Entrevista: Don L

Com show anunciado no Rec Beat durante o Carnaval, rapper conta mais sobre seu trabalho

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Fotos: Larissa Zaidan

Dono de um dos melhores álbuns de 2017 (o elogiado Roteiro para Aïnouz Vol.3) e também uma das melhores faixas do ano, o rapper cearense Don L falou ao Monkeybuzz sobre sua carreira, seu processo criativo e também sobre o Carnaval.

Isso porque ele se apresenta no festival Rec Beat, no Recife, durante o feriado (no domingo, 11 de fevereiro), nesta que é sua estreia em um evento desse porte. Por telefone, ele afirmou: “Fico muito feliz dessa estreia ser no Nordeste, no Recife, onde tenho muitos fãs e me sinto em casa”.

Monkeybuzz: Sua participação no Rec Beat não é um mero show de festival, mas uma participação em um evento gratuito, em local aberto, no meio do Carnaval. O que isso significa para você? Don L: É foda pra caralho. Pra mim, é mais um degrau. Eu tenho me preocupado em construir uma carreira sólida, sem grandes ascensões que não são sustentáveis, tento fazer as coisas no meu tempo, dentro das minhas possibilidades, para que seja tudo sólido, entendeu? Tá tudo a seu tempo.

Mb: Qual a sua relação com o Carnaval? Don L: É muito doida (risos). Quando eu era de menor, eu fui preso duas vezes no Carnaval. Eu fazia muita besteira, eu ia pra cidade do interior do Ceará onde o Carnaval é daquele jeito, tá ligado? Como deve ser o de Recife – multidão, muita onda. Fiz umas loucuras e traumatizei, achei que eu tinha azar pra Carnaval, parei de viajar e comecei a curtir mais sossegado. Depois que passou minha adolescência, eu fiquei mais adulto, comecei a curtir em Guaramiranga, uma serra próxima a Fortaleza que tem um festival de Jazz, mas também tem Carnaval de Marchinha e, por um tempo, eu tocava também em uma banda da rapaziada da capoeira, que eu participava, fazia um batuque lá. Mas era mais isso, pra ficar mais sossegado.

Mb: É curioso perceber como o Rap e o Carnaval possuem raízes parecidas, por serem vozes de rua, e da periferia. Você enxerga um paralelo entre os dois?
Don L: Sim, o Carnaval tem essa coisa de alívio, de descarregar essa energia toda que a gente tem, e o Rap tem muito isso, aquele lance de ser da rua, né? Ter o Rap em um evento do Carnaval, que acontece na rua e é de graça, é muito louco.

Mb: Pode ser interessante pensar em uma participação maior do Rap nesses eventos populares também nos próximos anos.
Don L: Sim, até porque o Rap tem se consolidado nos últimos anos como “Música Popular Brasileira”. Antes era muito de nichos, de tribos, e agora nós já temos tribos dentro do Rap. Isso é sinal de que a música já está em um nível de popularidade alta, já tomou uma proporção grande. Acredito que o Rap já está pronto para entrar nesses grandes circuitos.

Mb: Você se identifica como pertencente a alguma dessas tribos?
Don L: Cara, eu não sei classificar tribos dentro do meu público porque acho ele muito diversificado, e eu transito muito bem entre várias tribos diferentes. Para mim, o que importa não é essa classificação superficial, mas o trabalho que a pessoa tem ali dentro daquele contexto. Tem uma rapaziada hoje em dia que se identifica com o Trap e faz um trabalho legal dentro disso. Eu também faço Trap, mas também faço outras coisas, faço Boom Bap, faço tudo junto… Apesar de que isso das tribos tem muito a ver com postura também, e eu acho que tenho um público de várias tribos, de diversas idades e fãs de artistas de diferentes tribos do Rap.

Mb: Uma característica muito especial do Rap desde sempre é a narrativa autobiográfica, do rapper se expôr como personagem – em conversa com Rashid, até brincamos que parece Twitter, porque você sobe no palco e manda suas ideias. Este seu novo disco tem muito disso, não é? Don L: Eu sempre fui dessa escola do Rap, o autobiográfico, e na verdade o Rap que eu conheço é assim, tá ligado? A minha formação é toda dessa linha, de ser um bagulho muito autobiográfico e, no meu caso, muito emocional. Eu gosto de um Rap mais pessoal, que coloca o coração mesmo. Tem alguns outros rappers que fazem uma parada mais calculada – “vou falar desse assunto, falar com esse tipo de pessoa, fazer esse tipo de coisa” -, e eu já coloco a minha contradição, a minha vulnerabilidade, me exponho mesmo. É um bagulho meio louco às vezes, porque você nem quer se expor tanto, mas coloco muito de mim na letra. As pessoas hoje se expõem no Instagram, Facebook e Twitter, mas a gente já faz isso no Rap há muito tempo.

