Entrevista: Rodrigo Lariú

Importante figura do Rock Independente carioca nos concedeu uma entrevista exclusiva na qual explica um pouco sobre a cena musical atual, bem como seu famoso impresso dos anos 80/90

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Na virada dos anos 89/90, Rodrigo Lariú não poderia imaginar que teria papel importante na decodificação e mesmo na integração da cena do Rock Independente carioca. E mais: que esta cena se expandiria ao longo da década de 1990, na qual seu zine, Midsummer Madness, evoluiu para selo, no qual Lariú viabilizou discos, fitas e alimentou sonhos de ter/ouvir aquela banda de rock que valia a pena. Batemos um bom papo com ele e perguntamos sobre passado, presente e futuro. Confira!

MB: Antes de ser um selo, Midsummer Madness era um fanzine. Conta pra gente como isso tudo começou. O que te moveu nessa direção?

Lariú: A zine começou em 1989, quando eu tinha 15 anos e estava no 2º grau de um colégio de Niterói. Eu pegava onda e era meio playboyzinho, mas em Niterói, surfista ouvia a Fluminense FM e assistia ao Realce na TV Record. Isso fez com que eu comprasse meu primeiro vinil, Hatful of Hollow do Smiths. Tinha uma amiga da minha irmã, a Beatriz Lamego (Drivellers, Stellar, Enseada Espacial) que já gostava de umas coisas mais cabeçudas. E ela foi nos apresentando bandas novas.

Um dia ela me trouxe uns fanzines e eu pirei com aquilo: “Você pode fazer seu próprio jornal?”. Como minha mãe era historiadora, sempre de esquerda, contra o governo militar, poder fazer o próprio jornal foi uma coisa óbvia para mim. No inverno de 1989, nas férias, eu começei a fazer a Midsummer Madness, meio que sem saber do que falar. O número zero tinha umas bobagens incríveis, era quase um diário aberto ao público. Mandei para o Rio Fanzine (de O Globo) e para o Boletim CENAPI, que falava de imprensa alternativa. E os 2 veículos publicaram notas elogiosas… Dai pra frente, a coisa foi crescendo, o intercâmbio aumentando. Fiz mais 3 edições e, por causa do movimento de bandas em Niterói (Second Come ensaiava lá e eu conheci o Fábio num curso de desenho; o Squonks, com o Leandro, futuro Stellar, Simone, futura Dash e Autoramas, era de Nikiti; além das Drivellers, da minha irmã, Bia, Fabíola e Cadu, todos grandes amigos) eu resolvi começar a falar de bandas nacionais. Ia a shows, ouvia demos, quanto mais obscura a banda brasileira, mais eu gostava.

Dai conheci Killing Chainsaw, Pin Ups e resolvi fazer uma fita cassete para acompanhar a edição 4 do Midsummer Madness, que, se não me engano, saiu em 1991. De novo, a fita deu muito certo, foi super elogiada e comentada em outros zines e na imprensa especializada. Começaram a sair matérias na Bizz, na Folha de SP, na Trip, no Globo de novo, e eu comecei a não dar conta da quantidade de cartas que chegavam pedindo o zine e a fita.

Resumindo muito, além de outros motivos pessoais, o “não dar conta” me fez parar com o zine e me dedicar somente às fitas. Imaginei um esquema onde cada fita seria como uma edição do fanzine, cada fita com release, foto, texto e aúdio. E lançei a 2ª demo das Drivellers, Cachorrona, como a 1ª desta série, depois veio The Cigarettes Foolish Things and Blah Blah Blah e Brincando de Deus Christmas Falls On a Sunday.

MB: Quais os discos que você ouvia responsáveis pela motivação em fazer o fanzine e, mais tarde, o selo?

