Entrevista: Hyldon

Contemporâneo de Tim Maia, músico nos concedeu uma entrevista exclusiva em que nos contou suas opiniões sobre a músical atual e um pouco de sua história

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Hyldon de Souza Silva, ou, simplesmente, Hyldon, está vivo e quicando. Famoso por seu sucesso setentista Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda, contemporâneo de Tim Maia, ele sempre esteve presente e produtivo. Sua música nunca foi totalmente Black, mas, por outro lado, jamais deixou de ser. Com altos e baixos na carreira, muito por seguir seus próprios instintos e convicções em vez de topar tudo por grana, este baiano de Salvador está lançando um novíssimo trabalho: Romances Urbanos. Conversamos com ele para saber sobre o disco, sua carreira, Funk carioca, Rap nacional e tudo mais.

MB: Todas as canções de Romances Urbanos são parcerias com gente de várias procedências. Como você escolhe seus parceiros de composição? E como funciona?

Hyldon: Não tem uma regra, com cada parceiro funciona de maneira diferente. Posso citar um exemplo: Arnaldo Antunes. Quando ele fez o primeiro show no Canecão eu estava lá. fui pagando o ingresso pois sabia que ia ser um lance diferente e não deu outra. Arnaldo tem um lance de ligação com artes plásticas e apesar de ser um cara além do seu tempo, é muito simples na maneira de se expressar. Quando o conheci, vinte anos depois, no programa que ele fazia na MTV (Grêmio Recreativo Arnaldo Antunes) descobri que ele também admirava o meu trabalho, ficamos amigos na hora, tipo aquela pessoa que parece que vc conhece há anos. Eu às vezes ia a sua casa em São Paulo só pra compor, sem pensar no que aconteceria com aquelas músicas, simplesmente pelo prazer. Nossa primeira música Tempo,Tempinho e Tempão, que está no Romances Urbanos, fluiu naturalmente, deu química. Foi aí que entrou a Céu, tivemos uma empatia enorme quando nos conhecemos e quando descobrimos que fazemos aniversário no mesmo dia (17 de abril) ficamos amigos desde sempre. O que poderia desandar com uma nova presença, aconteceu ao contrário, e nossos encontros produtivos começaram a ser marcados com mais frequência. Não pensávamos em nada, só em fazer uma canção, três gerações diferentes, três estilos diferentes. O fato de admiração mútua pelos respectivos trabalhos facilitou e muito o compartilhamento de idéias. Claro que o respeito também é recíproco. A primeira vez que ouvi a Céu no rádio cantando Malemolência, me apaixonei pelo seu jeito pessoal de compor e cantar e fui correndo comprar o seu CD. Resultado dessa empreitada, unidos pelos amor à música, nasceram várias canções: Eu gravei uma do trio, chamada “O Tombo” e o Arnaldo, no seu novo Disco, não só incluiu “Trato” como convidou eu e a Céu para cantarmos com ele. Ah! Ainda tem outra nossa que o Serjão Loroza adorou e incluiu no seu belo disco recém-lançado chamado “Carpe Diem”, ouçam 17 beijos está linda, aliás como todo o disco dele.

MB: Foi no Baile Black” tem a participação do Mano Brown. O que você acha do Rap brasileiro? Como você vê as diferenças entre as cenas de São Paulo e Rio?

Hyldon: Adoro Rap e a cultura Hip Hop desde de que surgiu nos EUA. Desde pequeno sou ligado em ritmo, meu primeiro instrumento foi um tambor. Eu tinha três anos e já tocava na Banda da escola com os meninos mais velhos. No princípio do Hip-Hop fui muito sampleado, hoje a galera me chama pra compor os refrões. Sandrão (ex-RZO) me convidou pra fazer uma música pro maravilhoso filme Colegas, do Marcelo Galvão. Quanto ao Mano Brown: sou fã dos Racionais desde o começo. Aliás, tem um grupo chamado Pavilhão 9, contemporâneo, que eu tbm admirava muito e que sampleou Na rua, na chuva, na Fazenda. Tenho músicas com Gil Metralha, Marechal,e minha filha Yasmim Medina, que vem aí com disco e vídeo clipe da nossa música. Voltando aos Racionais, conheci o Mano Brown através da Mariana Bergel, amiga e produtora. O Brown me convidou pra gravar algumas guitarras no estúdio deles e depois fazer uma participação num Sarau de Poesia no Capão Redondo. Foi uma dessas coisas que ficam para sempre na nossa mente. Um tempo depois o Dexter foi me conhecer na Produtora da Mariana, a Bóia Fria. Estava conversando com ele depois de um show que fizemos num lindo trabalho social que ele faz num Presídio de Guarulhos, quando chegou o Mano Brown. Começamos a falar dos antigos Bailes Black, eu estava deitado no sofá, cansadão da viagem do Rio para Sampa e mais o desgaste do  show, porém não resisti ao som de como eles falavam Baile Black diferente do sotaque carioca. “Por que o Baile Black” pra lá, “Baile Black” pra cá, veio uma melodia na minha cabeça, peguei o violão e naquele momento nasceu “Foi no Baile Black”.

