Entrevista: Tiago Iorc

Após grande sucesso no Brasil e exterior, o músico precisou trocar o Rio de Janeiro por Curitiba para trabalhar no seu segundo álbum, “Umbilical”, produzido por Andy Chase – que já trabalhou com The Smashing Pumpkins. Saiba mais sobre seu novo trabalho

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Para seu segundo disco, Tiago Iorc precisou fugir de toda a comoção ao seu redor, causada principalmente por suas músicas em trilhas de novela e sucesso no exterior – dois fatores que contribuem para o assédio constante da mídia de celebridades. O Rio de Janeiro foi trocado por Curitiba e foi assim que começou a nascer Umbilical, trabalho mais intimista que o anterior que flerta com algumas vertentes da música Indie, com uma leve desaproximação do pop de seu trabalho anterior.

Novamente cantando em inglês (língua que ele domina desde a infância, por ter morado no exterior) e produzido por Andy Chase, que já trabalhou com The Smashing Pumpkins, Iorc faz aquele passeio dentro de si mesmo que a reclusão permite, entregando composições podem não só repetir o sucesso de Let Yourself In, seu primeiro álbum, mas encontrar um novo público fã de Indie Folk e Folk Rock. Aperte o play abaixo e ouça as músicas de Umbilical enquanto lê nossa conversa com o músico sobre o processo de produção do disco.

Monkeybuzz: Como foi o intervalo entre um álbum e outro? Qual foi a diferença de entrar no estúdio agora pela segunda vez, já com experiência? Tiago Iorc: O primeiro disco foi um grande despertar. Foi a partir dele que resolvi, de fato, viver de música. Com todo meu interesse voltado para me desenvolver artisticamente, comecei a buscar minha forma de compor, escrever, expressar, projetar minha voz. Isso me deu mais segurança para o segundo disco. Todos os dilemas e ansiedades primárias que surgiram no primeiro disco foram se resolvendo ao longo desses três anos. Naturalmente, surgiram outros novos, mais complexos. Imagino que será sempre assim. É um processo de auto-descoberta e de busca por uma complitude que me inspira a continuar fazendo o que gosto.

Mb: Quais você vê como as melhores vantagens de ter Andy Chase na produção? Como foi trabalhar com ele? Iorc: Trabalhar com o Andy foi um grande presente. Nos identificamos muito um com o outro e soubemos nos dar a liberdade para complementar o trabalho de cada um. Pela primeira vez, trabalhei com alguém que tem o inglês como primeira língua. Foi bom poder dividir minhas letras e ter alguém as compreendendo e opinando sobre a melhor forma de expressar cada palavra. No estúdio, com a banda, foi tudo muito espontâneo. Fomos registrando todo processo criativo e muito do que se ouve no disco surgiu de takes iniciais, onde ainda estávamos improvisando em busca de soluções para cada música. O Andy fez questão de aproveitar ao máximo essas faíscas de espontaneidade. Isso deu um aspecto humano ao disco, que me agrada muito. Ainda assim, talvez a maior vantagem tenha sido a de ter encontrado um novo amigo.

Mb: Dá pra notar que Umbilical se desaproxima um pouco do pop do disco anterior e alça voos em outras direções. Quais foram as maiores influências para esse novo trabalho? Iorc: Para as composições de Umbilical, me induzi a uma espécie de experimento. Me isolei por alguns meses no meu apartamento em busca de algo verdadeiramente espontâneo. Durante esse tempo, quase não ouvi música e me regrei a não buscar referências nem ser contaminado por soluções prontas de outros artistas. O processo todo foi lento. Com frequência me senti despreparado, pouco inventivo. Mas deixei fluir. Quando esbarrava em alguma limitação, parava por um tempo, as vezes dias, até que surgisse uma solução. O resultado foram canções muito autobiográficas. Na hora de produzir e gravar o disco, pedi aos músicos da banda que experimentassem o mesmo. Com isso, toda a pluralidade do talento de cada um pode se doar em cada música. As influências estão todas ali, mas não as buscamos intencionalmente. Tudo o que já vivenciamos, toda a música que já ouvimos, dá base a esse trabalho.

Mb: O seu som pode ser descrito de várias formas. Como você lida com os rótulos e tags que as pessoas colocam nas músicas e em você? Iorc: Não ligo para os rótulos. No fundo, independente dessa necessidade humana de rotular as coisas, sinto que a música tem sempre o mesmo objetivo: o de comover. Sendo assim, a música pode ser percebida de duas maneiras: ou ela comove, ou não. Levando em consideração que a percepção está em cada um, a única coisa que está ao meu alcance é fazer música com carinho e esperar que aquilo que me comove comova também outras pessoas.

Mb: Em meio a tudo isso, como você trabalha para deixar claro “qual é a sua” com seu trabalho? Iorc:Trabalhando. Tenho amor à tudo que me dedico e o foco está sempre em ser sincero com o que acredito e na vontade de inspirar algo bom nas pessoas.

Mb: Você sente alguma pressão para parecer mais ou menos “brasileiro” no seu som? Iorc: Não. Venho de uma família de brasileiros que sempre viajou muito. Minha irmã mais velha nasceu e mora nos Estados Unidos. Eu nasci aqui, mas, nos momentos mais decisivos da minha formação, fui influenciado por outras culturas além da brasileira. Tenho o mesmo carinho por todas elas.

Mb: Em abril, sai a coletânea Re-Trato com covers do Los Hermanos e com participação sua. Como está sendo a experiência de dar sua cara ao som deles e gravar em português? Iorc: É sempre interessante tentar encaixar uma música de outro compositor à sua própria forma de se expressar. As nuances vocais, o ritmo silábico, o sotaque, a harmonia, foram todos concebidos por outra pessoa com características muito individuais, e são justamente essas características que dão vida à particularidade de cada música. Quero fazer algo diferente, dentro do meu estilo, sem deixar de respeitar o brilho da canção original. Me identifico bastante com o trabalho do Los Hermanos, e isso tem contribuído para que o processo flua naturalmente. Será meu primeiro registro em estúdio cantando em português e estou curioso pra ouvir o resultado.

Mb: Você sempre se envolve com a concepção e produção dos seus videoclipes. Essa autoria é importante para você? É uma maneira de continuar algo que começou nas músicas e levar isso para outros formatos? Iorc: Sempre gostei de produzir coisas, desde pequeno. Tenho prazer pelo processo. Desde a faísca de uma ideia, até sua forma final. Sou fascinado por vídeo e, nessas produções, sempre gosto de envolver outras pessoas com ideias complementares. Assim, o resultado não fica preso somente ao meu ponto de vista.

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ARTISTA: Tiago Iorc
MARCADORES: Entrevista

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.