Lariú: Como disse antes, eu ouvia umas músicas de surfista, mas surfista punk: Smiths, Echo & the Bunnymen, Felt, Joy Division, também tive uma fase de só ouvir coisa punk mesmo, era super fã do Damned, Sex Pistols, o 1º do Clash, Sonic Youth, Ratos de Porão, Cólera, Grinders, Inocentes. Quando começei a fazer o zine, já estava na fase Velvet Underground, Rock Inglês tipo Loop, Telescopes, Ride, my bloody Valentine. A primeira fita cassete a acompanhar a edição 4 do Midsummer Madness tinha Jesus & Mary Chain, Velvet Underground, Telescopes junto com Second Come, Killing Chainsaw e Pin Ups, para mim, a qualidade das gringas e das nacionais era a mesma coisa.

MB: Ao longo dos anos 90, como se deu a evolução do Midsummer Madness?

Lariú: Fiz 4 edições do zine entre 1989 e 1991, todas em xerox, diagramadas no corte e colagem, com alguma ajuda do Leandro, que estudava design na PUC e me ajudou a fazer uma diagramação na máquina de escrever elétrica do pai dele. O resto eram imagens surrupiadas de revistas, decadry e puro instinto. Em 1991 eu entrei para a faculdade de produção editorial na UFRJ. Dai o zine deu um tempo, até 2 amigos da UFRJ resolverem ajudar, a Gabriela Dias (que mais tarde viria editar o famoso Panacea) e Michel Alves, que é jornalista. A edição 5 foi cheia de avanços, a Gabriela fez um estudo de diagramação, usamos pagemaker, parecia mais uma revista independente do que um zine. Nessa fase, em 1994, depois da edição 5 ou 6, é que eu decidi focar nas fitas, estava achando aquela produção toda meio mala, apesar de entender que o “futuro” dos fanzines era esse mesmo, progredir visualmente. Nessa época, 1992 a 1994, eu trabalhava numa loja de CDs importados no Rio, a Spider, e fazia o programa College Radio com uma galera da Pelvs, na Fluminense FM. Estava batalhando espaço no mercado de trabalho e achava que minha experiência com os zines serviria somente para isso: virar jornalista ou trabalhar em revista. Fiz mais 2 edições do Midsummer Madness meio que no susto, uma delas incentivada pelo Dodô (da Pelvs) e outra incentivada pela Livia, minha namorada da época. Estas edições sairam já em papel jornal, rodados em gráficas, com tiragens de 1000 exemplares, editoração eletrônica…

Tudo parecia muito viável, criar um “jornalzinho”, que é como as pessoas chamavam, para falar de música nova, cultura independente. Paralelamente, as fitinhas continuavam a ser lançadas, umas com mais sucesso que as outras, algumas vendendo centenas, outras unidades. Inventamos (nós, os zines, as bandas) um mercado paralelo via correios e lojas especializadas, os primeiros festivais rolaram (Juntatribo, BHRIF, Humaitá pra Peixe, Abril pro Rock), Second Come lançou 2 discos e acabou, Pelvs lançou o 1º disco e foi dispensada da Rock It. Surgiram Raimundos, Planet Hemp, Chico Science, Skank… Uns amigos em comum meus e da galera da Pelvs, o Rodrigo Letier (hoje na TV Zero) e o Marcos Rayol (ex Pelvs, ex College Radio, hoje na Globo) entraram de sócios no Midsummer Madness e resolvemos prensar CDs, que também parecia fácil. Fizemos os 2 primeiros albuns do mm, The Cigarettes Bingo e Pelvs Members to Sunna*. Isso era 1997, e criamos o mmrecords.com.br , que na época era quase que um release eletrônico. O fanzine impresso basicamente parou nessa época, na edição 8, ou 8.1 se não me engano.

MB: Como foi a passagem do Midsummer Madness para a era da internet?