MB: Falando em baile black, como você vê a atual cena para a música black no Brasil?

Hyldon: A música Black domina o mundo. Até os pagodeiros estão cantando igual americano, às vezes exageram e derrapam nas curvas. Acho que podemos assimilar mas não copiar ,a nossa música é a mais versátil e mais linda do mundo, manda um baterista americano tocar samba… tumtum, tumtum… Eles não conseguem.

MB: Qual a sua opinião sobre o funk carioca?

Hyldon: Tem música pra toda hora: música pra casar, música pra namorar, música pra pular carnaval, pra relaxar e pra dançar. O funk é pra dançar e ponto final. Eu gosto.

MB: Dentre todos os discos da sua carreira, qual o seu preferido e por quê?

Hyldon: Gosto de quase todos. Em alguns o resultado final não ficou tão bom, por culpa da safra das composições. E eu não faço música para o mercado, faço músicas para extravasa meus sentimentos. Se fosse pra ganhar dinheiro teria escolhido outra profissão. Mas sempre vivi de música e nunca passei fome. E nada melhor do que trabalhar no que você gosta. Poucas pessoas tem esse privilégio.

MB: Como a maioria dos cantores de sucesso nos anos 70, sua carreira passou por alguns momentos de declínio nos anos 80 até que bandas de Rock como Kid Abelha e Jota Quest regravaram canções suas. Como você viu essas versões?

Hyldon: Nos anos 80 começou o Jabá forte das gravadoras e como eu não me submetia aos seus caprichos, tipo “grava assim, grava assado” ou ‘faz um disco só de baladas”, acabei virando pessoa não grata nas grandes Multinacionais. Continuei gravando em selos menores, mas não chegava ao grande público. Graças a Deus sempre fui bem tocado nos programas de Flash Back e nos de pedidos de ouvinte e é claro, nos barzinhos da vida. Kid e Jota, que me regravaram, deram muita sorte de criarem grandes versões e foram a primeiríssimos lugares. Kid Abelha vendeu mais de um milhão de discos com a minha música puxando o trem. Então, pelo sucesso, os críticos começaram a ver que a minha música simples tinha conteúdo e por isso, longevidade.

MB: Conta um pouco da sua experiência com música infantil. Como é compor canções para crianças?

Hyldon: Eu tenho esse lado lúdico, adoro crianças e se eu pudesse faria mais coisas para elas. Quando o Presidente Color capou nosso dinheiro, incluindo os direitos autorais, bolei um disco para Seu Boneco (Escolinha do Professor Raimundo). Foram 5 discos e três peças que escrevi, produzi e dirigi. Num deles encomendei uma música pro Arlindo Cruz e Franco, chamada Pagode do Boneco e convidamos Zeca Pagodinho, Bezerra da Silva, Almir Guineto e Dicró. Regravamos “O Bom Menino” com o Palhaço Carequinha (que foi meu ídolo na infância e trabalhar com ele foi muito emocionante). Aprendi muito com o Lug de Paula e com o Chico Anysio, seu pai. Hoje aplico muitas coisas que aprendi com eles nos meus shows.Quando o lugar é propício, como show em teatro, dá para interagir com o público, contar algumas histórias engraçadas e descontrair a platéia e assim eles vão se soltando através do riso e cantando comigo. A experiencia com o Lug foi muito gratificante, pois viajávamos o Brasil inteiro com os shows, peça, criei um refrão que acabou virando grito de guerra das torcidas (“ÊÔÊÔ, o Boneco é o Terror). Depois fiz um disco para Bebês, que acabou virando um desenho animado e que está no mercado, o Era uma vez um Bebê. A  Criação dos personagens e todos os desenhos foram da minha querida parceira Zoé Medina, que agora criou a capa super elogiada de Romances Urbanos.