Mb: Sobre o conceito desse último disco ser um roteiro de um filme, como foi trabalhar essa “ficção” com uma carga verídica (autobiográfica) tão grande? Don L**: Ele nasceu porque eu estava pensando em uma forma de contar a minha história. Eu tenho uma caminhada grande no Rap, e um hiato no meio disso, e precisava explicar melhor para as pessoas essa história. E eu sempre faço as minhas rimas com um apelo visual natural, é a forma que eu componho, muita gente já me falou que, quando ouve meu som, consegue ver imagens. Quando eu estava com o bagulho quase pronto, eu já tinha até citado o Aïnouz em uma letra, pensei que, se isso fosse um filme, seria dele, porque ele faz um bagulho mais denso, saca?

Mb: Ainda sobre esse disco, a faixa que mais me chama atenção no todo é Cocainterlúdio com Thiago França, por ser uma quebra sonora muito brusca com o elemento orgânico tão forte. Me lembra gente como Kendrick Lamar e Kamasi Washington, todo um pessoal que é referencial ao nosso tempo. Quando você está compondo, como você pensa nesse diálogo com o que é tendência, ou com o que é contemporâneo?
Don L: Cara, vem numa forma muito natural. Uma coisa que acontece muito é eu estar pensando uma coisa e algum gringo lançar um bagulho bem nessa linha antes de eu lançar, tá ligado? Eu tenho usado Jazz junto de coisas eletrônicas já há muito tempo, desde Caro Vapor, antes do Kendrick fazer isso – a gente brinca que ele usou Don L como referência (risos). Daí eu escuto ele, escuto Kanye, esses caras que são contemporâneos meus, e a gente tem influências e até vivências parecidas, então eu penso que converso naturalmente com eles, mais do que seguir uma tendência que eles estabelecem. Quando eu faço música, tento me colocar entre os grandes, entre os caras que eu admiro. Não tento ser “o” Kanye West, mas tento estar entre Kanye, Kendrick e J. Cole. E eu sempre tive um lance de querer colocar toda a minha influência musical dentro do meu trabalho, o que é até impossível. Antes de conseguir produzir alguma coisa, lembro que trombei no Fernando Catatau uma vez em Fortaleza, tentei explicar o que queria fazer e ele disse: “Mano, é muito louco isso, tem muita coisa diferente, eu estou tentando achar uma liga. Mas, pensando bem, você é o que liga isso tudo”. Acho que o Rap me dá essa oportunidade, e é por isso que eu amo tanto Hip Hop. Você pode qualquer coisa nele, pode transitar muito. Para mim, é o estilo mais livre. Você puxa às vezes para o Rock, depois, quando vê, já está fazendo Jazz (risos).

Mb: Você sempre, ao longo da carreira, fez parcerias com outros músicos, tanto que há tantas participações no seu disco. Como é, para você, essa oportunidade de poder estar ao lado com outros artistas e como eles adicionam ao seu trabalho?
Don L: Cara, isso é uma das coisas mais importantes para mim, sempre foi uma das prioridades máximas da minha carreira, e acho que falta muito mais disso no Rap brasileiro. A gente precisa fazer mais colaborações. Eu dirijo meu trabalho, chamo quem eu quero chamar, e ainda não consegui nem metade do que eu quero. Poder colocar o Catatau em uma faixa, que é alguém que eu sou muito fã, um dos melhores guitarristas do mundo… eu poder mandar para ele alguma coisa minha e ele me devolver muito além do que eu esperava, de forma que muda toda a minha perspectiva sobre minha própria música… eu penso que, depois disso, eu vou ter que melhorar mais ainda, porque está muito mais foda do que eu pensei (risos). Ir para o estúdio com um cara como Thiago França, que é um gênio… eu expliquei pra ele o que eu queria, falei: “Mano, queria um Jazzão bem frito, tem a ver com essa ideia da música que vem antes”, coloquei umas imagens visuais, e ele veio com um bagulho que, toda vez que eu lembro, me emociono. É uma das músicas que eu mais gosto também, que eu escuto e nem acredito que é uma música minha (risos). Pretendo fazer isso cada vez mais.

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ARTISTA: Don L
MARCADORES: Entrevista

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.