Entrevista: Thiago Pethit

Conheça mais da “Estrela Decadente” ao ouvir o que o artista fala sobre seu disco, Lana Del Rey e a cena contemporânea em que está (ou não) inserido

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Conheci Thiago Pethit por conta da resenha que fiz para o seu álbum, Estrela Decadente. Começamos a trocar algumas mensagens, depois nos encontramos em um de seus shows, daí alguns emails e marcamos de sentar para conversar sobre o disco, um dos mais interessantes que ouvi em 2012. Entre o eu-lírico das músicas, a figura que canta, toca, dança e brinca no palco e o cara sentado à minha frente na cafeteria, há mais semelhanças do que diferenças. Thiago gosta de conversar, ri bastante e fala com o mesmo misto de confissão e libertinagem que algumas de suas composições parecem ter nas entrelinhas, como se o papel que interpretasse fosse o da sua sinceridade. Ao divagar sobre as pequenas coisas, ele toma a liberdade de se contradizer em pequenos detalhes e de mudar livremente de opinião no meio do raciocínio. Contudo, ao falar sobre seu trabalho, revela um grande domínio sobre sua obra e, ao falar de coisas sérias, não tem medo de contar ousadamente mais sobre si mesmo. Confira o que a Estrela Decadente disse sobre seu disco, a cena em que está (ou não) inserido e Lana Del Rey, logo após o play em seu álbum.

Monkeybuzz: Sempre que ouço o disco, vejo um trabalho em volta de um personagem no palco e isso fez ainda mais sentido vendo seu show. Até o clipe de Pas de Deux, com a Laura Neiva, que dá a cara ao disco, tem essa questão teatral. A Estrela Decadente é o personagem central desta peça? Thiago Pethit: (pausa) É e não é. Eu acho que a ideia de um personagem é mais como se fosse um grifo muito forte de mim. Ele vira um personagem porque aquilo é quase real, é quase uma mitologia. Tudo foi pensado um pouco desse jeito. Por exemplo, as fotos que a gente fez, feitas em estúdio, com uma luz artificial, porque tudo é artificial. Você vê aquelas fotos da Marilyn Monroe nos anos 50 e ela não é um ser humano, né? E quando você coloca as pessoas nesse outro lugar, é um artifício. O disco é cheio de artifícios. Então, essa “persona” soa personagem porque é um “extrato artificial do Thiago Pethit”, sabe? Acho que é meio isso. “Sabor artificial Thiago Pethit”. Se fosse o “sabor natural orgânico”, seria o Berlim, Texas. Acho que esse disco tem mais disso. Mesmo no show, são propostas muito diretas. Acho que quando você não sabe com quem você está falando, fala de um jeito menos preparado, pro bem e pro mal. O disco tem disso. Ele tá falando algo pra alguém de um jeito muito específico. Por isso tem muito de um personagem, dos artifícios, do jeito de me portar, de um jeito de lidar com situações. Mas, no fundo, é engraçado, porque é muito confuso explicar isso assim. É um exercício muito pra mim mesmo, muito de pessoa. Acho que no primeiro show do álbum que eu fiz no Pompeia, teve um momento em que as pessoas começaram a gritar “Lindo!” e não sei o quê, aí teve um grande grito de alguém que falou “Thiago, lindo!” e eu falei: “Eu não sou lindo, eu sou maravilhosa” (risos). Tem a ver com a postura que eu tô assumindo nesse show, que parece uma coisa meio personagem, mas que na verdade é um exercício de mim pra mim mesmo. Quando saiu uma matéria em um jornal sobre esse disco, o Rogério Skylab escreveu no Facebook: “Enquanto isso, Thiago Pethit representando a falsa decadência. Ele precisa levar uns tapas pra aprender a ser gente”. Eu li aquilo e falei “que engraçado, que louco”. Aí, na hora, eu não aguentei e respondi “Me bate, Skylab” com um coraçãozinho, aí ele foi lá e deu um like (risos). Eu to me propondo a agir com o mundo de um jeito , com uma postura, que é quase um personagem. Mas é mais uma persona, mais um jeito de bancar situações. É para além do palco e para além do disco. Eu tô olhando pra minha vida com essa atitude.

Mb: A pista que ele me dá sobre isso é que as músicas me parecem narrativazinhas que, por mais que sejam parte de um todo, se encerram em si mesmas. Como se cada uma tratasse de um assunto ou situação específica, ou se cada uma fosse um traço do Thiago Pethit ou da Estrela Decadente. Pethit: Acho que sim, acho que são traços. Elas se encerram em si mesmas, isso é um fato.

Mb: Às vezes eu ouço um verso e aquela frase me fez sentido, mas fica a sensação que só você sabe o que ela quer realmente dizer, como se todas as histórias carregassem histórias muito maiores por trás. Pethit: (Sorri e balança que “sim” com a cabeça) Não é tipo Ziggy Stardust, não tô contando a história do ET que caiu na Terra. Na verdade, o que fez que eu juntasse essas músicas em um disco só é que elas foram feitas na mesma época. Em algum momento, passou pela minha cabeça dar este nome: Canções de Maio a Dezembro, porque elas foram histórias que me suscitaram músicas ao longo de um só período mesmo. Depois, no momento de concepção do disco, é que elas foram ganhando outras familiaridades, com intenções próximas, mas são, de fato, histórias diferentes e climas diferentes e traços diferentes, assuntos diferentes. No fundo, os assuntos nem são tão diferentes, porque no fundo eu sinto que eu sempre falo sobre a mesma coisa.

Mb: Sobre o que? Pethit: Milhares de coisas (risos). Não, no fundo é sempre… (pausa) É que eu vou dizer que são músicas de amor, mas se eu disser isso, vou reduzi-las a alguma coisa que pode ser muito mal interpretada, mas… (pausa)

Mb: Músicas com amor? Pethit: Isso com certeza. Músicas de amor sem amor nenhum, ou o contrário. O inverso também é verdadeiro (risos). É que, no fundo, parece que a minha intenção é sempre a mesma. Eu sempre faço uma música porque eu quero dizer alguma coisa pra alguém muito específico, ou porque eu preciso entender uma coisa muito específica. São coisas reais, não faço música sobre um insight que eu tive na ioga quando meu corpo transmuta – não. Ela sempre surge com essa ideia de “carta”, digamos assim, ou pra alguém ou pra mim mesmo. Eu gravo ou mostro uma música com uma necessidade de ser entendido, de ser olhado pelas pessoas que vão pegar aquilo e ser desmascarado. Sei lá, acho que o meu trabalho todo é uma grande necessidade de compreensão. Não é de amor, eu não preciso ser amado pelas pessoas, eu preciso que elas me vejam e me compreendam e, se eu não tenho isso, eu não consigo lidar com o mundo. Sei lá, é uma coisa muito forte pra mim, sempre foi, desde quando eu fazia teatro era uma questão pra mim. Parece que eu tenho uma necessidade de dialogar com o mundo que é insuportável. Às vezes é enlouquecedor, eu queria não ter essa necessidade – eu não sei por que eu tenho essa porra dessa necessidade (risos), é um negócio muito louco. É uma ânsia de ser compreendido e de querer dialogar. (Pausa) Engraçado, eu também fico muito interessado em ouvir o que as pessoas tem a dizer. Me interessa muito mais quando você fala “eu ouvi no disco isso”, “eu saquei isso, eu saquei aquilo”. Me interessa muito mais ouvir isso do que falar sobre isso. Eu gosto, eu “caço” meu nome na Internet pra saber o que pensam. E não é no sentido egóico, “será que estão falando de mim?”. Não, é “o que estão pensando sobre isso?”, “será que alguém entendeu isso?”. Por isso que, quando eu leio uma resenha e falo “Cara, foi no ponto”, eu fico meio impressionado. E eu AMO quando leio resenhas que não entendem nada. Amo. Por que aí eu fico tentando entender porque aquela pessoa pensou daquele jeito, se é um problema dela, da visão de mundo dela, se é um problema meu, no que ela tem razão, no que ela não tem… Porque se eu não tenho isso, eu não tenho mais o que fazer. Foi o que eu descobri com esse disco, especificamente. Se eu não tenho esse diálogo, se eu não tenho respostas positivas e negativas, eu jamais saberei qual é o próximo passo, sabe? Porque aí o assunto acabou, o diálogo acabou. Não faço música pra mim mesmo, não consigo. Não é que eu tenho uma necessidade de fazer música, daí eu faço e acabou. Eu preciso do diálogo. É muito louco, eu só faço as coisas que eu faço por essa questão mesmo. Já considerei “ah, se tudo der errado, vou cantar nuns barzinhos uns covers”. Jamais me interessaria em fazer isso, isso é qualquer coisa menos um diálogo.

Mb: Então você não compõe muito? Pethit: Nossa, poquíssimo. Eu tenho fases. Às vezes, passa uns seis meses e nada me inspirou, ou eu fiquei com preguiça, e, de repente, vem oito músicas, tudo meio de uma vez. Não é que elas vem prontas, mas vem alguma coisa aí, depois eu vou elaborando. Engraçado, acho que eu não componho muito também porque eu me satisfaço muito por estar no palco, gosto muito de fazer shows. Na verdade, eu faço tudo isso só para fazer shows. Então, é um negócio que me completa muito, fico muito satisfeito e não tenho mais vontade nenhuma de dialogar: Eu já tô dialogando. Tanto é que eu componho mais em entre-safra, quando tem menos show, já passou mais tempo do disco, aí começa a ter menos shows, aí eu começo a ter mais necessidade de botar frases na roda, de comentar mais a vida.

Mb: E você é daqueles que “sofrem” na hora de compor? Pethit: Às vezes, eu sofro de achar que nunca mais vai acontecer. Tipo “putz, nunca mais vou conseguir compor”. Das minhas experiências, acho que o momento mais crítico foi no ano passado, quando voltei a compor o que veio a ser mais ou menos as músicas desse disco, eu fiquei muito autocrítico demais. Eu já sou muito autocrítico e eu estava num ponto em que eu não conseguia mais fazer. Não estava conseguindo deixar vir, eu já criticava antes de chegar, sabe? Ali, eu achei que nunca mais iria compor. É difícil, é um exercício se expor, ter que criar. Não é moleza (risos).

Mb: Por isso que eu disse que tem músicas que estão aparentemente completas, mas com muito mais por trás. E é aí que está a “alma”, o “coração”. Porque, por mais que eu veja um personagem, eu estou sendo lembrado que há uma pessoa por trás. É diferente da banda que eu ouço que faz um som muito legal, mas que a música não só parece artificial, mas é mesmo. Pethit: É engraçada essa coisa do personagem, agora eu tô pensando em outra coisa que é assim… (pausa) No fundo – os atores falam muito isso -, os personagens nada mais são do que alguma coisa sua que você está expondo e dando outro nome, digamos assim. Engraçado que eu estava vindo pra cá pensando nisso, mas em um outro assunto: Lana Del Rey. Olha que loucura (risos). Ela é toda errada, né? Mas é engraçado, porque tudo nela parece que se encaixa muito bem nesse erro que ela é. Ela tem uma beleza super manufaturada, ela tem uma carreira que a gente não sabe muito bem se é de verdade ou se não é, mas eu gosto de uma coisa: As intenções dela estão certas. A sensação que eu tenho é essa, que ela tem as intenções certas. Ela fez um botox na boca pra ser uma pin up girl dos anos 40 meio bitch, não pra ser a Parils Hilton. Tá tudo errado, mas está tudo no lugar certo. E ela é toda um personagem, mas ela optou, ela fez essa escolha por esse personagem, não por outro, então isso também diz quem ela é, né? Quer dizer, não sei no caso dela, mas no meu caso, ainda que tenha sido um personagem, ele também revela muito de mim porque eu optei por ele querendo me mostrar, então aquilo também revela muito de quem eu sou, de algum jeito. I don’t know. Era uma reflexão no trânsito (risos).

