Entrevista: Cérebro Eletrônico

Banda contou ao Monkeybuzz em trocas de emails sobre o disco “Vamos pro Quarto”, a carreira e a música feita hoje pelo mundo

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Tatá Aeroplano, Fernando Maranho, Gustavo Souza, Fernando TRZ e Renato Cortez, que assinam juntos sob o nome Cérebro Eletrônico, chegaram ao seu álbum número quatro e o resultado é mais uma obra cheia de composições feitas fora da caixa (ou bem longe dela) com alto valor musical e criativo.

Vamos pro Quarto parece expandir ainda mais o universo da produção do quinteto e, com sua grande habilidade em nos surpreender, conseguiu cativar nossa atenção e conquistar seu lugar entre um dos discos de maior destaque da temporada.

Trocamos alguns emails com três quintos do conjunto sobre o álbum e shows. O resultado você lê abaixo, após o play.

Monkeybuzz: Uma impressão que temos em todos os trabalhos da Cérebro Eletrônico, inclusive em Vamos Pro Quarto, é que vocês tem muita liberdade na hora de compor e gravar. Como é feita essa escolha de criar “sem rédeas”? Tem momentos em que vocês precisam pisar no freio e se redirecionar?

Tatá Aeroplano: A gente sempre buscou canções que fossem um pouco fora da casinha. Em Pareço Moderno tem Os Astronautas com participação e parceria com o Abujamra, em Deus e o Diabo tem o Fabuloso Destino do Chapeleiro Louco, agora em Vamos pro Quarto foi sem freio total. Pisamos fundo e quando vimos o disco já estava pronto. Foi um processo realmente de tirar o fôlego de alguns, era “vamos, vamos, vamos, vamos” e, quando vimos, o lance tava pronto. Posso dizer que continuamos sem freios.

Renato Cortez: Compor e gravar são momentos bem distintos. Nesse disco especificamente, não houve freio na composição. Não gastamos energia alguma na censura. Tudo o que captamos no ar das montanhas foi impresso, registrado. Tudo muito fácil. Se ficasse difícil, é porque não era o momento daquele som surgir. Inclusive, muitos dos temas surgiram com os instrumentos trocados. O TRZ fez umas linhas de baixo incríveis! O Maranho também pontuou umas baterias muito legais. E como estávamos registrando tudo, não nos preocupamos em arranjos ou em detalhar, absorver, encaminhar melhor a música. Gravar esse disco, finalizar um álbum com nove faixas entre tantas idéias e conceitos que surgiram, esse sim foi um trabalho um pouco mais pé-no-chão. Escolher, editar, é por si só uma censura. Esse talvez foi o único momento de “encostar nas rédeas”. Porém, optamos por começar as gravações das faixas que estavam mais “prontas”. Que tinham idéias mais claras. Não foi uma escolha estética, ou por qualidade de composição. Tem muita coisa que ficou de fora que daria outro disco, talvez até melhor que esse! Quando completamos nove faixas, ouvimos e decidimos finalizar por aí. Foi no estúdio Submarino Fantástico que arranjamos tudo. Formatamos, demos cores ao disco. Mais uma vez, sem rédeas. As músicas já sabiam o que queriam. Só entregamos. Gravamos tudo ao vivo, banda mesmo.

Mb: Em Vamos Pro Quarto, parece que a sonoridade da banda diminuiu um pouco na parte eletrônica e deu mais espaços para as influências do Tropicalismo. Como foi essa escolha?

Fernando Maranho: Nós fomos, aos poucos, ficando menos eletrônicos ao longo dos discos. Começamos com o primeiro (Onda Híbrida Ressonante) que era bem eletrônico e, ao longo do tempo, fomos ficando mais orgânicos. No entanto, ainda temos synths em várias músicas e beat na Canibais Ancestrais. Acho que o modo em que criamos o Vamos pro Quarto não deu muito abertura para o eletrônico. São cinco caras fazendo som em um chalé. Não que isso impeça de fazermos algo mais eletrônico, novamente, no futuro.

Cérebro Eletrônico

Mb: Como é manter o projeto vivo e conseguir chegar ao quarto lançamento?

Tatá: É só continuar compondo, tocando, fazendo shows, e isso a gente sempre fez. Enquanto tivermos músicas, faremos discos. Eu não consigo parar de compor e criar, é um vicio.

Fernando Maranho: Acho também que o que nos mantém juntos ao longo desses anos é a admiração que temos entre nós, a maneira como nos damos bem pessoalmente e musicalmente e, especificamente com o Cérebro, acho que é essa nossa vontade de subverter, de fazer sempre diferente. Sempre olhamos pra trás e pensamos no que podemos fazer de diferente do que já fizemos. E mesmo durante o processo de composição. Se uma música aparentemente é uma balada, que ela vire um hardcore.

