Entrevista: Jair Naves

Músico explicou ao Monkeybuzz sobre a produção e o financiamento coletivo de seu segundo álbum

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Fotos: Patrícia Caggegi

Poucos músicos contemporâneos possuem um nível de respeito tão alto no país quanto Jair Naves em público e crítica. Seu histórico na banda Ludovic é responsável por parte disso, porém tudo se intensificou com o lançamento de E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando Sua Fuga, Cavando o Chão com Suas Próprias Unhas (2012), seu primeiro álbum solo, que lhe rendeu prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte e expandiu seu nome para além dos cenários alternativos, sendo agora reconhecido como um grande nome da música brasileira do nosso tempo.

Para seu segundo álbum, Jair e a banda optaram pelo financiamento coletivo para que a produção seja viabilizada. Em meio ao projeto, o músico tirou um tempo para contar ao Monkeybuzz sobre os planos para o disco e a conversa revelou mais das características que quem já viu algum de seus shows percebe no palco: Sua fala é incisiva sem deixar de ser humana, em um misto de humildade e uma força apaixonada por fazer música, elementos que revelam sua dignidade de todo esse respeito.

Monkeybuzz: Jair, como começaram os trabalhos com seu segundo disco e quando vocês viram que o financiamento coletivo seria uma boa escolha?
Jair Naves: A gente gravou uma música em outubro, aí começou o processo. A gente já estava no meio da composição, gravando letra e arranjo, com muitas ideias. É uma coisa meio lenta, muita coisa é descartada, mas se a gente fosse esperar acabar isso pra começar o crowdfunding, ia ficar super em cima. A ideia é gravar de um jeito um pouco mais grandioso, um pouco em um estúdio, um pouco em outro, queremos fazer experiências. Quando uma banda independente vai produzir um álbum, a prática comum é ficar uma semana no estúdio, grava correndo e acaba – não é muito a ideia dessa vez, a gente quer gravar com um pouco mais de calma, e aí surgiu a ideia de fazer isso. Também tem outra vantagem, que é a gente poder pela primeira vez mensurar o nosso público, poder ver quantas pessoas estão dispostas a investir nisso. Não dá pra ter muita noção, tem muito artista com 200 mil seguidores na página que não conseguem encher um lugar pra 200 pessoas, sabe? Então a gente vai ter uma noção muito boa, é uma experiência bem interessante.

Mb: Como vocês encararam essa dinâmica do crowdfunding, com as recompensas e a participação do público?
Jair: Lidar com o dinheiro dos outros é uma responsabilidade muito maior, né? Não deixa de ser uma pré-venda e as pessoas estão comprando algo que não sabem que é, então é uma prova de confiança enorme. Sobre as recompensas, a gente tentou bolar algumas coisas que a gente pudesse cumprir também. Pelo que estudei de iniciativas, tem coisas muito malucas, banda que toca na casa da pessoa, ou a pessoa toca na banda dela. No nosso caso, tudo é voltado pra música mesmo. Tem um EP de gravações que não vão entrar no disco, sempre que eu gravo acaba sobrando coisas que eu prefiro deixar escondida, mas dessa vez vamos liberar para os apoiadores. Audição em primeira mão também. Dificulta um pouco porque temos um número menor de recompensas, mas, ao mesmo tempo, não quero ficar pagando isso aí em dois anos, sabe? Já tem uma coisa que eu acho mais ousada, que é um pocket show acústico, o que pra mim já é muito aventureiro.

Mb: Observo às vezes as pessoas não se sentem à vontade para contribuir por não entenderem o “apoio” como uma “encomenda” tanto para o disco, quanto para as recompensas.
Jair: Gostei da “encomenda”, vou começar a usar isso. Já participei de alguns projetos estrangeiros e lá fora eu percebo que as pessoas lidam melhor com isso. Aqui tem um sentimento de culpa e é bem desconfortável. Eu confesso que não optaria por esse caminho se tivesse outra alternativa. Mas não tem, o mercado tá super saturado. Venda de disco – o último disco, nem sei se ele se pagou até hoje, contando com clipe e tudo o mais. Mas acho que a hora é essa, certamente não sou o artista mais popular do Brasil, mas tem um número considerável de pessoas que me acompanham. E tem outra coisa: Não dá pra basear uma carreira nisso. O próximo disco não vai ser dessa forma. Eu enxergo como recurso para ser usado uma vez, no máximo duas. Para show em alguma cidade, talvez, mas para um registro não, é bem diferente. E isso ajuda a ver como a relação que as pessoas tem com a música é emocional, uma identificação muito grande. Eu tenho essa relação com os artistas que eu gosto e eu gostaria de ajudar também.

