O amor é o caminho

Entrevistamos Jonathan Ferr, pianista de 32 anos que está levantando novas bandeiras dentro do Jazz brasileiro contemporâneo

885 total views, no views today

Fotos: João Victor Medeiros

Show com Kamasi Washington no Circo Voador; rolê com Robert Glasper pela Lapa; disco em trilogia muito bem avaliado pela crítica, com lançamento de curta-metragem afro-futurista como visual; apresentação no Rock in Rio com direito a matéria no Jornal Nacional; shows no Rio das Ostras Jazz & Blues Festival, SESC Jazz e Locomotiva Festival. Poderíamos estar falando sobre a extensa carreira de um músico já consagrado, mas falamos do ano de 2019 de Jonathan Ferr.

Não que o pianista já não tenha uma extensa carreira. Seu interesse por música começa aos sete anos, em uma favela de Madureira, Zona Norte do Rio de Janeiro. Dois anos antes de realmente conhecer o piano, o – ainda – Jonathas Ferreira conservava a imagem que muitas crianças nascidas até o fim dos anos 1980 têm: o ritual de selecionar e colocar para tocar o vinil dos pais. “Madureira é o ponto que mais condensa cultura na Zona Norte: tem a Portela, Império Serrano, baile charme…”, comenta Ferr, que tentou ser baterista por influência da banda da igreja, até que seu pai o presenteou com um teclado aos nove anos. Desde então, não parou. “Hoje eu seria um ‘jovem empreendedor’, fiz de tudo para custear as aulas de piano: de entregar cloro a vender jornal, rifa, tudo”, brinca. Ele conta que, nessa época, nem pensava em ser músico, mas estava apenas sedento por desvendar os mistérios do instrumento. E foi ao entrar na Escola de Música Villa Lobos na adolescência que o jovem Jonathas Ferreira iniciou sua jornada até dominar o piano como Jonathan Ferr.

Qual foi o primeiro disco de Jazz que você ouviu e pensou “tenho que descobrir o que é isso”?

Meu pai ouvia um programa chamado Pianíssimo… Era um senhor chamado Pedrinho Mattar que recebia fax e cartas com pedidos de canções, quase sempre Jazz ou no máximo Bossa-nova. Ele tocava aquele piano bem “piano bar”, muito classudo, fraque, gravata borboleta e eu já gostava. Um tempão depois eu ouvi – já consciente que era Jazz – o disco A Love Supreme (1965) do John Coltrane. Meu professor colocou, contou a história do álbum e quando eu ouvi que falei “cara, que som louco”, me afetou de um jeito muito peculiar.

E o Coltrane não tocava o mesmo instrumento que você estava estudando.

É saxofone. Aquilo mudou a forma como eu percebia música. Saí pensando que eu não sabia tanto de música quanto eu achava que sabia. Nessa altura, eu tinha dezessete anos, quase dez anos estudando e já tocando um monte de coisa. Fui atrás pra ouvir outra vez, mergulhei, e aí veio outros artistas. Miles Davis, McCoy Tyner, que era o pianista do Coltrane… Aí comecei a despertar para o Jazz.

Você foi sideman de muitos músicos consagrados. Como foi tomar o passo para carreira solo?

Icônico. Você entra num circuito (como sideman) e sei lá, tá tocando com Djavan, Bethânia, uma turnê que paga superbem e nunca sobra tempo para aprofundar no seu próprio trabalho.Teve um dia que acordei, liguei pra todo mundo que tocava, um por um, e disse que tava fora, falei que queria dedicar cem por cento ao meu trabalho. Desliguei a última chamada e falei “fudeu”. O Ferr Trio ainda não me dava dinheiro, mas eu sabia que era o embrião de algo que ia crescer muito. 

Nesse momento, a minha empresária Tânia Arthur me ajudou muito a potencializar, ela tem uma sensibilidade muito boa para entender mercado. Ela teve uma ideia muito estratégica de fazer um primeiro show só para convidados e isso valoriza, né? Esse lance ser “convidado”. Mas convidamos só pessoas interessantes e interessadas em saber quem era Jonathan Ferr. Saí de lá com dois shows fechados.

E o resto da galera, a transição de trio para quarteto?

Era outro baterista. E aí conheci o Facundo (baixista) pela internet, uruguaio recém-chegado no Brasil, falava pouco português e nos entendemos muito na linguagem da música mesmo. O David, antigo baterista saiu e entrou o Caio Oica, que ajudou muito a aprofundar mais na sonoridade que eu buscava. Antes era mais “brazuca” e ele vem inspirado em Gospel chops, uma coisa mais Hip Hop. Mudou o mood. Eu também queria botar alguém mais solo, porque eu fazia os temas e solos. Não achei trompetista e lembrei de alguém que deu aula comigo há muito tempo, que era o Alex Sá. Vimos que ouvíamos as mesmas coisas e começou a girar.

Já o Vini Machado (técnico de som), nós dividíamos o apartamento, ele montando o estúdio dele e eu produzindo, tocando, e convidei ele pra produzir comigo. Agora estamos na estrada fazendo todo o processo, uma família. Nunca quis uma gig.

E quando chegam Robert Glasper e J. Dilla na sua carreira?

No processo de montar o trio buscando referências, achei o Glasper e fiquei pirado, ele também era um piano trio, fritação. Aí começou a vir tudo naturalmente, como Thundercat, Kamasi. O Dilla foi apresentado por um amigo rapper que só falava dele. Depois veio Dwele, Baduh, outras colaborações e me apaixonei.

