Entrevista: Fábrica

Belíssimo álbum “Grão” reflete como a cabeça de Emygdio funciona, revela o músico, que contou ainda sobre os traumas da indústria fonográfica e a cena carioca

 3,729 total views

Fotos: Fotos: Maynara Fanucci/Monkeybuzz

Quem dá o play em Grão pode se assustar com a mudança pela qual passou o som do projeto Fábrica. Se antes ele vinha com uma pegada amigável e familiar para todos os que acompanham o que acontece no Brasil pós-Los Hermanos, sua música chega agora com ares bem diferentes, no que Emygdio Costa, o nome por trás da banda, descreve precisamente como “uma mistura entre Grizzly Bear e Edu Lobo”.

Em uma manhã sob o solzinho carioca, nos encontramos em um praça no Botafogo para conversar sobre as mudanças pelas quais o grupo passou desde o último ano, quando lançou seu primeiro e homônimo álbum, e seu processo de composição.

Monkeybuzz: Emygdio, eu preciso começar com esta pergunta: Fábrica é, afinal, banda ou projeto solo?
Emygdio Costa, da Fábrica: Cara, no início, eu sempre quis trabalhar com banda. Acho muito interessante a troca, mas a nossa geração toda é muito criada sozinha, focada nas suas coisas. Com a Internet e a facilidade que as coisas trazem, a gente consegue fazer tudo sozinho, né? Não depende mais de ninguém, mas eu sinto falta dessa troca de conversa, de diálogo, de um impulsionar o outro, influenciar o outro principalmente, sinto muita falta disso e acho que a partir do momento em que eu pude agregar pessoas perto de mim e trazer elas até a minha música eu quis fazer, que foi o que eu tentei fazer no primeiro disco, chamei vários conhecidos meus que acabaram virando amigos, irmãos de música, e tentei formar um grupo mesmo. Só que a vida é complicada e eu entrei em um processo difícil de cabeça e precisei me isolar um pouco e trabalhar a minha música de uma forma mais pessoal assim e minha ideia de querer formar um grupo e agregar pessoas a esse projeto acabou se esvaindo perante a essa empreitada nova, que é esse disco, e as coisas foram indo. Não foi nada muito planejado não, mas hoje acho que a Fábrica é mais um processo pessoal meu mesmo, acho que não tinha como ser de outra forma com as músicas que eu estava fazendo e o que elas significam pra mim. Mas eu não sei o que vai ser amanhã, pode virar uma banda de novo, não tem nenhuma diretriz.

Mb: Então, por que não usar seu próprio nome, ao invés de Fábrica?
Emygdio: Desde criança, eu tenho problema com meu nome porque ele é muito complicado (risos). Ninguém consegue falar meu nome, ele tem um Y e um G no meio que ninguém entende. Já saiu matéria com o nome errado, no show de estreia saiu flyer com o nome errado, então é difícil botar o nome. Mas também tem esse negócio que eu acho… eu não sei, eu não posso julgar os outros, eu posso falar por mim: Eu acho meio ególatra isso de “sou eu”. Eu gosto de agregar, eu gosto de gente, gosto de dividir – apesar desse ser um projeto pessoal -, então eu gosto de ter um “codinome”, acho mais interessante. E também te protege um pouquinho. Quando você está atrás de um nome, você pode fazer coisas que talvez não faria, eu não sei. É uma máscara que você coloca pra ser você mesmo. Se fosse Emygdio, eu teria restrições e não falaria coisas que eu falo por trás do nome Fábrica.