Jair Naves, por Patrícia Caggeg

Mb: Você percebe uma postura mais ativa do público em relação à música e às bandas hoje em dia, em comparação com épocas anteriores?
Jair: Acho que é uma postura mais ativa sim e mesmo de valorização. As pessoas se orgulham de fazer parte disso. É outro perfil de ouvinte mesmo, bem menos passivo. É também um grupo mais adulto, no geral, um público que cresceu tendo contato com discos, com uma vida financeira mais estável também. Também é um pessoal que cresceu comigo, que se interessa em ir aos shows e quer ter acesso ao merchandising. Camiseta vende muito mais do que CD, isso diz muito sobre o estado das coisas hoje. É um momento muito delicado pra quem faz música. O crowdfunding é um caminho um pouco menos acidentado para percorrer. Ou é isso, ou você parte pra apoio estatal, aí desconforto por desconforto, escolhi isso.

Mb: Lembrei de uma história que Hélio Flanders (Vanguart) me contou, sobre como a banda veio para São Paulo pela primeira vez e morou na sala da sua casa por um tempo. Essa “camaradagem” é muito comum em bandas, será que o crowdfunding é uma maneira do público também participar disso?
Jair: Exatamente, exatamente. Entre bandas isso existe desde sempre, agora o público faz parte disso, compra discos pra dar de presente, tem uma coisa de valorizar. Acho também que é uma geração de ouvintes que viu muitas bandas acabarem por falta de retorno. Muitas delas terminaram porque as pessoas se cansaram e foram trabalhar em outras coisas. Eu percebo um pouco esse temor de que os músicos vão falar “ah, então vamos desencanar”. É um jeito das pessoas intervirem nisso.

Mb: Na maneira com que você expõe o projeto, fica claro que a banda está muito envolvida em tudo. Afinal, é um disco “solo” ou um trabalho em grupo?
Jair: Raramente um artista solo está sozinho, mesmo os mais geniais, como David Bowie ou Lou Reed. Essa banda está comigo há um bom tempo, então pra mim isso é fundamental. Mesmo na parte de criar os arranjos, eles são muito ativos. É um trabalho muito coletivo mesmo, até com o crowdfunding, eles deram opinião, todos aprovaram. Mas é solo na medida em que eu sou o responsável pela forma criativa mais sistemática, o esqueleto das músicas, as letras também. Eles tem outros projetos, são músicos mesmo que tocam com grandes nomes, mas eles são muito companheiros, e eu tenho o perfil de banda, não o de artista solo, aquela coisa “chefe”. Não é o jeito que eu trabalho não. São excelentes músicos e eu quero que eles se sintam valorizados também.

Mb: Até agora, como você acha que será o novo álbum, em relação ao anterior?
Jair: Eu acho a temática um pouco diferente. Menos áspero, talvez. Eu vejo esse material um pouco mais reflexivo. O outro disco tinha uma certa combatividade, mesmo nas músicas mais lentas, com o teor das letras. Acho que vai ser mais elaborado, o anterior era mais urgente, gravado ao vivo em duas semanas, sem backing vocal, este terá mais experimentação. Noto que ele será mais melódico também, mas ainda está muito cedo pra falar. A gente tá mais preocupado em ter os recursos pra ver o que a gente vai fazer.

Monkeybuzz: E pra você, como está sendo diferente fazer este disco?
Jair: Quando o anterior saiu, foi um período muito intenso. Eu tive um respaldo de crítica que eu nunca tive antes e eu imaginava que quando eu conseguisse isso as coisas ficariam muito confortáveis financeiramentes. Eu vi que as coisas não caminham juntas. Tive muitas conversas com a banda sobre isso, “como é que se chega tão longe por um lado, mas por outro não vai?”. Não quero que isso se torne alguma coisa que me deixe tão amargurado a ponto de desistir da música. Isso me levou a refletir sobre muita coisa, sobre o que é fazer música, o que eu quero atingir fazendo música, que tipo de artista eu quero ser. E eu cheguei à conclusão mais básica de todas, que eu tenho que fazer pra mim mesmo e por sorte alguém vai gostar. A verdade é essa.

Para colaborar no financiamento coletivo para o segundo álbum de Jair Naves, acesse sua página no Catarse.

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ARTISTA: Jair Naves
MARCADORES: Entrevista

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.