Será uma grande oportunidade de apresentarmos nosso novo disco para pessoas que gostam de sons alternativos e que ainda não conhecem o Câmera. Estamos muito empolgados com esse show!

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ARTISTA: Câmera
MARCADORES: Entrevista

Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts