Entrevista: PELVS

Genu nos conta um pouco sobre a década de 90 e a edição especial que agrupará os discos da banda

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Estamos no início dos anos 90. É uma terra estranha, sem muita comunicação entre as pessoas, vocês certamente iriam estranhar bastante. Não há celulares, nem computadores em casa. O meio mais avançado de enviar documentos à distância é o fax. Ainda andamos com fichas telefônicas no bolso e a internet é algo que seria possível só em Jornada Nas Estrelas. Fazer rock até essa época era um desafio muito maior do que se imagina. Era preciso camaradagem, deslocamento, força de vontade e grana para ouvir discos, uma vez que, claro, não há mp3 ainda. Neste cenário desprovido de facilidades, uma leva de bandas cariocas ousou fazer rock alternativo, até porque, não havia outra forma. Com as gravadoras ainda dando as cartas, o “rock” das paradas de sucesso estava com o nascente Skank ou com novos trabalhos de bandas da década anterior, como Paralamas do Sucesso ou Titãs. Essa geração anos 90 do rock independente nacional rendeu frutos que poucos ouviram, permaneceram no underground, mas viva. Deste pessoal, a Pelvs permanece viva e completando sua segunda década de existência. Formada por Rafael Genu e Gustavo Seabra, logo teve a adição de VRS Marcos e Dodô, que levaram adiante aquela ideia maluca, arriscada e que não envolvia qualquer perspectiva de grana: montar uma banda de Rock.

Conversamos com Genu sobre esses tempos e o lançamento comemorativo da Caixa, ou melhor, quatro discos – disponíveis para download no site da banda www.pelvs.net – que trazem raridades e crocâncias, direto do baú da Pelvs.

MB: Conta como era o cenário daquele início de década de 1990 para uma banda independente como a Pelvs.

Genu: Em alguns aspectos, era muito diferente de hoje. Havia a necessidade de se deslocar fisicamente para obter informações, comprar discos, encontrar as pessoas, ao invés de falar com elas pela internet. Para ler o Melody Maker, por exemplo, tínhamos que ir até uma banca de jornal do Centro do Rio que vendia publicações importadas – com algumas semanas de atraso. Para comprar um disco do Stereolab, íamos à Spider, em Ipanema, ou à RockIt!, no Leblon. E lá encontrávamos pessoas que curtiam o mesmo tipo de som, e descobríamos outras bandas legais, e assim as informações iam circulando. O circuito alternativo era (e continua) pequeno. Muitos lugares não existem mais, como a Kitschnet, a Dr Smith, o Garage, mas outros surgiram, como a Casa da Matriz e o Solar Botafogo. De um modo geral, o que eu reparo é que as melhores bandas atuais são aquelas que buscam conhecer um pouco da história da música e não se baseiam apenas em influências recentes, pós-2000, onde pouca coisa realmente interessante aconteceu no rock. Vide o revival de bandas dos anos 90.

MB: Quais foram as principais influências da Pelvs?

Genu: As bandas que gostamos até hoje e que influenciaram muito a PELVs no início foram REM, Pixies, Dinosaur Jr, Lloyd Cole, The Cure e Teenage Fanclub. Num segundo pelotão, eu diria que vêm My Bloody Valentine, Cocteau Twins, Midnight Oil e outros nomes do rock australiano como The Church, Spy vs Spy e Hoodoo Gurus. Mas é claro que ao longo da carreira fomos bebendo em muitas outras fontes, como Pavement, Yo La Tengo,, New Order, Stone Roses… A lista pode não ser tão eclética, mas é longa.

MB: Vocês já têm vinte anos de carreira. Qual o segredo para uma banda, mesmo com intervalos longos entre lançamentos, manter-se viva e relevante?

Genu: Acho que no nosso caso é a amizade mesmo. Quando eu e o Gustavo nos conhecemos, tínhamos 12 anos e ouvíamos Dire Straits e Rush. A gente passou toda a nossa juventude junto, vivendo experiências muito parecidas. A PELVs é mais da metade das nossas vidas. Os integrantes que foram entrando na banda, conforme outros foram saindo, também são grandes amigos, e sempre que a gente se for se reunir para tocar o extenso repertório que construímos em 20 anos, vamos chamar isso de PELVs.

GB: Você acha que as dificuldades para gravar, divulgar e fazer shows davam às bandas uma determinação que acabava ajudando?

Genu: Para a maioria das bandas, acredito que sim. No caso da PELVs, a verdade é que nunca fomos muito determinados.

MB: Como você compara aquele cenário dos anos 90 com o que temos hoje?

Genu: Mais rico. O que aconteceu de interessante na música, em especial no universo do rock alternativo, nos últimos 10 anos? Enquanto apenas em 1993 foram lançados discos como Last Splash (Breeders), Where you been (Dinosaur Jr), Rido Of Me (PJ Harvey) e Mezcal Head (Swervedriver), para ficar só nesses 4 exemplos.