Fábrica

Mb: Os dois discos foram lançados em um espaço de apenas um ano, mas há muitas diferenças entre eles. A que você atribui isso?
Emygdio: Como eu te falei, rolou um processo psicológico destrutivo depois que eu acabei o CD, eu não tava nada, nada bem, tanto que eu fiz duas apresentações e eu não consegui mais tocar aquelas músicas. Aí eu fiquei numa encruzilhada violenta. A única coisa que me alimenta é música, eu não sei fazer outra coisa. Cheguei a estudar, quase me formei em publicidade, mas chegou uma hora que eu falei “não dá, eu sou músico, é isso e acabou”. E a coisa foi se agravando, estava há um ano sem compor nada, sem sair nada, mas não conseguia compor, estava num estado de nervos, em frangalhos, nada bem. Até o momento em que eu… Soa meio ridículo falar assim, parece que é mentira, “esse cara tá de palhaçada contando história de artista”, mas foi bem assim: Um dia, eu estava de madrugada muito mal, olhei pro violão, peguei e compus uma música de uma vez só completamente diferente das outras coisas que eu já fazia e eu voltei a me sentir bem com música. Voltei a ficar feliz, voltei a ser quem eu sou. Aí embarquei nesse processo de compor e gravar esse disco e foi muito interessante porque, de fato, me permiti fazer umas coisas que eu achava que eu não estava pronto pra fazer. Essas músicas todas, eu não podei nem na parte instrumental, na parte da música, nem as letras. O que me vinha na cabeça eu escoava no violão ou na caneta, sabe? E achei muito interessante, eu acabei me vendo escrevendo coisas que estavam dentro de mim e eu nem lembrava mais. Por exemplo, eu, quando era mais novo, era muito religioso e tal, mas hoje em dia eu sou ateu, e tem uma música que fala sobre Deus. Eu nem sei de onde surgiu aquilo, mas provavelmente tá dentro de mim em algum lugar dentro da minha cabeça. E achei curioso, porque botei pra fora coisas que eu não esperava que ainda tinha dentro de mim, e é bom quando você se surpreende com você mesmo. São composições do inconsciente, que eu antes tentava sentar, escrever, fazer a letra assim, fazer o arranjo assim, e dessa vez não. Tanto é que o disco não tem refrão, tem música que vai e não volta, e é bem isso, deixei minha cabeça funcionar como ela é. É aquele negócio, quando a gente tá criando, fazendo qualquer coisa no nosso mundo, eu tenho muitas ideias, as coisas crescem, depois diminuem, surgem e desaparecem, e o disco é meio assim – vem um coro do nada e depois acaba, vem uma frase que aparentemente é desconexa, mas ela faz sentido quando encaixa num outro verso à frente, que nem eu esperava que ia chegar também porque nem pensava que iria escrever aquilo, e acho que esse disco é o meu reflexo mais fiel, é um retrato dos meus sentimentos e de como minha cabeça funciona. E eu fiquei muito surpreso que as pessoas tenham conseguido absorver isso, porque é uma parada muito louca, muito pessoal. Eu acho o disco complicado de entender pra quem não sou eu, ou seja, pra todo mundo (risos). Mas me surpreendi com as pessoas entendendo e dialogando com um álbum tão pessoal.

Mb: Como foi esse processo criativo pra Grão?
Emygdio: A maioria das músicas surge quando eu tô tocando violão aleatoriamente assim, daí vem uma ideia e eu falo “pô, isso aqui tá me atraindo, tá me puxando”, então eu vou junto. Eu fico tocando, repetindo aquele violão várias vezes e, se não vem a música inteira, me vem blocos de frases assim, que eu sei que significam alguma coisa, então essa frase vai ficar. Na Córrego, por exemplo, tinha rolado um problema, peguei o violão e veio aquela frase “Lá fora tem um córrego, bebo água ali”. Aquilo me deu um conforto – sei lá por que, mas me deu um conforto. Mas eu espero, deixo, a música fica lá, às vezes as letras iam mudando com a forma que eu lembrava delas. Era uma coisa, aí passou um tempo, eu fui tocar de novo, ela saiu de uma outra forma e virou isso. Não tem nenhum processo certo não, é tudo bem aberto.

Mb: Como foi trabalhar referências musicais em função do conteúdo tão pessoal?
Emygdio: Eu acho que eu precisava de alguma forma dialogar com alguém e acho que a melhor maneira que eu tinha ali é a música, porque eu não sou muito relacionável com as pessoas, e eu nunca tinha de fato conseguido dialogar, me expor, com a minha música. Apesar de usar o nome Fábrica no outro disco, ainda tinha uma timidez – tinha umas coisas confessionais no outro também, mas rolava uma timidez. Acho que nesse, principalmente pelo turbilhão de coisas que eu estava passando, eu precisava me segurar em alguma coisa e eu me segurei nesse disco. E isso abriu um leque de várias outras coisas que eu não sabia dentro de mim e precisava colocar pra fora.