Mb: Eu ia mesmo tocar no assunto Lana Del Rey porque tem uma coisa que eu noto em comum nos dois, que é… Pethit: (Interrompendo) Que as pessoas amam odiar? (risos)

Mb: … Uma outra coisa que eu noto nos dois (risos) é uma ênfase muito grande no “eu” nas músicas, essa exposição muito grande desse personagem. E seu trabalho é sobre uma Estrela Decadente e, quando eu leio tantos “eus”, faço essa ligação. Pethit: É, não sei. Eu gosto e não gosto da Lana Del Rey. É um pouquinho guilty pleasure, ao mesmo tempo em que eu me identifico tanto, porque muita gente talvez se relaciona com a minha música do mesmo jeito. Outro dia, alguém disse “Thiago Pethit é a Lana Del Rey do Brasil” e eu fiquei pensando “meu, isso tem um ‘fundico’ de verdade”. Não pensando em mim, mas na relação que o público tem muitas vezes com o meu trabalho. Acho que muita gente me tem também como guilty pleasure, ou como alguma coisa que elas amam odiar. É muito engraçado, muita gente nem sabe quem eu sou, nem sabe o que eu faço e diz “O Thiago Pethit isso, Thiago Pethit aquilo”, ou já sai dizendo as piores coisas…

Mb: Ao mesmo tempo que existe sim uma carga “cult” em dizer “eu gosto de Thiago Pethit”. Pethit: Aham, aham. Fale mais sobre isso (risos).

Mb: (risos) Então, tem as pessoas que fazem questão de gostar de Thiago Pethit. Pethit: Sim, sim, claro, claro. Como Lana Del Rey (risos). Foi mais ou menos como ela surgiu, as pessoas nem sabiam direito quem ela era, mas diziam “ah, eu gosto de Lana Del Rey”, aí surgiram os haters. Ah, é engraçado. São coisas que fogem muito do meu controle. Fico imaginando que tem tanta gente que me vê, ou lê entrevista, me vê falando e acha que eu sou muito arrogante, que eu sou muito blasé, e eu fico pensando “mas, meu, eu estava super simpático”, ou tímido, “tentei não ficar falando coisas que parecessem muito blablablá”. Por que que a pessoa achou isso? Parece uma coisa que transcende, assim, mas acho que isso está muito no artista, no que você associa muito à obra de uma pessoa, como isso do pseudo-cult que todo mundo precisa dizer que gosta ou precisa dizer que odeia. A culpa, em algum lugar, deve ser minha também. Mas, whatever, prefiro isso a outras coisas (risos).

Mb: Antes de trabalhar com música assim, você pensava isso de algumas pessoas e, agora que você está dentro, você tem uma perspectiva diferente? Pethit: Mais ou menos, porque eu já comecei logo antes da “minha turma” – e quando eu digo “minha turma” não é tipo “Novos Paulistas”, é tipo “antes da minha geração”, porque eu comecei quando começou. Então, antes disso, era muito difícil você ouvir o nome de alguém da música que não fosse muito mainstream. Aí você pensa oitenta milhões de coisas sobre essas pessoas, é muito fora da sua realidade, eu não tinha opiniões para elaborar um pensamento desse tipo. Como eu comecei quando todo mundo parece que começou, quando voltou a se falar de uma música jovem sendo feita no Brasil e blablablá, já era olhar para os outros artistas com o mesmo olhar que eu tenho sobre mim, então já é uma outra relação.

