Entrevista: ruído/mm

Banda paranaense fala sobre carreira e o novo disco, “Rasura”

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Livres de rótulos, supostamente ínfimos como os mais importantes fragmentos sonoros, os paranaenses do sexteto ruído/mm lançaram Rasura, seu novíssimo álbum, há cerca de um mês. Integrantes de uma nova leva de grupos brasileiros que não tem como principal objetivo a carreira nos moldes convencionais, a ruído/mm tem o melhor das recentes tradições decalcadas pelas boas bandas de Rock instrumental que surgem no mundo. Alexandre Liblik (piano, teclado e escaleta) e Ricardo Pill (guitarra) bateram um papo conosco sobre o momento do Rock produzido no Brasil, possibildades de shows do novo trabalho, além de contar um pouco de sua história.

Monkeybuzz: Qual vocês consideram o grande diferencial de Rasura em relação à discografia de vocês?
Alexandre Liblik: Todos os discos do ruído até hoje foram diferentes; talvez este seja o diferencial do ruído (e do Rasura neste caso) – aliás, se eu fosse criar um brasão do ruido/mm, o mote poderia ser “sempre em movimento”(Semper in motu).

Mb: Falem um pouco da história da banda.
Ricardo Pill: Cara, temos 4 discos lançados, onze anos de banda, algumas formações diferentes, somos loucos e loucos por música e pelo processo…não cogitamos demais, vamos compondo e ensaiando e gravando e fazendo shows, procuramos peças-chaves, e calafrios…

Mb: Como vocês lidam com o mercado da música independente no Brasil atualmente? Como fazem para seguir com condições de produzir, gravar e lançar?
Pill: Com mercado não lidamos, vamos fazendo o que gostamos, e a divulgação é no DYI, com apoios quando possível, assessoria de imprensa, fotos, videos, artes, shows… Tudo isso é feito por pessoas com quem temos sintonia. Vamos apostando no instinto, conversamos com pessoas e a coisa vai acontecendo, se existe um interesse mútuo… Mas acho que falar em mercado é justo pra quem roda o país, vende muito disco etc, nós somos pequenos, minúsculos, ruídos.

Mb: Falando em diferenças, como vocês situam o trabalho da banda dentro do que se chama de Post-Rock? – Aliás, como vocês definem este rótulo? Gostam dele? Acham que é válido?
Pill: Nos não situamos nada , as pessoas situam de acordo com o que acham. Não ligamos para o rótulo porque ele é abrangente, mas não nos encaixamos nem rejeitamos o que o termo representa.

Mb: A que vocês atribuem o crescimento de bandas e artistas neste segmento instrumental do Rock a partir do fim dos anos 90?
Pill : Chutando… O crescimento de bandas instrumentais aconteceu porque o acesso a processos de gravação (estúdio) cresceu muito assim como meios de veiculação (Internet), além, é claro, de ressonância mórfica, e isso possibilitou pessoas a arriscarem mais e mostrarem que existe pluralidade no mundo.

Mb: Poderíamos dizer que existe uma cena post-rock no Brasil atualmente?
Pill : Essa pergunta de cena é muito complicada. Se me permite, vou replicar parcialmente um texto que escrevi para a Revista O Grito:

“Pra mim, cena é interação, onde encontramos um grupo de pessoas que produz ‘arte’ e consome ‘arte’ de forma razoavelmente parecida. Em Curitiba nos encaixamos um pouco mais nisso, trombamos com as pessoas trocamos ideias, vamos a shows. Existe uma troca e um interesse mutuo pelo simples fato que existe frequência de encontro. Quando conseguimos viajar ou trazer bandas de fora isso rola também, mas a frequência ainda é pequena… Em 2007, o Ramiro trouxe umas dez bandas de fora do Paraná pra tocarem conosco, entre elas Constantina, Labirinto, Ludovic, Colorir, Hurtmold… Isso gera interação. Mas, quando você é banda e tem que trabalhar como produtor também, o peso é enorme. E é aí que falta a estrutura de apoio para bandas com público menor. Produtores, bookers, selos, distribuidores… e existe a interação via Internet que às vezes é de fato uma interação e em outros casos um processo de classificação e categorização por algum tipo de semelhança… Mas pra isso ser chamado de cena é outra história”.