Fábrica

Mb: Você acha que o próximo trabalho da Fábrica virá diferente dos outros dois?
Emygdio: Uma coisa engraçada é como as pessoas fora da música pensam. Um músico lança um trabalho X, depois lança um Y e as pessoas entram em parafuso. “Por que esse cara tá fazendo isso?”. Eu, particularmente, escuto tanta coisa. Não se surpreenda se eu lançar um próximo disco de tango (risos). Pode acontecer, o que eu mais ouço de música é Hard Bop, Jazz dos anos 60 – infelizmente, não posso lançar um CD desses porque não consigo tocar (risos). Não se surpreenda com mudanças. Meus artistas favoritos são aqueles que se desafiam, que tentam se puxar até um outro ponto, isso é sempre muito interessante. Acho que quando você passa a se relacionar com alguma coisa fora do seu meio, você se força, sai um resultado interessante.

Mb: Você acredita que as pessoas tem expectativas muito simplistas em relação à música?
Emygdio: Eu acho. Mas acho que é porque são anos e anos de como a Indústria Fonográfica tratou e maltratou o público. Nos anos 90, era cada atrocidade que não tinha tanto antigamente. O mercado tentava produzir em série de uma maneira muito massiva que não tinha antes. Porque foi se agregando dinheiro, então virou meramente mercado e o meio fonográfico absorveu muito disso. E isso maltrata o ouvido, não existia mais espaço pra liberdade artística e o público se acostumou com essas coisas. Passou a ser tudo muito básico e se não fosse aquilo, as pessoas não entendem. Não me entenda mal, eu não tenho nada contra a música básica e tal. No primeiro CD, eu queria fazer música Pop, não tenho essa restrição com “ser simples”. O problema é quando só existe isso. O ouvinte não se sente desafiado, as pessoas ficam com pensamentos pré-concebidos e acabam se afastando. Acho que deveria ter essa cultura de desafiar. A arte necessita da provocação, você tem que ser estimulado, ou fica estagnado. E acho que isso acontece com o público, mas espero que isso mude. A Internet, os blogs e sites de música alternativa fazem um papel muito importante nisso, que muita gente que não tinha acesso a um pensamento crítico em relação à música agora é só entrar lá e pronto. Espero que nossa geração da Internet invada o mundo real, invada as rádios, a televisão e acabe com essa história de doutrinação simplista musical, porque não existe só isso.

Mb: Parece que tudo o que a gente conversou até agora gira em torno de “pluralidade”.
Emygdio: Com certeza, tem que haver uma mistura. Quando eu falei do meu processo de isolamento pra compor o disco, ele foi assim até certo ponto, depois não mais. Eu compus todas as músicas e gravei no meu home studio. Um dia, conversando com o Ricardo Gameiro (guitarrista), a gente viu que as pessoas não estavam se misturando, fazendo aquela troca, e eu decidi que faria alguma coisa. Falei “vou chamar um monte de gente” e o disco é cheio de participações. Eu acho isso muito interessante, porque a troca na arte é muito importante e o disco melhorou muito quando eu agreguei outras pessoas comigo.

Mb: Como você enxerga a cena carioca na qual Fábrica está inserida?
Emygdio: É a mesma galera. Todo mundo se conhece, todo mundo toca junto, a cena é bem parecida. O pessoal que toca comigo, a gente é um pouco fora desse eixo aqui da zona sul, mas foi coincidência. A gente se conheceu porque a gente trabalhava na Livraria da Travessa, todo mundo junto, eu, o Cadu (do Sobre a Máquina) e o Ricardo Gameiro que tocava com a gente também, daí a gente acabou conhecendo outras pessoas também e foram se abrindo um pouco as coisas. Gameiro foi tocar com o Cícero, que depois passou a trabalhar com o Giorgi, que trabalha com o Posada e assim vai. As coisas se conectam dessa forma, mas a gente é um pouco fora desse eixo. Acho que é um problema pra quem é de fora, as coisas são muito concentradas aqui, tipo “ah, se eu tiver que encontrar alguém eu tenho que vir aqui”. Aqui tudo é muito longe, tudo é complicado. Acho que aquela coisa cultural do desleixo carioca existe de verdade. Eu meço isso pela cena, a cena carioca é mais despojada, o pessoal do Kassin, do Moreno Veloso, é todo mundo mais despojado, e isso se reflete no som também, um som mais maleável.

 3,730 total views

ARTISTA: Fábrica
MARCADORES: Entrevista

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.