Lariú: Sempre muito lenta. Apesar do site ser um dos primeiros do Brasil de uma gravadora independente, a gente nunca testava nada. Durante um bom tempo o mmrecords ficou sem músicas, só com fotos e textos. O zine na internet nunca aconteceu. Durante um tempo eu até que tentei transformar a area ZINE do site em um blog, mas nunca foi muito regular. Somente em 2006 é que fizemos uma nova versão do site, ai incluindo mp3, um player, videos. O lance é tão devagar que a versão feita em 2006 ainda é a que está no ar hoje… mas estamos trabalhando numa versão nova do mmrecords.com.br

A lentidão sempre foi de propósito, uma postura meio “pagamos para ver”.

MB: Você deu ao fanzine e ao selo a imagem de incentivo e divulgação de bandas indies/alternativas. Como você vê esses dois termos hoje? O que mudou do início dos anos 90 para 2013?

Lariú: Não vejo muito assim… odeio quando as pessoas compram coisas do selo “para dar uma força”, vão a shows “para incentivar”. Prefiro que não comprem, prefiro que fiquem em casa. Quero que as pessoas comprem os discos, escutem as músicas e vão aos shows porque gostam, porque são fãs das bandas, ou estão no mínimo interessadas em conhecer. Isso não mudou.

O que mudou é que nos 1990 os fanzines e as gravadoras como o Midsummer Madness eram necessárias, eram canais de divulgação e hoje não são mais tão necessárias. Hoje é muito mais fácil para uma banda se auto produzir e divulgar.

Outra coisa que não mudou: a proporção de bandas ruins e bandas boas: antes eu recebia 1 demo boa em 10 demos; hoje a proporção é mais ou menos a mesma, só que via link.

MB: O que você acha da cena independente hoje? Algum tesouro escondido em algum lugar?

Lariú: Hoje é muito melhor, mais fácil produzir e distribuir tudo, mais espaços para se divulgar e ouvir coisas novas. Coisas boas avançaram e retrocederam, como a ABRAFIN, associação de festivais independentes, rádios que nasceram e desapareceram, lugares para shows, etc. Mas no geral, o avanço tem sido positivo. Em relação à qualidade artística, foi o que eu disse antes; apesar de ser muito mais fácil de se auto-produzir e distribuir, a proporção de coisas boas e coisas ruins continua a mesma. Sempre existiram tesouros escondidos em todas as épocas.

MB: Das bandas lançadas pelo mm ao longo dos tempos, qual a sua preferida?

Lariú: Não me cause problemas… não tenho preferidas 🙂

MB: Você acha que a internet é suficientemente forte para sustentar algum tipo de cena independente?

Lariú: A internet é uma ferramenta. Ferramentas sozinhas não sustentam nada. Tem que existir pessoas manejando as ferramentas para algo se sustentar. Com as pessoas que temos por trás das ferramentas hoje, acho que ainda falta um bocado.

Um exemplo: quando as bandas hoje dizem que não precisam de gravadoras para ajudá-las, eu acho um retrocesso. As bandas que se isolam, pensam em gravadoras “do mal”, daquelas que sacaneam as bandas. O Midsummer Madness nunca foi uma dessas. Hoje, quando me aproximo de uma banda para fazer um trabalho em parceria, as bandas são arredias, muito autossuficientes demais. Elas se esquecem que a lógica de “unidos venceremos” ainda faz sentido. Então, hoje quando eu ofereço ajuda, em vez de pensar “oba, tem mais uma pessoa querendo ajudar, participar”, não, as bandas se fecham e às vezes acabam errando em coisas bobas. Acho que com o tempo de estrada que temos, o mínimo que o Midsummer Madness tem a oferecer são experiências e ideias. Este é um exemplo de mau uso da internet, no ponto de vista da gravadora.

MB: O que você pensa do envolvimento de verbas públicas em financiamento de festivais musicais no Brasil? Existe algum país em que haja algo semelhante?

