Entrevista: Mogwai

“Não sei se fomos uma banda de Post-Rock há vinte anos, ou se somos agora”, conta Barry Burns

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1º de setembro – eis a data de lançamento de Every Country’s Sun, mais um álbum de estúdio feito pela banda escocesa Mogwai em seus mais de vinte anos de carreira. Produzido por David Lawrence Friedmann – com quem o grupo trabalhou em Come On Die Young (1999) e Rock Action -, o disco promete refletir um pouco do momento conturbado que vivemos dentro do estilo instrumental, emocionado e cheio de guitarras que conhecemos tão bem.

A guitarra, inclusive, deve estar bastante presente na obra. Quem nos contou foi Barry Burns, guitarrista e multiinstrumentista da banda, em entrevista feita por telefone cerca de dez dias depois do clipe de Coolverine estrear no Brasil com exclusividade pelo Monkeybuzz.

Monkeybuzz: Relendo as impressões sobre o show no Sónar em 2012, percebo que o que mais fica ao ouvir o som que Mogwai é a sensação de sonho que ele traz, como se me transportasse a outro lugar, entende?
Barry Burns, Mogway: Fico feliz que isso acontece, porque, por não ter letras, as pessoas podem criar a história que quiserem na cabeça, com diferentes imagens na mente.

Mb: Era exatamente aí que eu queria chegar: Imagino que cada um acabe descrevendo de uma maneira bastante única, não é mesmo?
Burns: (risos) Já ouvi tantas, algumas muito estranhas. Tem uma música antiga que chama Christmas Steps, que tem o nome de uma rua no sul da Inglaterra, mas alguém não sabia disso e publicou que a música era sobre a ação de colocar os presentes embaixo da árvore de natal, e sobre o Papai Noel. Eu li e pensei “essa foi foda” (risos).

Mb: Isso acontece com música instrumental porque ela é arte abstrata, cada um tem sua interpretação, não é?
Burns: Exatamente, e é muito difícil explicá-la. Fica difícil para o jornalismo musical, porque não há o léxico.

Mb: Mesmo se o título parecer um guia, você ainda não sabe aonde a música vai te levar – especialmente se você não sabe ao que ele se refere, como no caso que você disse. Burns: Pois é. Mas nós temos no celular uma lista de títulos de faixas que já pensamos, mas que ainda não temos música para elas, e aí escolhemos algum deles quando a composição estiver pronta. Então, os nomes não significam nada. De alguma forma, no entanto, é fácil escolher o título para cada música.

Mb: Algo que chama atenção no seu som também é como os climas entre as faixas variam bastante – algumas são mais leves, enquanto outras são até agressivas -, mas, ainda assim, existe uma linha em comum entre elas. Você também vê isso?
Burns: Acho que sim. Tem a ver com as pessoas que estão na banda, e com o fato de nós já estarmos tocando há tanto tempo juntos, então tudo tem um jeitão meio “Mogwai” mesmo. Não vamos acabar fazendo algo… sei lá… Lady Gaga (risos), tudo acaba ficando do nosso gosto.

Mb: Esse estilo foi algo construído intencionalmente ou vocês acabaram tocando assim mais organicamente?
Burns: É mais uma questão de instinto. Nós nunca conversamos sobre a música que fazemos, nunca fazemos um plano. Acho que a única coisa que dissemos sobre o novo disco foi “vamos colocar mais guitarra”, sabe? Preferimos ir fazendo sem discutir muito.

Mb: É comum o Post-Rock ser visto como um gênero de nicho. Como é sua experiência com o tema, o que você aprendeu sobre o público nessas duas décadas?
Burns: É um bom assunto. Nós nunca gostamos desse termo, Post-Rock. Lembro quando o estilo meio que começou e muitas bandas começaram a produzir, parecia um movimento acontecendo. Muitas dessas bandas se tornaram muita coisa, e Mogwai mesmo já se distanciou um pouco do tema. Sempre tentamos fazer algo novo, mas às vezes acabamos nos repetindo, o que não é bom. Não sei se fomos uma banda de Post-Rock há vinte anos, ou se somos agora, mesmo tendo essa questão do instrumental. Apenas não tenho certeza.

Mb: Por falar nessa história, quando você olha para trás e pensa no início, há mais de duas décadas, você imaginava lá atrás que essa jornada duraria tanto tempo, com tanta atividade depois de vinte anos?
Burns: É difícil imaginar isso, mas nunca olhei para banda e pensei “ah, isso vai acabar logo”, principalmente porque estamos sempre ocupados e sempre curtindo muito. Sei que muita gente diria “eu não esperava que uma banda fosse durar tanto”, mas eu nunca pensei muito dessa forma. Eu sempre quis apenas saber o que aconteceria depois.

Mb: É, não dá para saber o que vai acontecer amanhã.
Burns: Mais ou menos. Eu sei que Donald Trump vai acordar amanhã e vai continuar um cuzão (risos). Algumas coisas dá para saber sim.

Mb: Ainda sobre vinte anos atrás, o que mais mudou para vocês hoje em comparação com o início da banda?
Burns: O mais interessante é que nós vimos a morte da indústria musical como a conhecíamos. Nós estávamos lá quando ela começou a ir ladeira a baixo. Imagino que hoje seja mais difícil para as bandas novas começarem, não sei se nós sobreviveríamos se tívessemos começado hoje. Tirando isso, crescemos juntos, então viramos uma turma de amigos mesmo. Somos muito ligados uns aos outros.

Mb: Mogwai é uma banda bastante ativa, parece sempre ter algo novo saindo, seja disco, single ou mesmo clipe. Como você mantém sua criatividade em alta depois de tanto tempo na estrada?
Burns: Acho que, se você não está fazendo música o tempo todo, você não pode se chamar de compositor. É como um pintor que, se não pega em um pincel por seis meses, precisa voltar e reaprender tudo. Nossa sorte é que somos convidados a estarmos sempre tocando. É bom estar ocupado com a banda.

Mb: Antes de terminar, me conte sobre o novo disco, como foi voltar ao estúdio para gravar Every Country’s Sun?
Burns: Foi muito legal poder voltar ao interior de Nova York, foi como você rever um primo, ou alguém que você não via há muito tempo, e você percebe que nada mudou, ainda é tudo muito familiar. A única coisa estranha é que, da última vez que estivemos lá, as crianças eram todas pequenas e agora estão terminando a faculdade (risos). O estúdio ainda é o mesmo, é tudo muito legal e no meio do nada, então você pode trabalhar bastante.

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ARTISTA: Mogwai
MARCADORES: Entrevista

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.