Conta um pouco do seu disco, Trilogia do Amor (2019).

Foram dois anos de trabalho e de aprendizado. Passei por rituais indígenas, tomei ayahuasca, me converti ao budismo, várias coisas aconteceram e influenciaram. As músicas começaram a ter outra relevância. Gosto dessa história de contar uma odisséia em três capítulos, uma história que você tem que amadurecer, detalhar o personagem… Decidi fazer uma suíte de Urban Jazz afrofuturista, que eu tava estudando na época. Também queria fazer um disco acessível, não queria que fosse só pra quem tivesse 800 discos na prateleira, especialista em Jazz. O urbano atravessa a cidade, tá na Zona Norte, Baixada, no Nordeste… Tinha muito a imagem de quem bota o fone de ouvido, dá o play e vai pro trabalho. O disco tem 28 minutos, pros padrões do gênero é pequeno, mas prefiro que sintam falta e queiram ouvir de novo do que achem fatigante.

Depois, fui escolhendo as partes. As quatro primeiras músicas são A Jornada; “Borboleta” e “Lótus”, O Renascimento; e “Sonhos” é A Revolução. Faço música porque é a expressão da minha subjetividade, se eu nao fizer música, eu morro. Ela alimenta minha psiquê, meu espírito, minha alma, corpo. Me atravessa, é um combustível que me alimenta para voltar para ela e é isso que quero que seja pras pessoas, combustível.

Eu convidei uma amiga para o seu show no SESC Jazz, ela levou a mãe e não era nada do que as duas esperavam, no sentido de fugir completamente desse imaginário do Jazz suave, essa coisa que ficou meio sem tempero. Você acha que existe uma gentrificação do gênero?

Eu acho, principalmente no Brasil, o Jazz entra num lugar elitista, para pessoas sofisticadas. Eu odeio o termo “boa música”, é extremamente prepotente, arrogante, dotado de preconceitos. Lógico que tem a coisa técnica, notas, tom… Tecnicamente pode não ser bom, mas quem sou eu pra dizer?

Me lembra aquela musica do MC G15, “Deu Onda”, que ele canta fora do tom e foi o sucesso do ano.

Foi um hitzão. Por isso eu não gosto desse estigma que o Jazz ganhou. Rola mesmo essa gentrificação, eu como pianista preto percebo bastante isso. Fico pensando “qual o pensamento que habita o inconsciente coletivo das pessoas quando se pensa Jazz?”. Então peguei essa bandeira de retomada e não estou sozinho. Tem o Afro Jazz, um dos responsáveis a bater nessa tecla do Jazz contemporâneo. Me orgulho muito de estar chegando em pessoas que nunca ouviram Jazz, ou achavam chato e hoje se conectam. Estou para a não complexidade.

E o simples é uma sofisticação, também.

Um amigo pianista, o Zé Manuel tem uma música chamada “A maior ambição” que diz “a maior ambição da canção é ser silêncio”. Ela tá buscando o silêncio como lugar da simplicidade. Pensamos muito isso como banda, o silêncio, as pausas, o espaço entre as notas. Momentos em nossas músicas que ficam se repetindo quase como um mantra, deixa o cara entender aquela melodia primeiro. Me cansa um pouco essa música instrumental que o cara quer só te impressionar. Na primeira funciona, na segunda também, na terceira você já não se impressiona mais. 

Você lançou um curta que ilustra o álbum. Qual o seu filme favorito?

Mo’ Better Blues (1990), do Spike Lee. Denzel Washington interpreta um trompetista incrível filmado na forma classuda do Brooklyn que só o Spike tem. Vem logo depois de Do The Right Thing (1989), que explora o bairro de uma forma efervescente. O nome ia ser A Love Supreme também, mas a Alice Coltrane não liberou os direitos. O drama entre a arte e as paixões é muito interessante. Sempre traz também a questão racial, relacionamento interracial, colorismo, discussões latentes.

Você já assistiu Whiplash (2015)?

Já, achei falso demais (ri).Tem um lúdico do cara sangrar na bateria mas o mais bacana é ver o esforço para ser realmente o melhor. A gente enquanto músico se exige muito.

Aproveitando; você sempre posta no Instagram sua prática matinal de piano. Qual a sua rotina matinal?

Eu acordo, abro a janela, dou uma respirada e agradeço pelo dia, por estar vivo, mais um dia para eu ser melhor. Faço uma prática budista do nam-myoho-rengue-kyo e medito de cinco a dez minutos para acalmar, deixar o coração bem centrado, passo um café e vou pro piano por cerca de duas horas. Ultimamente, nem tenho postado tanto no Instagram porque eu abria para gravar o video e acabava me perdendo na rede (ri).

Deixa aí uma lista de discos e um recado pro mundo, se quiser!

Minha lista de discos é:

Robert Glasper Experiment – Black Radio Vol. I (2012)

Kamasi Washington – The Epic (2015)

Ed Motta – Dwitza (2002) e Aystelum (2005)

Racionais MCs – Sobrevivendo no Inferno (1997)

Meu recado é para nutrirmos nossos corações, amor como energia. Sempre erramos, estamos nesse mundo não para sermos perfeitos, mas para sermos evoluídos. Não é ser pacífico e estar omisso também, mas agir com responsabilidade. Luv is the way.

886 total views, 1 views today

ARTISTA: Jonathan Ferr