Lariú: Sou bastante pragmático em relação ao uso de verbas públicas para cultura: se as verbas existem, temos que nos preparar para usá-las. Porque não usar? Não sei te dizer com propriedade se esse expediente existe em algum outro país, mas existindo ou não, não faz diferença. Se a Inglaterra usa ou não, que diferença isso faz pra mim? Faz diferença quando o meu governo disponibiliza uma verba que está ao meu alcance; no meu modo de ver, tenho que me preparar para usá-la. Nunca usei, até agora.

MB: Qual seria o artista indie quintessencial? Aquele que não perdeu e nem perderá sua aura independente?

Lariú: Não sei te responder. O fato do artista ser ou não independente tem pouca relevância para mim. Me interessa se ele é bom ou não.

MB: Algum arrependimento ao longo deste tempo lançando artistas e bandas no mercado?

Lariú: Sempre digo para os mais chegados: o Midsummer Madness poderia ser algo muito maior e melhor aproveitado se eu não fosse tão preguiçoso. Me arrependo de várias coisas que deixei de fazer por preguiça, ou simplesmente de onda. Acho que se eu tivesse levado mais a sério alguns momentos do Midsummer Madness, algumas coisas poderiam ser diferentes.

MB: O Rodrigo Lariú ouve algum artista ou banda que nós jamais imaginaríamos?

Lariú: Sim, muitos! Houve um tempo em que as bandas me perguntavam se tinha que ser Rock Alternativo cantado em inglês para fazer parte do Midsummer Madness… nunca foi! Esta bem claro que o Midsummer Madness reflete meu gosto pessoal e das pessoas que trabalham comigo; e isso entrega o que eu ouço. Mas fora isso escuto outras coisas que não lançaria pelo mm pois seria um desserviço ao artista, não ao selo. Gosto de Motown, escuto alguma coisa de MPB e samba, gosto muito de um disco da Nazaré Pereira que fez parte da minha infância.

MB: A modernidade nos aponta para produção menor e direcionada para públicos restritos. Você acredita que fãs de bandas do mm são potenciais fiéis compradores de edições em K7, vinil e formatos “antigos” mas que voltaram à cena glamurizados? Como você vê isso?

Lariú: Tomara que você esteja certo nesta sua projeção. Mas para o Midsummer Madness não seria novidade: os lançamentos sempre tiveram tiragem limitadíssima e direcionada. Hoje em dia a coisa mais bacana é quando vou a casa de algum amigo ou conhecido e vejo que eles guardam as demos que lançamos na prateleira de discos, juntos com suas preciosidades. Em alguns casos, as fitas nem tocam mais, mas as pessoas guardam. Foi pensando nisso que o Midsummer Madness lança seus eps e álbuns desde 1991.

MB: Algum artista gringo que você gostaria de ter descoberto ou lançado antes de todo mundo?

Lariú: Não tenho essa capacidade, como disse, sou preguiçoso.

MB: Quais seus planos para o Midsummer Madness no futuro?

Lariú: Curto prazo é colocar no ar uma nova versão do site mmrecords.com.br para dar mais visibilidade e praticidade aos lançamentos do selo. Ainda este ano vamos lançar o 1º álbum do The Baudelaires, de Belém do Pará, em parceria com a banda e a gravadora Ná Discos, que eu admiro muito; vamos lançar também o debut dos gaúchos do Loomer, e talvez a versão física do disco da baiana Nana. Ou seja, do Pará ao Rio Grande do Sul, passando pela Bahia.

Já lançamos o 3º álbum do Churrus, um vinil 7″ do Motormama e ajudamos no lançamento da Caixa 1991 – 2012 da Pelvs. Vamos produzir os shows de 20 anos do “peter greenaway’s surf” da Pelvs também.

Os planos são de continuar lançando bandas novas e discos das bandas de catálogo ainda em atividade, e também digitalizar todo catálogo da gravadora, hoje com 135 EPs, 36 CDs e mais de 100 bandas já lançadas.

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MARCADORES: Entrevista

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.