Mb: Bem interessante a faixa escondida, “No Quartinho”, que soa como uma arte pela arte, trabalhando com inserções aleatórias e caóticas de sons por 22 minutos. Qual foi a ideia da banda para ela, e como foi a escolha para ser uma faixa escondida/extra?

Maranho: Tínhamos muitas ideias de músicas que fizemos no sítio que não entraram na gravação final. Essas ideias fazem parte da história do disco da mesma maneira que as demais músicas que foram gravadas no Submarino Fantástico. Então, resolvemos fazer essa colagem que é muito legal porque mostra parte dessas músicas que adoramos, ao mesmo tempo em que traz toda a atmosfera e carga emocional do momento criativo que rolou durante a imersão. A banda Smashing Pumpkins tem uma faixa chamada Pastichio Medley no EP Zero, que é basicamente a mesma ideia. São sobras do álbum Mellon Collie and The Infinite Sadness. Como sou muito fã da banda e sempre pirei nessa faixa (sempre fui louco por escutar as músicas inteiras), achei que a gente poderia fazer o mesmo com o Cérebro.

Mb: Vocês tem acompanhado essa nova onda da Psicodelia no mundo da música, como bandas como Of Montreal, Pond, Tame Impala e os brasileiros do Boogarins?

Tatá: Posso dizer que sou amante do Of Montreal. Gosto muito de Tame Impala e adorei a banda Foxygen! Vou dar um play agora nos Boogarins para sacar o som deles, ainda não escutei! Escuto muito Cidadão Instigado e Jupiter, Supercordas, Porcas Borboletas, Vanguart, essas bandas dialogam com esse universo da Psicodelia. MGMT também.

Maranho: Em 2010, inclusive, no Festival Planeta Terra, eu e o Tatá pudemos conversar um pouco e entregar o Deus e o Diabo no Liquidificador pro Kevin Barnes, do Of Montreal. Já curtíamos muito o som deles. O Tame Impala eu conheço desde o Innerspeaker. É muito bom, também. Eles tem muito do Pink Floyd no começo.

Cérebro Eletrônico

Mb: Como é o trabalho de levar para os palcos o que vemos nos discos?

Tatá: O show do Vamos Pro Quarto funciona como uma dessas peças de teatro meio cinema pornochanchada. Até enviei um email pra galera do Cérebro, não lembro mais o que tinha dito, mas era algo que esse show novo do Cérebro é bem cinematográfico. Cinema nacional maluquice na veia. Levar o disco pro palco tem sido ducaralho!

Cortez: É preciso desapegar. Os discos têm um cuidado minucioso, onde cada fração de segundo é trabalhada, montada e aprovada. Se o primeiro take valeu, ótimo. Se não passou no crivo da banda, toca de novo até encaixar. Além disso, a escolha dos planos, dos ambientes, das temperaturas… Cada música traz sua vida em três minutos. Levar isso pro placo, nessa complexidade e beleza, equilíbrio e potência… Isso é complicado. Dá pra fazer? Dá. Eu vi o In Rainbows do Radiohead em São Paulo e era bizarro! O som da bateria mudava completamente de uma música pra outra. Era o disco sem pôr nem tirar! Mérito pros caras. O dinheiro possibilita infra-estrutura, que possibilita complexidades e muitas pessoas trabalhando em função do espetáculo.Pra nós, artistas-pedreiros, dependentes de migalhas em notas de R$50, fica difícil botar esse elefante pra circular. Desapego é o lance. Mas não é descaso! É tratar como outra peça de arte a ser realizada. Afinal, somos músicos de palco antes de mais nada. É na frente do público que desenvolvemos nossa arte. Esse disco tem muita teatralidade que o Tatá trouxe nas letras. Na hora de montar o show, o disco renasceu. Agora podemos de fato aproveitar essas músicas. A troca de figurino traz o ambiente que no disco fica só no imaginário. O palco, nesse caso, transcendeu o fonograma! Um brinde aos pássaros!

Mb: Como vocês enxergam o momento em que a música brasileira está hoje?

Tatá: A música brasileira e a mundial vivem um momento mágico e fantástico. Não tem mais indústria, né Agora tem muita música foda rolando, tá bom demais, bicho!

Maranho: Acho que não só a música brasileira, mas de um modo geral, está voltando pro lugar onde esteve em 99,9% da história da humanidade. Sem indústria, sem massificação, livre e cada vez mais criativa.

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MARCADORES: Entrevista

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.