Mb: Como vocês lidam com o uso da eletrônica nas composições da banda? Vocês têm um método próprio de composição?
Liblik: Adoraríamos utilizar o máximo de instrumentos e timbres orgânicos, mas nem sempre é possível contar com uma orquestra para gravar o que desejamos. Neste sentido, os teclados ajudam bastante no controle do orçamento! De qualquer forma, o uso de pedais, um emulador de theremin, alguns timbres fritos nos teclados fizeram parte de várias músicas no disco. Além disto, como o Ramiro foi morar no Rio, tornou-nos obrigatório no processo de composição e gravação o uso dos computadores. Utilizávamos os mesmos softwares para trocar informações (improvisos, temas, vozes, instrumentos), o que facilitou sobremaneira o processo criativo. O que construímos neste processo – inevitavelmente rasuras – teve que ser formatado ao vivo, nos ensaios. Não creio que seja um método próprio de composição mas simplesmente, necessidade.

Mb: Já tiveram alguma canção com letra? Sentem essa vontade às vezes?
Pill: Nunca fizemos. Quem sabe um dia damos um de Air, Yann Tiersen ou Fatboy Slim, mas, mais do que vontade, é preciso de sinestesia pra isso rolar algum dia.

Mb: A banda ganhou visibilidade quando recriou Índios, da Legião Urbana. Como foi fazer a adaptação de uma canção tão conhecida para o universo de vocês?
Liblik: Então, você perguntou antes se “já tivemos uma canção com letra”. Eu acho que há palavras demais no mundo. Há outras maneiras de dizermos as coisas. Nesta música em questão, acho que podemos exemplificar isto. O desafio era sacar fora uma letra de uma canção, de uma banda cuja poesia é absolutamente dependente das palavras e buscar nesta reconstrução, utilizando somente elementos musicais, uma expressão (subjetiva) poiética que fosse digna da poesia inicial.

Mb: Com o lançamento de Rasura, quais são os planos da banda para divulgação? Pretendem excursionar no país, ou fora?
Liblik: A banda existe para tocar, assim como a música só existe de fato no “ao vivo”. Quem já ouviu o ruído costuma dizer que os shows são um outro tipo de experiência, diferente da experiência musical pura bem como diferente de uma gravação. Este é o coelho na cartola. É o efeito-bolha, é aquele momento em que as sincronicidades acontecem e quem está lá, compartilhando aquele momento quântico, aquele emaranhamento, só quem está lá de fato sabe o que sentiu. Este é o nosso plano. Excursões, estamos sempre lutando para viabilizar.

Mb: Quais são as influências de vocês? Existe algum artista que vocês gostam e cuja influência não aparece de jeito nenhum no som de vocês?
Liblik: Influências do ruído/mm – olha, isto merece um verbete na Wikipedia. Eu posso te descrever o que cada um ouviu hoje no café da manhã mas ainda assim seria longo. Nós somos tarados por música. Agora isto de gostar e não aparecer como influência como na tua pergunta. O problema é que “influência” como você colocou, fica um pouco vago. Influência é algo que você respeita? Ou admira? Ou copia? O Bloom (Harold) criou este conceito de angústia da influência, que poderia ser aplicável à música também, por que não? Neste caso influência seria algo que me desafia a superar? A ultrapassar? Bem vamos interromper a filosofia – seja como for, a influência é um tipo de respeito, algo como de aluno para mestre – logo é impossível se desvencilhar desta referência/reverência. Se gostamos está lá, em nossas memórias afetivas e é material para algo que compusemos ou vamos compor ainda.

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ARTISTA: ruído/mm
MARCADORES: Entrevista

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.