MB: Sua carreira retornou com força total nos anos 2000. Como é um show do Hyldon em 2013?

Hyldon: Uma das coisas que me motivam a fazer show é me divertir tocando, então só toco com músicos de primeira e procuro criar um ambiente de família fora do palco. E dentro é tipo “Os três mosqueteiros”: Um por todos e todos por um. Houve uma troca de baterista e baixista,são dois garotos de 22 anos mas que tocam muito, passamos grandes momentos gravando o quarteto de base com  Márcio Pombo (teclados), Guinho Tavares (Guitarra), Arthur de Palla (Baixo) em Teresópolis no Estúdio do Pombo. O show que já era bom terá o acréscimo das músicas novas e terá o nome do disco, não posso deixar de citar o resto da Banda Zona Oeste que são Diogo Gomes (Trumpete e Flugelhorn), Rodrigues Revelles (Sax e Flauta) e ainda temos o 7° elemento que é o Marlon Sette (Trombone) que gravou conosco, fez alguns arranjos de metais e as vezes participa do show. A parte dos metais, da minha voz e dos músicos e cantores convidados foram feitas no Rio de Janeiro no estúdio da Warner Chappell, por um dos melhores técnicos do Brasil, o César Delano, responsável pela mixagem. Nosso show é isso, os sucessos, algumas histórias, músicas novas e homenagens que gosto de fazer para meus antigos parceiros Tim Maia e Cassiano cantando hits deles conhecidas do público.

MB: Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda é o seu maior hit e traz um monte de lembranças pras pessoas que ouviram música em outros tempos. Qual a história por trás dela?

Hyldon: Foi um amor de adolescência, a história foi exatamente como dizia a canção. Acho que por isso ela fez tanto sucesso… Tem um historia por trás, não é uma música inventada do nada.

MB: O que você está ouvindo atualmente? Algum artista ou banda te chama a atenção hoje em dia?

Hyldon: Tem muita gente nova boa. Fui ver o Léo Cavalcanti e quando,fui falar com ele no camarim, ficamos amigos e compusemos “Pista Perigosa”. O engraçado foi que o Léo me mandou a primeira parte, eu fiz a segunda em um arranjo diferente do que costumo fazer. Só mandei um mp3 pra ele quando estava pronta. Ele ficou surpreso com o resultado, e falou: “Hombre, eu nunca esperava isso de você, um Rock in Roll cheio de riffs de guitarras.” Dos R &B americanos novos tenho escutado Frank Ocean e Weeknd. .

MB: Lendo o release de Romances Urbanos nos deparamos com a expressão “bem vindo a Hyldonópolis”, como algo que permeia todo o disco. Conta para nós o que significa um passeio por Hydonópolis em termos musicais.

Hyldon: Essa ideia de romances que acontecem na cidade veio em setembro do ano passado, quando comecei a criar o conceito do disco. Quando já estava mixando o disco com Delano, lembrei daquele joguinho que alguns chamam de “Jogo da vida”, aquele que joga os dados e vai de casa em casa, às vezes pula, volta, etc. Então ficava desenhando o esboço do jogo, e assim foi criada a sequência das músicas e o joguinho acabou não entrando. Mas era tipo, tinha um plaquinha de “bem-vindo” e eu e o Zeca Baleiro num carro chegando na cidade. Cada casa era uma música. Na segunda casa, o Zeca me deixando na casa do Arnaldo Antunes onde levávamos um papo sobre a relatividade do tempo (o tempo é uma coisa crucial numa cidade grande) e assim por diante,intercalando festas, bailes, casos amorosos, a última casa era eu com o Pedro Luís caindo na folia e depois pegando um trem e indo embora da cidade, sumindo na vida.

MB: Você sempre foi um cantor romântico e com várias musas. Ainda mantém a média?

Hyldon: Quando você é jovem você escolhe,quando é mais velho é escolhido. (Risos)

MB: Qual o conselho que você dá pros ouvintes mais novos, pro pessoal que vai descobrir sua música com este novo trabalho?

Hyldon: Simplesmente ouçam. Ali tem o trabalho de umas quarenta pessoas que fizeram tudo com muito amor. Deixem a música te conduzir nessa pequena viagem. Talvez esse seja um dos últimos discos com esse conceito de 12 faixas. Hoje é a época do single, da faixa única. Mas ainda sou muito teimoso e quis fazer um disco a moda antiga, a capa traduz bem isso.

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MARCADORES: Entrevista

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.