Mb: Você se sente dentro de uma cena, ou de uma “turma”? Pethit: Sim e não. Sim, porque eu sinto que a gente toca nos mesmos lugares, vai pros mesmos festivais, está nos mesmos blogs e jornais e mais ou menos o mesmo público escuta os mesmos artistas. Então, nesse sentido, eu me identifico, sinto que eu tô inserido em alguma coisa. Por outro lado, eu me sinto muito sozinho também. Me sinto muito afastado de uma turma. Em algum momento, eu já me senti mais próximo – acho que ali no começo, quando estavam pipocando nomes. É a vida, eu lembro quando lancei o Berlim, Texas, todos os artistas falavam muito que “a gente é de uma mesma geração, a gente é muito amigo, a gente faz coisas juntos” e, se alguém disser isso hoje, é uma mentira, porque ninguém mais se encontra – mas porque elas trabalham muito, não porque elas não se gostam. Não vejo a Tulipa há muito tempo, a gente se cruza quando a gente tá trabalhando junto, ou no aeroporto. Então, isso me retirou um pouco dessa cena e, ao mesmo tempo, não sei, me sinto muito mal interpretado e muito confundido com pseudo mil coisas que, na verdade, não condizem com meu trabalho e eu acho isso muito diferente do resto da turma. Pro bem e pro mal, porque, na verdade, eu gosto disso. Eu gosto de fazer coisas que as pessoas vão odiar – a verdade é essa – tipo tocar Lana Del Rey no meio de uma música minha. É óbvio que as pessoas vão me criticar, é óbvio que as pessoas vão achar que é pseudo-cult, vão me chamar de hipster e vão o caralho à quatro. É óbvio. Mas, mais óbvio pra mim é “resgatar um clássico brasileiro brega, colocar num show e as pessoas vão amar e vão dizer que aquilo é gênio”. Não, prefiro fazer uma opção que pareça no mínimo mais original, só por que vão odiar, que seja. Então, por um lado, eu gosto desse lugar onde eu fico mal dito. E maldito também (risos). Mas, no processo de fazer esse disco que eu descobri que algo em mim, mais forte do que eu, minhas intenções, minhas vontades e minha existência no mundo, me coloca nesse lugar. Eu gosto, eu faço, eu alimento isso na minha persona, publicamente e tudo o mais. Por outro lado, eu me sinto muito rejeitado muitas vezes, ou mal visto, mal interpretado – o que é péssimo, já. Ser ignorado é uma benção, perto de ser mal interpretado. E eu me sinto muitas vezes meio como o Patinho Feio dessa turma, sabe? Mas é muito louco, por que talvez todo mundo se sinta assim também. Talvez três pessoas não, mas elas não falam sobre isso. Acho que a diferença é um pouco essa. Pra mim, isso já é uma questão estética, já virou uma questão artística. E aí me sinto completamente excluído de uma turma. Aí tem outras coisas que me fazem me sentir excluído. Por exemplo, eu sou, de todos os artistas que eu convivo, o único que não tem empresário, selo ou gravadora. Talvez alguém não tenha empresário, mas tenha selo, ou vice-versa. Eu não tenho nada e nunca tive. Então, tudo o que eu fiz até agora, fui eu que fiz e eu que conquistei. Acho que em todos os meios, mas principalmente nesse meio “indie” – que é indie, mas não é -, nem tudo o que reluz é ouro. Então, muitas vezes você vê um artista de destaque em um evento de TV e não faz nenhum sentido ele estar lá, porque ele não está nem concorrendo àquele prêmio e ninguém sabe quem ele é, mas ele tem uma grande mutreta por trás, porque tem um empresário. Ele não está lá porque ele é foda e tinha que estar lá. Ele está lá porque deu um jeito de estar. Então, sempre que eu estou em algum lugar, fui eu que dei esse jeito, essa é a grande diferença. E se eu dei esse jeito e eu não sou filho do Roberto Marinho e não sou ninguém a não ser eu mesmo, é porque eu conquistei aquilo com trabalho, trabalho mesmo. Então, acho que essa é uma coisa que me diferencia muito de muitas pessoas da minha geração, pro bem e pro mal. Tudo é pro bem e pro mal no meu caso (risos) porque, por um lado, as conquistas são só minhas – e isso também vira uma questão artística pra mim – e, por um outro, porque eu me sinto como aquele que tem menos, aquele que “podia, mas não foi”. Engraçado, eu gosto um pouco disso também, é uma loucura.

Mb: Pra mim, você está descrevendo uma Estrela Decadente mesmo. Pethit: É exatamente isso.