MB: Lembrando da discografia de vocês, é notável a evolução – em termos de produção e concepção – do Members To Sunna para o Península. O que aconteceu? Você vê essa mudança como uma evolução?

Genu: Sim, acho que os 3 primeiros álbuns da PELVs somados dão o que a banda é hoje. De Peter Greenaway’s Surf (também um disco de 93, diga-se de passagem) para Members to Sunna já foi uma grande evolução, quando gravamos livres num estúdio pela 1a vez, experimentando todos os recursos e sem pressa, porque o estúdio era nosso. Finalmente, em Peninsula, juntamos a crueza de um com a sofisticação do outro para fazer um disco mais redondo e, de certa maneira, pop. Peninsula é o nosso Dirty (Sonic Youth), ou o nosso Out of Time (REM), se formos mal comparar. (risos)

MB: Vocês começaram numa época em que não havia internet. Hoje ela é considerada como o grande fator de união entre fãs de bandas alternativas e facilitador para as próprias bandas lançarem, divulgarem seus trabalhos. Isso realmente influi positivamente ou o cenário do início da Pelvs era melhor? Por exemplo, a internet substitui uma rádio rock, como era a Fluminense FM?

Genu: Não dá para comparar. São outros tempos, outra relação do indivíduo com a informação, como já disse acima. Em cada cenário, as bandas vão encontrando sua forma de se expressar, seu público, medindo suas ambições… No caso da PELVs elas nunca foram muito grandes, apesar de gostarmos de – mais de 20 anos depois – ter uma obra pronta para ser ouvida e o trabalho reconhecido.

MB: Fala sobre como surgiu a idéia de lançar a Caixa e o que ela é.

Genu : A ideia surgiu quando digitalizamos as masters das gravações que ainda estavam em formato analógico. Uma coisa técnica, que acabou dando origem a um projeto mais humano, de tentar dignificar a obra da PELVs, completar o registro musical de quem fomos e quem somos. Não temos vergonha das nossas guitarras barulhentas e do nosso inglês ruim. Mas, como você disse, a banda evoluiu e isso também ficou representado na Caixa.

MB: Como surgiu a ideia de lançá-la no esquema de “pague o quanto quiser”?

Genu: Junto com a Caixa, também estamos disponibilizando no nosso site pelvs.net os 4 álbuns de estúdio que lançamos na carreira. Nossa escolha foi cobrar pelo download dos álbuns, mas não pela Caixa, como forma de chamar a atenção para o trabalho da banda. O bom dessa história toda é que agora todo mundo sabe onde encontrar os discos da PELVs, e para comprar coisas no BandCamp basta ter uma conta PayPal.

MB: Das bandas e artistas atuais, daqui e da gringa, quais você gosta?

Genu: Daqui do Brasil, curto muito Churrus e Supercordas. Lá fora, para falar de coisas mais recentes, gosto do Real Estate e do disco do Yuck. Nomes dos anos 90 também continuam fazendo um ótimo trabalho, como o J Mascis do Dinosaur Jr e o folk singer Lloyd Cole.

MB: Quais são as maiores raridades contidas na Caixa?

Genu: Tudo ali é raridade, porque durante anos ficou restrito ao círculo mais próximo de amigos. Mas eu diria que são as primeiras demos da PELVs, gravadas no Estúdio Horizonte, na Barra da Tijuca, ainda em 1991. A Caixa tem o que consideramos ser a primeira música da PELVs – Members of Tomorrow’s Piu-Piu (volume 2).

MB: Como você definiria a Pelvs para o neófito, que vai atrás da banda após ler essa entrevista? E qual o disco ele deve ouvir primeiro?

Genu:A PELVs é uma banda de surf music com guitarras altas e barulhentas. Apesar de não sermos surfistas, o universo de praia sempre esteve presente no nosso som, e vimos outras bandas como Pixies, Yo La Tengo e até mesmo os Ramones fazer referência ao surf e criar algo original. Isso nos deu certeza de que ali havia um caminho a ser explorado. Eu começaria ouvindo o Peninsula, que abre com Even if the sun goes down (I’ll surf) e representa bem o som da PELVs.

MB: Quais os planos da banda? Tem disco novo no horizonte?

Genu: Os planos até o final do ano são fazer os shows de comemoração dos 20 anos do Peter Greenaway’s Surf e possivelmente relança-lo em vinil. Para 2014, Gustavo vai lançar seu disco solo em português – Velha. Após os shows de lançamento do Velha a gente deve engatar no disco novo da PELVs.

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ARTISTA: Pelvs
MARCADORES: Entrevista

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.