Mb: Como foi encontrar esse conceito? Pethit: O nome em si foi das últimas coisas que apareceram. Eu tinha (pausa) Bom, é toda uma longa história. Depressão. De junho a dezembro, o período em que eu compus essas músicas, eu estava em depressão de verdade. Eu tive uma crise de estresse que me deixou meio debilitado fisicamente, tive que parar, que cancelar show e tudo por estar exausto de fazer tudo sozinho, então aquilo começou a pesar na minha cabeça emocionalmente e eu entrei em depressão. Nasceram essas músicas nesses meses. E eu tinha meio decidido que eu não queria mais gravar um disco, que eu não queria mais fazer parte de um mercado. Quando eu digo isso, não é que eu não queria mais fazer música. Eu queria, mas não mais aquilo de fazer um disco, daí mandar pros jornalistas, aí eles falam o que eles acham e aí você faz show, se você tem um bom empresário você faz X. Isso era algo que estava me torrando a paciência, porque no fundo é tudo um produtinho, uma bobagem. Então, eu estava quase elaborando o que seria um projeto de artes plásticas com música. Eu ia conversar com um amigo que é artista plástico e ia tentar elaborar algo com ele. Só que aí, em algum momento, eu comecei a ter ideias pra outras coisas, não um disco. E eu fui fazer uma turnê em Lisboa, eu tive um intervalo e cheguei em Berlim. Cheguei lá e acordei bem pela primeira vez nesses meses todos. Eu estava ouvindo um disco da Cida Moreira cantando Brecht e me veio essa imagem: James Dean de batom. Isso tinha um pouco a ver com o trabalho que seria de artes plásticas. Só que aí, de repente, parece que as coisas foram se fechando, tudo foi virando um disco na minha cabeça. E as músicas que eu tinha composto naquela época me faziam muito sentido e eu sabia exatamente o que poderia ser feito, o que que eu queria, daí eu voltei pro Brasil e falei “vou ter que fazer um disco, não vai ser agora que eu vou dar outro passo”. Então, por um lado, eu já tinha essas músicas que, de algum jeito, foram escritas num período quando eu estava botando muito à prova a minha existência como artista, no fundo porque eu já estava me sentindo uma “estrela decadente”. As questões eram essas, eram “alcancei alguma coisa, mas é algo meio decadente, o quanto eu sou um artista da decadência e o quanto eu sou decadente?”, enfim, eram questões que – não com essas palavras – já estavam ali pipocando. E, ao mesmo tempo, tinha essa coisa dos ícones que tinham me inspirado. Tanto a coisa do James Dean, como o Andy Warhol. Tudo começou porque eu li o livro da Patti Smith, o Só Garotos, no fim de 2010 pra 2011, e eu passei o ano com aquele livro na minha cabeça. Então, de repente, eu tinha esse apanhado de sensações do que eu sabia que o disco seria e, ao mesmo tempo, tinha essas imagens, esses ícones, esses nomes dessas pessoas que, no fundo, são estrelas já passadas. E eu lembro que eu fiquei tentando buscar nomes que fossem muito imagéticos, ou que remetessem a alguma coisa de imagem, porque eu já achava que o disco era mais imagético do que musical. Então eu pensei em Cinemascope, aí eu lembrei que tinha o Technicolor dos Mutantes. Tentei buscar nomes de coisas de imagens. Estrela Decadente era uma frase de uma música, da Dandy Darling, em que eu falo “a declining star”. E aí, na hora, pensando um pouco nessa coisa dos ícones de cinema pra tentar achar imagens, eu falei “nossa, tem essa frase, é isso”. Foi meio assim, assunto encerrado.

Mb: Isso de ser multilinguagem, de ser do palco e ter projetos de imagem, você acha que é o seu lado “cosmopolita”, de ser filho da nossa época? Pethit: Sim, sim. Eu acho que, por um lado, tem muito da minha personalidade. Eu sou uma pessoa muito mental, muito mais do que uma pessoa emocional. Minha cabeça fica 24 horas com muita informação e acho que isso é uma coisa muito geracional. Não é à toa que eu fiz um disco tão imagético em um ano em que eu entrei tanto no Tumblr. Acho que tem a ver com esse mundo multifacetado, muito cheio de informação, muito cheio de referências. (pausa) Olha, a Lana Del Rey também.

Mb: Viu como você é a Lana Del Rey do Brasil? Pethit: (cantando) “My pussy tastes like Pepsi-Cola” (risos).

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ARTISTA: Thiago Pethit
MARCADORES: Entrevista

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.